Quando suspeitar de uma IST? Saiba identificar os principais sinais de alerta 

Homem segurando a região íntima com desconforto, possível sintoma de IST

No Brasil, cerca de 12 milhões de novos casos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) são registrados todos os anos — e os jovens e adolescentes representam quase 50% de todos os quadros. As ISTs são causadas por vírus, bactérias, fungos ou parasitas que podem ser transmitidas, principalmente, por meio da relação sexual sem preservativo.

Diversas infecções podem permanecer silenciosas por longos períodos, sem causar sintomas perceptíveis, o que inclusive faz com que muitas pessoas não percebam que estão infectadas. Isso facilita a transmissão para outras pessoas e aumenta o risco de complicações mais sérias.

Mas afinal, como reconhecer os sinais de alerta das ISTs? Conversamos com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza para entender os tipos mais comuns de IST, os principais sintomas e quando procurar atendimento médico. Dá uma olhada!

Quando desconfiar de uma infecção sexualmente transmissível?

Nem sempre as infecções sexualmente transmissíveis provocam sintomas logo no início, o que torna comum a condição ser descoberta em exames de rotina ou quando surgem complicações. No entanto, o corpo pode dar sinais quando algo não está bem.

A recomendação é ficar atento a qualquer mudança na região genital, anal ou bucal, especialmente após uma relação sexual sem preservativo, já que alterações como corrimento diferente do habitual, feridas, coceira, dor ou desconforto merecem avaliação.

Quais os sinais de alerta para IST?

Os sintomas de ISTs podem variar entre homens e mulheres, mas existem alguns sinais clássicos para ficar de olho, como:

  • Corrimento genital (uretral ou vaginal): diferente da secreção natural, o corrimento relacionado a IST costuma apresentar cor amarelada, esverdeada ou acinzentada, odor mais forte e pode vir acompanhado de coceira, ardência ou desconforto;
  • Feridas, bolhas ou úlceras: o aparecimento de feridas, com ou sem dor, representa um sinal importante de alerta, podendo surgir no pênis, na vulva, na vagina, no ânus e também na boca ou na garganta;
  • Verrugas genitais: pequenas elevações na pele que podem surgir isoladas ou agrupadas, normalmente indolores, embora possam causar coceira ou incômodo;
  • Dor ou ardor ao urinar: a sensação de queimação, ardência ou desconforto ao urinar é um sintoma frequente em infecções que atingem a uretra e deve ser investigado;
  • Dor durante a relação sexual ou no baixo ventre: nas mulheres, a dor profunda durante a relação íntima ou um desconforto persistente na região inferior do abdome pode indicar infecção que atingiu estruturas internas, como útero e trompas, quadro conhecido como doença inflamatória pélvica (DIP).

Tipos mais comuns de IST (e os sintomas específicos)

As ISTs consistem em um conjunto muito amplo de condições. De acordo com Andreia, elas vão desde infecções identificadas por exames de sangue, como HIV, hepatite B, hepatite C e sífilis, até aquelas diagnosticadas a partir da coleta de material dos órgãos genitais, como secreções, raspados de úlceras ou bolhas.

Elas podem ser causadas por bactérias, vírus ou outros microrganismos, e cada uma age de maneira diferente no organismo. Veja algumas das mais comuns a seguir:

Sífilis

A sífilis é uma infecção causada por uma bactéria chamada Treponema pallidum. Ela costuma começar com uma ferida única e indolor na região íntima, na boca ou no ânus, que desaparece sozinha após alguns dias ou semanas.

Mesmo quando a ferida some, a bactéria continua no corpo e pode evoluir para fases mais graves, causando manchas na pele, febre, queda de cabelo e, em estágios avançados, danos ao coração e ao sistema nervoso.

A infecção tem cura, e o tratamento é feito com o uso de remédios antibióticos, geralmente à base de penicilina (benzetacil), administrada em uma ou três doses, dependendo do estágio da doença, de acordo com Andreia.

Gonorreia

A gonorreia é uma infecção causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, que costuma atingir principalmente a uretra, o colo do útero, o reto e a garganta, sendo transmitida normalmente por meio da relação sexual sem preservativo.

Ela pode provocar corrimento amarelado ou esverdeado, dor ou ardor ao urinar e, em alguns casos, desconforto durante a relação sexual. Nas mulheres, é comum a ausência de sintomas nas fases iniciais, o que pode atrasar o diagnóstico e aumentar o risco de complicações.

O tratamento da gonorreia é feito com antibióticos, sendo o esquema mais comum a combinação de uma dose única injetável, normalmente ceftriaxona, associada a uma medicação por via oral, como a azitromicina.

Clamídia

A clamídia é uma infecção causada pela bactéria Chlamydia trachomatis e está entre as ISTs mais comuns, principalmente entre jovens e adultos com vida sexual ativa.

Assim como ocorre na gonorreia, a transmissão costuma acontecer durante a relação sexual sem preservativo, e a infecção pode atingir a uretra, o colo do útero, o reto e a garganta.

Ela pode provocar corrimento, ardor ao urinar, dor pélvica ou desconforto durante a relação sexual, mas é bastante comum não haver sintomas, especialmente nas mulheres, o que pode atrasar o diagnóstico. Quando não tratada, a infecção pode causar inflamações no útero e nas trompas, aumentando o risco de infertilidade e dor pélvica crônica.

O tratamento da clamídia também é realizado com o uso de antibióticos, sendo a azitromicina, em dose única, ou a doxiciclina, administrada por cerca de sete dias, as opções mais frequentemente prescritas pelo médico.

HPV (Papilomavírus Humano)

O HPV é um vírus transmitido principalmente pelo contato sexual, inclusive pelo contato íntimo pele a pele, mesmo quando não há penetração. Existem muitos tipos diferentes do vírus: alguns causam verrugas genitais, enquanto outros estão associados ao risco de câncer, principalmente no colo do útero, mas também no ânus, pênis e garganta.

Em muitos casos, a infecção não provoca sintomas visíveis e pode ser eliminada naturalmente pelo organismo ao longo do tempo. Quando surgem lesões, elas costumam aparecer como verrugas na região genital ou anal.

Vale apontar que não existe um medicamento capaz de eliminar totalmente o vírus, mas há tratamentos eficazes para as lesões, além da vacina, que é uma importante forma de prevenção.

Herpes genital

O herpes genital é causado pelo vírus herpes simples, geralmente o tipo 2, e é transmitido principalmente pelo contato sexual sem preservativo. A infecção costuma provocar pequenas bolhas doloridas na região íntima, que se rompem, formam feridas e depois cicatrizam.

Após o primeiro contato com o vírus, ele permanece no organismo e pode causar novas crises ao longo da vida, principalmente em períodos de estresse, cansaço, doença ou queda da imunidade.

Embora não exista uma cura definitiva, o tratamento com medicamentos antivirais ajuda a controlar os sintomas, reduzir a duração das crises e diminuir o risco de transmissão.

HIV

O HIV é o vírus da imunodeficiência humana e ataca diretamente o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo contra infecções. A transmissão acontece principalmente por relação sexual sem preservativo, contato com sangue contaminado ou da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação.

Nos primeiros dias ou semanas depois da infecção, a pessoa pode ter sintomas semelhantes aos de uma gripe, como febre, mal-estar, dor no corpo e ínguas, mas muitas pessoas não apresentam sinais.

Sem tratamento, o vírus pode evoluir para a AIDS, fase mais avançada da infecção. Atualmente, o tratamento com medicamentos antirretrovirais permite que a pessoa tenha qualidade de vida, controle a infecção e, quando a carga viral está indetectável, não transmita o vírus por via sexual.

Hepatite B e hepatite C

As hepatites B e C são infecções virais que afetam principalmente o fígado e podem ser transmitidas por relação sexual sem preservativo, contato com sangue contaminado ou da mãe para o bebê. Muitas vezes não causam sintomas no início, o que pode dificultar a identificação precoce.

Quando sinais aparecem, podem incluir cansaço excessivo, náusea, dor abdominal, urina escura e pele ou olhos amarelados, quadro conhecido como icterícia.

A hepatite B pode ser prevenida por meio de vacina, que está disponível gratuitamente no calendário nacional de vacinação para todas as idades. A hepatite C, por outro lado, não possui uma vacina, mas tem tratamentos antivirais que conseguem eliminar o vírus do organismo na maioria dos casos.

Quanto tempo após a relação os sintomas aparecem?

O intervalo entre o contato com o agente infeccioso e o surgimento dos primeiros sintomas é chamado de período de incubação, e cada infecção tem um tempo diferente para começar a apresentar sinais no corpo.

Em algumas ISTs, como a gonorreia, os sintomas podem surgir poucos dias após a relação sexual, geralmente entre dois e dez dias. Já em outras, como a clamídia, os sinais podem aparecer após uma ou duas semanas — embora seja comum a pessoa não sentir nada no início.

A sífilis, por exemplo, pode provocar a primeira ferida entre dez e noventa dias após o contato. No caso do HIV, algumas pessoas apresentam sintomas semelhantes aos de uma gripe entre duas e quatro semanas depois da exposição, mas muitas não percebem nenhuma alteração por um período prolongado.

Existe ainda a chamada janela imunológica, que corresponde ao período em que a infecção já ocorreu, mas os exames laboratoriais ainda podem não detectar o vírus ou a bactéria. Por isso, Andreia aponta que é recomendado repetir os exames cerca de seis meses após uma exposição de risco.

Como é feito o diagnóstico das ISTs?

O diagnóstico das infecções sexualmente transmissíveis costuma ser simples e rápido, já que o SUS disponibiliza testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C, com resultados que podem sair em cerca de 30 minutos, o que facilita o início do tratamento quando necessário.

Nos casos em que há sintomas como corrimento, feridas ou verrugas, o médico realiza uma avaliação clínica detalhada e, se for preciso, pede exames complementares, como a coleta de secreção, exames de sangue ou, em algumas situações específicas, a realização de biópsia.

De acordo com Andreia, atualmente, são utilizados testes biomoleculares, como o PCR, que permitem identificar o material genético dos microrganismos e confirmar o diagnóstico com maior precisão.

O que fazer ao suspeitar de uma infecção?

Antes de qualquer coisa, diante de uma suspeita, é fundamental manter a calma e buscar orientação médica. A maioria das infecções sexualmente transmissíveis tem tratamento, e quanto mais cedo for feita a avaliação, maiores são as chances de resolver a infecção sem complicações.

Veja algumas orientações:

  • Não use medicamentos por conta própria, pois pomadas, antibióticos ou qualquer outro remédio podem até aliviar os sintomas por um tempo, mas não resolvem o problema e podem dificultar o diagnóstico correto;
  • Evite relações sexuais até ter um diagnóstico. Dar uma pausa no contato íntimo ajuda a proteger você e outras pessoas até que a situação esteja esclarecida;
  • Procure atendimento em um serviço de saúde, como uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), que oferecem atendimento gratuito, sigiloso e orientação adequada;
  • Converse com parceiros recentes para informar sobre, pois mesmo sem sintomas a pessoa pode precisar de avaliação e tratamento.

Andreia ainda lembra que, no caso do HIV, existe a profilaxia pós-exposição (PEP), que consiste no uso de medicamentos após uma situação de risco e deve ser iniciada, preferencialmente, até 72 horas após a exposição.

Também existe a profilaxia pré-exposição (PrEP), indicada para pessoas com maior risco de contato com o vírus e disponível no SUS. É uma medicação oral diária e, mais recentemente, de formulações injetáveis de longa duração, que ainda estão em processo de ampliação de acesso.

Como prevenir uma IST?

A principal forma de prevenção das ISTs continua sendo o uso de métodos de barreira, como a camisinha masculina ou feminina, durante todas as relações sexuais. Caso surjam sintomas ou ocorra uma relação sem proteção, o ideal é procurar atendimento médico o quanto antes.

Em muitas situações, Andreia aponta que exames são indicados apenas pela exposição ao risco, mesmo quando não há sintomas aparentes.

Leia mais: HPV: o que é, riscos e como a vacina pode proteger sua saúde

Perguntas frequentes

1. O preservativo protege 100% contra todas as ISTs?

Não. Apesar de ser o método mais eficaz, o preservativo não protege totalmente contra infecções que podem ser transmitidas pelo contato com a pele ou mucosas não cobertas, como o HPV, a herpes genital e a sífilis.

2. Posso pegar uma IST no banheiro público ou na piscina?

É extremamente improvável. Os agentes causadores das ISTs geralmente não sobrevivem fora do corpo humano ou no ambiente (como água clorada). A transmissão ocorre quase exclusivamente pelo contato sexual (oral, vaginal ou anal).

3. Se eu tratar uma IST uma vez, fico imune a ela?

Não, as infecções bacterianas como sífilis e gonorreia não geram imunidade. Você pode ser infectado e precisar de tratamento novamente quantas vezes for exposto à bactéria.

4. O que acontece se eu não tratar uma IST?

As consequências podem ser graves, incluindo infertilidade (DIP), complicações na gravidez, danos ao sistema nervoso, doenças cardiovasculares e maior facilidade em contrair outras infecções, como o HIV.

5. O que é corrimento “normal” e quando ele indica uma IST?

O corrimento normal é transparente ou esbranquiçado e sem cheiro. Se ele mudar de cor (verde, amarelo, cinza), ficar espesso como leite coalhado ou tiver odor forte (semelhante a peixe podre), é sinal de infecção e deve ser avaliado.

6. Existe vacina contra quais ISTs?

Atualmente, as vacinas disponíveis e altamente eficazes são contra o HPV (previne verrugas e câncer) e a hepatite B. Para as demais, como HIV, sífilis e herpes, a prevenção depende do uso de barreiras (preservativos).

Leia mais: HIV: o que é, como se pega e como é o tratamento hoje