O consumo de álcool, mesmo em situações sociais, pode atrapalhar os planos de quem está planejando ter filhos. Isso acontece porque o álcool interfere no equilíbrio hormonal, pode afetar a ovulação e dificultar a regularidade do ciclo menstrual — que são fatores importantes para a fertilidade feminina.
E as bebidas alcóolicas não afetam apenas as mulheres, sabia? O consumo também pode impactar a fertilidade dos homens, interferindo na produção e na qualidade dos espermatozoides.
Mas será que existe uma quantidade segura de álcool quando a ideia é engravidar? Para tirar essa dúvida, conversamos com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza. Confira!
Como o álcool afeta a fertilidade?
O consumo de álcool pode interferir na fertilidade tanto de mulheres quanto de homens, especialmente quando acontece de forma frequente ou em grandes quantidades.
Na fertilidade feminina
Nas mulheres, o álcool pode afetar diretamente o equilíbrio hormonal, necessário para a ovulação e para a regularidade do ciclo menstrual. O consumo frequente pode aumentar o número de ciclos sem ovulação, reduzindo as chances de gravidez.
Além disso, o álcool pode prejudicar a qualidade do endométrio, tecido responsável por receber o embrião. Quando esse tecido não está saudável, a implantação se torna mais difícil, mesmo quando a ovulação ocorre normalmente.
Na fertilidade masculina
Nos homens, o álcool interfere na produção de testosterona e pode reduzir a quantidade e a qualidade dos espermatozoides. Isso inclui diminuição da concentração, da motilidade e alterações na forma dos espermatozoides, fatores importantes para a fecundação.
O consumo excessivo também pode afetar a função sexual, levando a dificuldades de ereção e redução da libido, o que pode dificultar ainda mais a concepção.
Período pré-concepcional e gestação
Durante a metabolização no fígado, o álcool libera toxinas e radicais livres, substâncias que, segundo Andreia, causam danos às células e comprometem o funcionamento normal do organismo.
Elas interferem no desenvolvimento adequado dos tecidos, prejudicam processos celulares importantes e aceleram o envelhecimento celular, o que pode impactar diretamente a saúde reprodutiva e outras funções do corpo.
No período pré-concepcional, o consumo de álcool pode desregular hormônios, aumentar a chance de ciclos sem ovulação e comprometer a qualidade do endométrio, que é o tecido responsável por receber o embrião. Isso reduz as chances de a gravidez acontecer de forma natural.
Já durante a gestação, os riscos são ainda maiores, uma vez que tudo que a gestante consome também chega ao bebê. Mesmo pequenas doses de álcool podem afetar o desenvolvimento fetal, especialmente do sistema nervoso central.
Por isso, a orientação durante a gravidez é evitar completamente o consumo de álcool, priorizando a saúde da mãe e do bebê desde o início.
Quais os riscos do consumo de álcool na gravidez?
Durante a gravidez, o álcool é capaz de atravessar a placenta, fazendo com que o feto seja exposto às mesmas substâncias ingeridas pela mãe, inclusive toxinas que podem prejudicar o desenvolvimento.
Um dos principais riscos é a síndrome alcoólica fetal, condição associada ao consumo frequente e elevado de álcool. Ela pode causar problemas como:
- Alterações no desenvolvimento do sistema nervoso central;
- Atraso no crescimento físico do bebê;
- Dificuldades de aprendizagem ao longo da infância;
- Atraso no desenvolvimento neuropsicomotor;
- Alterações comportamentais e cognitivas.
Além disso, o consumo de álcool durante a gestação também está associado a maior risco de parto prematuro, baixo peso ao nascer e outras complicações que podem afetar a saúde do bebê a curto e longo prazo.
Existe quantidade segura de álcool?
Não existe uma quantidade segura de álcool, especialmente durante a gravidez. As evidências científicas mostram que qualquer quantidade pode oferecer riscos, já que o álcool atravessa a placenta e chega diretamente ao bebê, podendo afetar o desenvolvimento, principalmente do sistema nervoso.
De acordo com Andreia, no período de planejamento da gravidez, o efeito do álcool é considerado dose-dependente, ou seja, quanto maior a quantidade e a frequência do consumo, maior o risco para a fertilidade.
Mesmo assim, não há um limite totalmente seguro estabelecido, de modo que a recomendação mais prudente para quem deseja engravidar é reduzir ao máximo ou suspender o consumo de álcool.
E depois da gravidez?
Durante a amamentação, o álcool ingerido pela mãe passa para o leite materno e pode ser consumido pelo bebê, já que o organismo do recém-nascido ainda não consegue metabolizar a substância de forma adequada.
O consumo frequente ou em grandes quantidades pode interferir no sono, no comportamento e no desenvolvimento do bebê, além de reduzir a produção de leite em algumas mulheres, de acordo com estudos. Por isso, a orientação geral é evitar o consumo de álcool durante a amamentação.
Quando suspender o álcool ao planejar uma gestação?
Se você planeja engravidar, a recomendação é suspender o consumo de álcool pelo menos três meses antes de engravidar, segundo Andreia.
O período é importante porque permite que o organismo se recupere dos efeitos do álcool, ajudando a regular os hormônios, melhorar a qualidade dos óvulos e favorecer um ambiente uterino mais saudável para a implantação do embrião.
Na maioria dos casos, os impactos do álcool sobre a fertilidade tendem a ser reversíveis após a interrupção do consumo, principalmente quando não há uso frequente ou em grandes quantidades. Ainda assim, a ginecologista aponta que podem existir sequelas irreversíveis em uma parcela pequena das pacientes.
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Perguntas frequentes
Como o álcool interfere no ciclo menstrual?
O álcool pode elevar os níveis de estrogênio e testosterona, o que desregula os picos de LH e FSH, importantes para a ovulação, podendo causar ciclos anovulatórios (sem óvulo).
Parei de beber hoje, quanto tempo leva para o corpo “limpar”?
Para os homens, o ciclo de produção de novos espermatozoides leva cerca de 72 a 90 dias. Para as mulheres, o impacto hormonal pode começar a ser revertido no ciclo seguinte à abstinência.
Qual o efeito do álcool no leite materno?
O álcool passa livremente do sangue para o leite materno, mantendo concentrações semelhantes em ambos. Ele pode alterar o odor e o sabor do leite, levando à rejeição pelo bebê, além de reduzir a produção de leite ao inibir o reflexo de ejeção (ocitocina).
No pequeno, pode causar sonolência excessiva, irritabilidade e até atrasos no desenvolvimento motor.
Quanto tempo o álcool leva para sair do leite materno?
O tempo de eliminação depende do peso da mãe e da quantidade ingerida. Em média, o organismo leva de 2 a 3 horas para eliminar uma dose padrão (uma taça de vinho ou uma lata de cerveja).
O nível de álcool no leite cai conforme o nível no sangue diminui; portanto, “bombear e descartar” o leite não acelera a saída do álcool do organismo.
Beber durante a amamentação pode afetar o ganho de peso do bebê?
Sim, o consumo regular de álcool pela lactante pode reduzir a ingestão de leite pelo bebê em até 20% em cada mamada, o que pode comprometer o ganho de peso e o crescimento saudável.
O álcool ajuda o bebê a dormir melhor?
Não. Embora o álcool tenha efeito sedativo inicial, ele fragmenta o sono do bebê. O lactente acorda mais vezes, tem um sono de menor qualidade e pode apresentar sonolência excessiva de forma perigosa (letargia).
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