Sedentarismo na infância: quais os principais riscos para o coração? 

Criança sentada no chão usando celular em ambiente doméstico, representando uso precoce de tecnologia infantil e o sedentarismo na infancia

Sabia que os cuidados com a saúde do coração devem começar ainda na infância? Movimento, brincadeiras, alimentação equilibrada e sono adequado ajudam o organismo da criança a se desenvolver de maneira mais saudável. Quando a rotina infantil se torna sedentária, algumas mudanças silenciosas podem surgir no metabolismo, nos vasos sanguíneos e no próprio coração.

Segundo a cardiologista Juliana Soares, o sedentarismo na infância é definido principalmente pelo equilíbrio entre o nível de atividade física, ou seja, o quanto a criança se movimenta, e o comportamento sedentário, que corresponde ao tempo em repouso ou diante de telas, como celular, televisão, tablet e videogame.

Diferentemente dos adultos, a avaliação na infância varia conforme a idade, porque acompanha o desenvolvimento físico, motor e neurológico da criança. Vamos entender mais, a seguir.

O que é considerado sedentarismo na infância?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria consideram sedentária a criança que não atinge a quantidade mínima de atividade física indicada para a própria faixa etária. As recomendações incluem:

  • Bebês: devem se movimentar várias vezes ao longo do dia, com brincadeiras, tempo no chão e estímulo à exploração corporal;
  • Crianças entre 1 e 2 anos: precisam acumular pelo menos 180 minutos diários de movimentação, de qualquer intensidade;
  • Crianças entre 3 e 5 anos: também devem atingir cerca de 180 minutos por dia, incluindo pelo menos 60 minutos de atividade moderada a vigorosa;
  • Crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos: devem realizar no mínimo 60 minutos diários de atividade física com intensidade pelo menos moderada.

O sedentarismo, nessa fase, não envolve apenas a falta de exercício, mas também o excesso de atividades de baixo gasto energético, como permanecer sentado, deitado ou muito tempo diante de telas.

Sedentarismo na infância já pode afetar a saúde do coração?

Mesmo durante os primeiros anos de vida, a falta de movimento pode provocar alterações no organismo que aumentam o risco cardiovascular no futuro. Segundo estudos, o processo de formação de placas de gordura nas artérias, conhecido como aterosclerose, pode começar ainda na infância.

Quando a criança se movimenta pouco, o coração tende a ficar menos eficiente, os vasos sanguíneos podem perder parte da elasticidade e surgem condições como aumento de peso, colesterol alterado e pressão mais elevada.

Além disso, hábitos criados na infância costumam continuar na vida adulta, o que pode favorecer obesidade, diabetes, hipertensão e outras doenças cardiovasculares ao longo dos anos.

Alterações metabólicas começam ainda na infância?

As principais alterações metabólicas que podem surgir ainda na infância incluem, segundo Juliana:

  • Resistência insulínica: o corpo passa a produzir mais insulina para manter o nível de açúcar estável no sangue, o que pode sobrecarregar o pâncreas e aumentar o risco de diabetes;
  • Dislipidemia: alterações nos níveis de colesterol, com aumento dos triglicerídeos, redução do colesterol HDL (considerado protetor) e aumento do LDL (associado a maior risco cardiovascular);
  • Inflamação sistêmica: quando o sedentarismo se associa ao excesso de peso, o tecido adiposo libera substâncias inflamatórias que podem agredir o revestimento das artérias e favorecer o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Riscos do sedentarismo infantil para o coração

O sedentarismo na infância pode trazer problemas importantes para a saúde do coração mesmo quando a criança ainda parece saudável. A falta de movimento reduz a capacidade do coração, favorece alterações metabólicas e pode aumentar o risco de doenças cardíacas ao longo da vida.

Entre alguns dos principais riscos, é possível destacar:

  • Maior probabilidade de sobrepeso e obesidade desde cedo;
  • Alterações no colesterol e nos triglicerídeos;
  • Tendência ao aumento da pressão arterial;
  • Maior risco de resistência à insulina e diabetes;
  • Início precoce do acúmulo de gordura nas artérias;
  • Inflamação do organismo que prejudica os vasos sanguíneos;
  • Redução do condicionamento físico e da eficiência cardíaca;
  • Aumento do risco de doenças cardiovasculares na vida adulta.

Segundo Juliana, o tempo excessivo diante de telas, como televisão, videogames e celulares, é atualmente um dos maiores preditores de sedentarismo.

Além da redução do movimento, o excesso de telas costuma estar associado ao consumo de alimentos ultraprocessados, lanches calóricos e hábitos alimentares menos adequados. Também pode provocar privação de sono, o que desregula hormônios relacionados à fome, ao estresse e ao crescimento infantil.

Alimentação na infância também influencia o risco cardiovascular futuro?

O paladar e os hábitos alimentares começam a se formar na infância, e muitas preferências adquiridas na fase costumam acompanhar a pessoa ao longo da vida. Por isso, Juliana aponta que a qualidade da alimentação infantil tem impacto direto na saúde cardiovascular futura.

O consumo frequente de sódio, presente em salgadinhos, embutidos e alimentos ultraprocessados, assim como o excesso de açúcar, comum em refrigerantes, doces e bebidas artificiais, pode favorecer o aumento da pressão arterial, o acúmulo de gordura visceral, a resistência à insulina e outras alterações metabólicas. Com o tempo, as condições aumentam o risco de doenças cardiovasculares.

Como fazer a criança se movimentar mais na infância?

Segundo o Guia de Atividade Física para a População Brasileira, incentivar movimento desde cedo ajuda no desenvolvimento físico, emocional e cardiovascular. Algumas dicas podem ajudar, como:

  • Priorizar brincadeiras ativas, como correr, pular, dançar, andar de bicicleta ou jogar bola;
  • Estimular tempo ao ar livre sempre que possível, em parques, praças ou quintal;
  • Reduzir tempo de telas e criar limites claros para celular, TV, videogame e tablet;
  • Participar das atividades junto com a criança, já que o exemplo familiar influencia muito;
  • Incentivar esportes ou atividades físicas que despertem interesse e prazer;
  • Variar atividades para evitar monotonia e manter motivação;
  • Organizar rotina com horários para movimento, sono e lazer ativo;
  • Valorizar deslocamentos ativos, como caminhar até locais próximos quando possível;
  • Evitar longos períodos sentados, incentivando pausas para se mexer;
  • Criar ambiente seguro e estimulante para brincadeiras dentro ou fora de casa.

Também é importante manter acompanhamento pediátrico regular, com avaliação do peso, da altura, do crescimento e do desenvolvimento global da criança. Ele ajuda a identificar precocemente possíveis alterações relacionadas à saúde cardiovascular, ao metabolismo e ao estilo de vida.

Confira: Importância de controlar o açúcar na infância e quais doenças previne

Perguntas frequentes

1. Crianças podem ter pressão alta?

Sim, pois o sedentarismo, aliado à má alimentação, é uma das principais causas de hipertensão infantil. O excesso de peso força o coração a trabalhar muito mais do que o necessário.

2. Como saber se meu filho é considerado sedentário?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define como sedentária a criança que não pratica ao menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa.

3. Existe algum sinal visível de que o coração da criança está sobrecarregado?

Cansaço excessivo em brincadeiras leves, falta de ar desproporcional ao esforço e palpitações são sinais de alerta que exigem consulta médica.

4. Crianças podem fazer musculação?

Sim, desde que supervisionada e adaptada à idade. O foco não é hipertrofia (músculos grandes), mas o fortalecimento muscular que auxilia no metabolismo e protege as articulações.

5. Quando devo levar meu filho ao cardiologista pediátrico?

Se houver histórico familiar de doenças cardíacas precoces, se a criança apresentar obesidade, pressão alta ou se você pretende matriculá-la em esportes competitivos.

6. A partir de qual idade deve-se medir a pressão arterial de uma criança?

A recomendação atual é que a pressão seja aferida anualmente em todas as consultas de rotina a partir dos 3 anos de idade, ou antes, se houver fatores de risco (como prematuridade ou doenças renais).

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