Trombose na gravidez afeta o bebê? Conheça os sintomas, os cuidados e como evitar

Gestante sentada na cama, segurando a barriga e a perna, representando cuidados na gravidez e atenção à circulação sanguínea.

A trombose venosa profunda, conhecida pela sigla TVP, é a formação de um coágulo de sangue dentro de uma veia profunda, normalmente nas pernas. Ela pode acontecer em qualquer fase da vida, mas é especialmente frequente durante a gravidez, devido às mudanças naturais que ocorrem no corpo feminino.

As veias profundas são responsáveis por levar o sangue de volta ao coração e, quando um coágulo se forma ali, a circulação sanguínea é prejudicada. O maior risco surge quando parte do coágulo se solta e viaja pela corrente sanguínea, podendo alcançar os pulmões e causar uma embolia pulmonar, uma condição grave que exige atendimento imediato.

No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, a trombose na gravidez corresponde a aproximadamente 1% das causas de morte materna.

Por que a trombose venosa profunda é mais comum na gravidez?

Na gravidez, as mudanças que ocorrem no corpo feminino, principalmente na circulação e nos hormônios, podem favorecer a formação de coágulos. O processo envolve alguns fatores, sendo eles:

Hipercoagulabilidade

O sangue da mulher se torna naturalmente mais espesso durante a gravidez, porque o organismo aumenta a produção de fatores de coagulação, como uma forma de prevenir hemorragias importantes durante o parto. É um mecanismo de proteção, mas a mudança favorece a formação de coágulos.

Estase venosa

Com o crescimento do útero, há uma pressão direta sobre as veias da pelve e sobre a veia cava inferior, responsável por levar o sangue das pernas de volta ao coração.

De acordo com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, a compressão dificulta o retorno venoso, fazendo com que o sangue circule de forma mais lenta — o que aumenta o risco de trombose, especialmente no último trimestre.

Alterações hormonais

O aumento dos hormônios da gravidez, como a progesterona e estrogênio, provoca o relaxamento das paredes das veias. Com isso, as veias ficam mais dilatadas e menos eficientes para impulsionar o sangue, contribuindo para a lentidão da circulação e aumentando o risco de trombose.

Quais os fatores de risco?

Algumas mulheres apresentam risco aumentado de desenvolver trombose venosa profunda durante a gravidez, especialmente quando possuem um ou mais dos fatores a seguir:

  • Histórico pessoal de trombose;
  • Histórico familiar de trombose;
  • Doenças que aumentam a coagulação do sangue;
  • Obesidade;
  • Gravidez múltipla;
  • Necessidade de repouso prolongado.

As situações pedem mais atenção durante o pré-natal, com avaliação do risco de forma individual e definição das melhores medidas para prevenir a trombose.

Sintomas de trombose na gravidez

Os sintomas de trombose durante a gravidez costumam aparecer, principalmente, nas pernas. O sinal mais comum é dor em uma perna só, normalmente acompanhada de inchaço, segundo Andreia.

No geral, é importante observar:

  • Dor em uma perna só, na maioria das vezes;
  • Inchaço mais evidente em apenas uma perna;
  • Dor diferente do habitual, que não melhora com o repouso;
  • Sensação de dor muscular profunda, que não parece uma câimbra comum;
  • Endurecimento da musculatura da perna afetada;
  • Inchaço que não oscila ao longo do dia e não desaparece pela manhã;
  • Desconforto que pode melhorar levemente ao elevar a perna, mas não desaparece;
  • Dor localizada, que surge exatamente onde está a trombose, como na panturrilha, na coxa ou na região da bacia.

Durante a gravidez, o diagnóstico pode ser mais difícil porque o inchaço e as dores nas pernas já são comuns, especialmente no último trimestre. Por isso, o principal alerta é quando uma perna fica visivelmente mais inchada e dolorida que a outra, com sintomas que persistem ao longo do tempo.

Como é feito o diagnóstico de trombose na gravidez?

O diagnóstico de trombose na gravidez é feito a partir da avaliação dos sintomas e do histórico da gestante.

Em caso de suspeita, Andreia explica que o exame indicado para confirmar o diagnóstico é o ultrassom com Doppler, que avalia o fluxo de sangue nas veias das pernas e, quando necessário, também nas veias do abdômen. O exame é seguro para a gestante e para o bebê, além de não utilizar radiação.

A ginecologista também destaca que exames de sangue, como o D-dímero, não costumam ajudar durante a gravidez, já que esse marcador biológico fica naturalmente elevado no período. Por isso, o resultado pode confundir e não confirma nem descarta trombose na gestação.

Tratamento de trombose na gravidez

O tratamento de trombose na gravidez é feito a partir da aplicação de injeções diárias de heparina, um medicamento que atua impedindo a formação e o crescimento de coágulos no sangue. Ele é considerado seguro durante a gestação, pois a heparina não atravessa a placenta e não oferece riscos ao bebê.

Na maioria dos casos, é utilizada a heparina de baixo peso molecular, aplicada diariamente sob a pele. Segundo Andréia, o tratamento costuma ser mantido até o fim da gravidez e, em muitos casos, também durante o puerpério, período em que o risco de trombose ainda permanece elevado.

A ginecologista também explica que medicamentos anticoagulantes de uso oral, comuns fora da gestação, não são indicados para grávidas, pois não possuem segurança comprovada no período.

Então, mesmo que o uso de injeções cause desconforto, elas continuam sendo a opção segura para tratar a trombose durante a gravidez e no pós-parto.

Por que o risco de trombose é prolongado no puerpério?

Mesmo com o nascimento do bebê, o organismo da mulher não volta ao normal imediatamente.

Os níveis de estrogênio no puerpério ainda permanecem elevados, o que mantém o sangue mais propenso à coagulação. O corpo também está se recuperando do parto, que pode causar lesões nos vasos sanguíneos, principalmente em casos de cesariana.

Para completar, a redução da mobilidade nos primeiros dias após o parto podem fazer com que a mulher se movimente menos, o que favorece a circulação mais lenta nas pernas.

Como evitar a trombose na gravidez?

Apesar do aumento do risco durante a gravidez, a trombose pode ser prevenida a partir de algumas medidas, como aponta Andreia:

  • Movimentar as pernas ao longo do dia;
  • Evitar ficar muito tempo sentada ou em pé sem se movimentar;
  • Elevar as pernas ao final do dia;
  • Usar meia elástica, inclusive modelos próprios para gestantes.

Em situações de risco mais elevado, pode ser indicada a prevenção com medicação. Nesses casos, o médico pode prescrever uma dose preventiva de heparina, menor do que a dose usada no tratamento da trombose, aplicada diariamente durante a gestação e também no puerpério.

Mas, vale apontar que a decisão de usar heparina preventiva é sempre médica, baseada em critérios e evidências científicas, e deve ser discutida entre a gestante e o obstetra.

As medidas sem remédio são indicadas para todas as gestantes, enquanto a heparina preventiva é reservada apenas para quem apresenta risco aumentado.

No pré-natal, o obstetra avalia os fatores de risco, como histórico prévio de trombose, histórico familiar ou a presença de algumas doenças. Em alguns casos, o cirurgião vascular também participa dessa avaliação, por meio de interconsulta.

Grávidas podem usar aspirina para prevenir a trombose?

Em algumas situações, o uso do ácido acetilsalicílico (AAS) em baixas doses é indicado por outros motivos, como a prevenção da pré-eclâmpsia ou em casos de restrição de crescimento fetal de origem placentária.

Apesar da aspirina ajudar a evitar a formação de coágulos, a heparina continua sendo a opção mais eficaz e segura para prevenir e tratar a trombose durante a gravidez.

Em casos específicos, o médico pode indicar a associação entre AAS e heparina, nas a decisão sempre é médica e leva em conta os riscos e benefícios de cada gestante, já que cada situação precisa ser avaliada de forma individual.

Trombose na gravidez afeta o bebê?

As complicações da trombose afetam o desenvolvimento da gestação, pois o coágulo reduz o fluxo de oxigênio e nutrientes para a placenta. Isso pode comprometer o crescimento do bebê, aumentar o risco de parto prematuro e, em situações mais graves, levar a complicações maternas que exigem acompanhamento e tratamento imediatos.

Quem já teve trombose pode engravidar?

Mulheres com histórico de trombose podem engravidar, desde que tenham acompanhamento médico adequado desde o início da gestação. Isso permite adotar medidas de prevenção, como mudanças de hábitos e, em alguns casos, o uso de medicação segura durante a gravidez.

Com o controle correto e a prevenção adequada, a maioria das mulheres que já teve trombose consegue ter uma gestação segura, reduzindo bastante o risco de uma nova trombose, finaliza Andreia.

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Perguntas frequentes

1. O que fazer em caso de suspeita de trombose?

Procure atendimento médico imediato (obstetra ou pronto-atendimento). Não massageie a região, pois isso pode desprender o coágulo.

2. Qual o maior risco da trombose não tratada?

O maior risco é a Embolia Pulmonar, que ocorre quando o coágulo se solta e viaja até os pulmões, o que pode ser fatal se não tratado rapidamente.

3. Posso amamentar usando heparina?

Sim, a heparina de baixo peso molecular é compatível com a amamentação e não passa para o leite materno em quantidades significativas.

4. O que é trombofilia?

É uma condição (genética ou adquirida) que faz com que o sangue da pessoa tenha uma tendência natural maior a coagular. Muitas mulheres só descobrem que têm após uma trombose ou perdas gestacionais.

5. O uso de meias de compressão é obrigatório para todas as gestantes?

Não é obrigatório, mas é altamente recomendado para quem passa muito tempo em pé ou sentada, ou que já possui varizes. Elas ajudam o sangue a subir, combatendo a “estase” (sangue parado). O uso deve ser indicado por um médico.

6. Posso praticar musculação ou exercícios de impacto se tiver risco de trombose?

Os exercícios de baixo impacto (caminhada, hidroginástica, natação) são os melhores durante a gravidez. Se você já tem um diagnóstico de trombose ativa, o exercício deve ser suspenso até que o médico libere, para evitar que o coágulo se desloque.

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