Sabia que, com o aumento das temperaturas, o corpo humano precisa se adaptar para manter a temperatura interna estável?
Nos dias mais quentes, o sistema cardiovascular trabalha dobrado: o coração acelera, os vasos se dilatam e o organismo perde mais líquido por meio do suor. É um processo natural, mas que pode ser desafiador para pessoas que convivem com problemas cardiovasculares.
Conversamos com a cardiologista Juliana Soares para entender o que acontece no corpo durante os dias de calor intenso, quem corre mais riscos e quais cuidados podem ajudar.
O que acontece com o coração durante o calor intenso?
Quando o corpo é exposto a altas temperaturas, ocorre uma série de reações fisiológicas automáticas. Primeiro, o organismo precisa manter a temperatura corporal em torno de 36 °C a 37 °C, o que é chamado de homeostase térmica. Para isso, o coração e os vasos sanguíneos trabalham em conjunto para dissipar o calor.
De acordo com a cardiologista Juliana Soares, no calor acontece um processo conhecido como vasodilatação, em que ocorre a dilatação dos vasos sanguíneos para que o sangue circule mais próximo da superfície e das extremidades, promovendo a dissipação do calor. O processo acaba provocando uma queda da pressão arterial e faz com que o sangue fique distribuído de forma diferente no organismo — mais concentrado nas extremidades.
Para manter um fluxo adequado para os órgãos vitais, o coração aumenta a frequência dos batimentos e o bombeamento de sangue, levando a um quadro de taquicardia.
Para complementar, os dias quentes também causam uma perda excessiva de líquidos pela transpiração, normalmente acompanhada de perda de eletrólitos, como sódio e potássio. Isso também pode afetar o equilíbrio elétrico do coração e modificar o ritmo cardíaco, favorecendo o surgimento de arritmias.
O calor intenso afeta mais quem tem condições de saúde?
Pessoas com doenças do coração, pressão alta, diabetes e obesidade, por exemplo, são mais afetadas pelo calor extremo porque o organismo delas tem menos capacidade de se adaptar rapidamente às variações de temperatura.
Nesses grupos, o coração já trabalha sob maior demanda e, diante do calor extremo, precisa se esforçar ainda mais para manter o equilíbrio térmico do corpo. A vasodilatação e a perda de líquidos intensificam esse esforço, o que pode causar queda de pressão, aceleração dos batimentos e sobrecarga circulatória.
Em quadros mais graves, o esforço adicional pode desencadear crises hipertensivas, arritmias ou descompensação cardíaca, principalmente quando há falhas na reposição de líquidos e sais minerais. A desidratação também torna o sangue mais viscoso, o que eleva o risco de formação de coágulos, infarto e AVC, de acordo com Juliana.
Além disso, idosos, gestantes e crianças pequenas precisam de atenção redobrada. O sistema de regulação térmica nessas faixas etárias é menos eficiente, e a perda de líquidos ocorre mais rapidamente — o que pode causar queda de pressão, tontura, desmaios, câimbras e exaustão pelo calor.
O calor pode ser perigoso para a saúde?
O calor pode ser perigoso sobretudo quando as temperaturas ultrapassam 35 °C e o corpo não consegue se resfriar adequadamente. Em situações de calor extremo, o organismo perde água e sais minerais rapidamente pelo suor, o que pode causar desidratação, queda de pressão, tontura, desmaio e até colapso circulatório. Além disso, o sangue se torna mais espesso e o coração precisa se esforçar para manter a oxigenação adequada dos tecidos.
Para o coração, o risco é ainda maior, pois o calor obriga o sistema cardiovascular a trabalhar mais: os vasos se dilatam, a pressão arterial cai e o coração precisa bater mais rápido para compensar a perda de volume sanguíneo e manter o fluxo para os órgãos vitais.
Em pessoas com hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes ou colesterol alto, o esforço extra pode levar a arritmias, infarto ou agravamento de doenças pré-existentes.
O calor intenso também pode provocar exaustão térmica e insolação, condições que afetam o sistema nervoso e comprometem o funcionamento de órgãos como o coração, rins e cérebro. Nesses casos, é fundamental interromper atividades, buscar sombra, hidratar-se imediatamente e, se houver piora dos sintomas, procurar atendimento médico.
Sintomas de sobrecarga do coração durante o calor
Os sinais de que o coração está sendo afetado pelo calor podem variar conforme a pessoa e a intensidade da exposição, mas os mais comuns incluem:
- Tontura e fraqueza;
- Batimentos acelerados (taquicardia);
- Falta de ar;
- Dor ou pressão no peito;
- Suor excessivo seguido de pele fria;
- Náuseas.
Em casos mais graves, Juliana aponta que podem surgir câimbras devido à perda de água e eletrólitos pelo suor, além de confusão mental, desorientação e desmaios.
Como se proteger do calor e evitar problemas cardíacos?
No dia a dia, algumas medidas podem ajudar a diminuir o impacto do calor no organismo:
- Beba água com frequência, mesmo sem sede;
- Evite exposição direta ao sol entre 10h e 16h;
- Use roupas leves, claras e confortáveis, de preferência de algodão;
- Prefira locais arejados ou com ventilação natural;
- Reduza o consumo de álcool e cafeína, que aumentam a desidratação;
- Diminua o sal nas refeições, para evitar retenção de líquidos e pressão alta;
- Alimente-se com comidas leves, ricas em frutas, verduras e legumes;
- Não suspenda medicamentos cardíacos sem orientação médica;
- Evite atividades físicas sob sol forte e pratique exercícios apenas em horários mais frescos;
- Monitore a pressão arterial e procure ajuda médica se notar alterações.
Em alguns casos, Juliana explica que pode ser necessário ajustar as doses de medicamentos anti-hipertensivos, especialmente os diuréticos, pois o calor provoca vasodilatação e aumento da perda de líquidos, o que reduz os níveis de pressão arterial. No entanto, qualquer ajuste deve ser feito exclusivamente por um médico.
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Perguntas frequentes
O calor pode provocar aumento da pressão arterial?
Sim, o calor pode alterar a pressão arterial de diferentes maneiras, dependendo do estado de saúde da pessoa. Em indivíduos saudáveis, o mais comum é a pressão cair devido à dilatação dos vasos.
No entanto, em pessoas hipertensas, o calor pode provocar oscilações perigosas, elevando ou reduzindo a pressão de forma brusca. Isso acontece porque o corpo tenta equilibrar a temperatura, mas o esforço cardiovascular e a perda de líquidos interferem diretamente na regulação da pressão.
Em situações extremas, as variações podem causar sintomas como dor de cabeça, tontura, palpitações e, em casos graves, acidentes vasculares cerebrais (AVC). Por isso, é importante manter o controle rigoroso da pressão e reforçar a hidratação durante os períodos de calor intenso.
O calor pode causar infarto?
Pode acontecer. Em ondas de calor prolongadas, há um aumento significativo nas internações por infarto e outras doenças cardíacas, porque o calor intenso acelera o metabolismo e obriga o coração a trabalhar mais, ao mesmo tempo em que o sangue se torna mais espesso devido à perda de líquidos.
A combinação favorece a formação de coágulos e dificulta o fluxo de sangue para as artérias coronárias, que nutrem o músculo cardíaco. Para completar, a perda de eletrólitos interfere na condução elétrica do coração, aumentando o risco de arritmias.
Pessoas com histórico de infarto ou doenças coronarianas devem evitar esforços sob o sol forte e manter hidratação constante.
O calor é perigoso para quem tem diabetes?
O calor representa um risco maior para pessoas com diabetes, pois o controle glicêmico pode ser afetado pela desidratação e pela dilatação dos vasos. Os nervos e vasos sanguíneos, já comprometidos pela doença, também têm menor capacidade de responder às mudanças de temperatura.
Em dias quentes, é fundamental monitorar os níveis de glicemia com mais frequência, manter hidratação constante e evitar longos períodos de exposição ao sol. O calor também pode favorecer o surgimento de infecções cutâneas e feridas nos pés, especialmente em pacientes com neuropatia diabética.
O que é exaustão pelo calor e como ela afeta o organismo?
A exaustão pelo calor é um quadro de sobrecarga térmica em que o corpo perde grande quantidade de líquidos e sais minerais, prejudicando a circulação sanguínea e o funcionamento dos órgãos. Os principais sintomas são fraqueza, tontura, suor excessivo, náusea, dor de cabeça e batimentos acelerados.
Quando não tratada, ela pode evoluir para insolação, situação muito mais grave que pode causar falência de órgãos e parada cardíaca. O tratamento imediato consiste em interromper a exposição ao calor, buscar um local ventilado, deitar com as pernas elevadas, ingerir líquidos e procurar assistência médica.
O que devo fazer se alguém passar mal por causa do calor?
O primeiro passo é levar a pessoa para um local fresco e ventilado, de preferência com sombra ou ar-condicionado. Afrouxe as roupas, deite-a com as pernas elevadas e ofereça água ou soluções de reidratação oral, se ela estiver consciente. Também é possível aplicar compressas frias na testa, axilas e virilhas para ajudar a reduzir a temperatura corporal.
Se a pessoa apresentar desmaio, confusão mental, respiração irregular ou batimentos muito rápidos, procure atendimento médico imediatamente, pois pode se tratar de insolação ou colapso circulatório.
Tomar banho frio ajuda a aliviar os efeitos do calor?
Sim, desde que feito com cuidado. O banho frio reduz temporariamente a temperatura corporal e melhora a circulação superficial, aliviando o desconforto térmico. No entanto, quedas bruscas de temperatura podem causar contração dos vasos sanguíneos e aumento repentino da pressão arterial, especialmente em idosos e hipertensos.
O ideal é usar água morna ou levemente fria, evitando choques térmicos. O banho também não substitui a hidratação interna, portanto, é indispensável continuar bebendo água regularmente ao longo do dia.
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