Mudanças de humor fazem parte da vida. Mas quando essas oscilações são intensas, duram semanas e interferem no trabalho, nos relacionamentos e na segurança da pessoa, pode haver algo além de fase ruim. O transtorno bipolar é uma condição psiquiátrica séria, mas tratável, que exige diagnóstico correto e acompanhamento contínuo.
Também chamado de transtorno afetivo bipolar (TAB), ele é caracterizado por episódios de elevação anormal do humor (mania ou hipomania) alternados com episódios de depressão. Entre essas fases, a pessoa pode passar por períodos de estabilidade.
Um dos grandes desafios é que muitas vezes o primeiro episódio é depressivo, o que pode levar ao diagnóstico errado de depressão comum e atrasar o tratamento adequado.
Quais são os tipos de transtorno bipolar?
Segundo o manual diagnóstico utilizado em psiquiatria (DSM-5), existem diferentes formas da doença.
Transtorno bipolar tipo I (TAB I)
- Presença de pelo menos um episódio de mania (fase de euforia intensa ou irritabilidade com perda de controle);
- Pode haver episódios depressivos;
- Pode haver episódios de hipomania, que é uma fase de euforia de menor intensidade.
Transtorno bipolar tipo II (TAB II)
- Presença de pelo menos um episódio de hipomania (forma mais leve de euforia);
- Presença de pelo menos um episódio de depressão maior;
- Não há histórico de mania completa.
Transtorno ciclotímico (ciclotimia)
- Oscilações crônicas de humor mais leves;
- Sintomas depressivos e de elevação do humor que não chegam a preencher todos os critérios formais;
- Duração de pelo menos dois anos.
Quem pode desenvolver?
O transtorno bipolar pode afetar homens e mulheres de forma semelhante.
- Início mais comum entre 15 e 24 anos;
- A maioria apresenta sintomas antes dos 25 anos;
- Pode haver novo pico de diagnóstico entre 45 e 54 anos.
Estima-se que cerca de 2,4% da população mundial apresente algum grau do espectro bipolar.
O que causa o transtorno bipolar?
Não existe uma única causa. A condição resulta da combinação de vários fatores.
Entre eles:
- Predisposição genética (história familiar aumenta o risco);
- Alterações em substâncias químicas do cérebro, como dopamina e serotonina (neurotransmissores);
- Eventos estressantes importantes;
- Alterações estruturais e funcionais no cérebro.
Situações como perdas, separações, desemprego ou parto podem anteceder crises em pessoas predispostas.
Como são os episódios?
Episódio de mania (mais comum no tipo I)
Dura pelo menos uma semana (ou menos, se houver necessidade de internação).
Pode envolver:
- Humor muito elevado ou irritabilidade intensa;
- Energia exagerada;
- Redução da necessidade de sono (dormir pouco e não sentir cansaço);
- Fala acelerada;
- Pensamentos rápidos;
- Sensação de grandiosidade (acreditar que tem habilidades ou poderes especiais);
- Impulsividade (gastos excessivos, decisões arriscadas);
- Comportamentos de risco.
Pode causar grande prejuízo social ou profissional. Em alguns casos, há perda de contato com a realidade (sintomas psicóticos).
Episódio de hipomania (mais comum no tipo II)
É semelhante à mania, mas:
- Dura pelo menos 4 dias;
- Não causa prejuízo grave;
- Não há sintomas psicóticos;
- Geralmente não exige internação.
A pessoa pode parecer apenas “mais animada que o normal”, o que dificulta o diagnóstico.
Episódio depressivo
Dura pelo menos duas semanas.
Pode incluir:
- Tristeza persistente;
- Perda de interesse;
- Alteração do sono;
- Alteração de apetite;
- Cansaço excessivo;
- Culpa exagerada;
- Dificuldade de concentração;
- Pensamentos de morte ou suicídio.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é clínico, feito por psiquiatra com base em:
- Entrevista detalhada;
- Histórico de episódios anteriores;
- Histórico familiar;
- Exclusão de outras causas, como uso de drogas ou doenças clínicas.
Não existe exame de sangue específico para confirmar transtorno bipolar.
É importante diferenciar de:
- Depressão comum;
- Transtornos de ansiedade;
- Transtorno de personalidade borderline;
- TDAH;
- Transtornos induzidos por substâncias.
Como é o tratamento?
O tratamento combina medicação e psicoterapia, geralmente por longo prazo.
Tratamento da mania
- Estabilizadores do humor (como lítio e valproato);
- Antipsicóticos modernos (como quetiapina e risperidona);
- Medicamentos para agitação, quando necessário;
- Eletroconvulsoterapia (ECT) em casos graves.
Vale lembrar que a eletroconvulsoterapia (ECT) é um procedimento médico seguro realizado sob anestesia e usado em situações específicas.
Tratamento da depressão bipolar
- Lítio;
- Lamotrigina;
- Antipsicóticos específicos;
- Antidepressivos não devem ser usados sozinhos, pois podem desencadear mania.
Tratamento de manutenção
- Uso contínuo de estabilizadores do humor;
- Psicoterapia (como terapia cognitivo-comportamental);
- Monitoramento de efeitos metabólicos;
- Acompanhamento regular com psiquiatra.
O lítio é um dos medicamentos mais eficazes na prevenção de recaídas e na redução do risco de suicídio.
Complicações e riscos
Sem tratamento adequado, o transtorno bipolar pode estar associado a:
- Aumento do risco de suicídio;
- Problemas financeiros e legais;
- Doenças cardiovasculares e metabólicas;
- Uso abusivo de álcool e drogas.
Com tratamento correto, muitos pacientes conseguem estabilização e boa qualidade de vida.
Quando procurar ajuda?
Procure avaliação médica se houver:
- Oscilações intensas de humor;
- Períodos de energia excessiva com impulsividade;
- Episódios depressivos repetidos;
- Ideias de suicídio;
- Mudança significativa no padrão de sono ou comportamento.
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Perguntas frequentes sobre transtorno bipolar
1. Transtorno bipolar é o mesmo que mudança de humor?
Não. As mudanças são intensas, duram dias ou semanas e causam prejuízo real.
2. O transtorno bipolar tem cura?
Não há cura definitiva, mas há controle eficaz com tratamento contínuo.
3. Quem tem transtorno bipolar pode trabalhar normalmente?
Sim. Com tratamento adequado, muitas pessoas levam vida produtiva.
4. Antidepressivo pode piorar o transtorno bipolar?
Sim, se usado sozinho pode desencadear mania.
5. O transtorno bipolar é hereditário?
Há forte componente genético, mas não é 100% determinístico.
6. É possível prevenir recaídas?
Sim. Com uso regular da medicação e acompanhamento.
7. O transtorno bipolar pode aparecer só na fase adulta?
Sim. Embora geralmente comece antes dos 25 anos, pode surgir mais tarde.
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