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  • Síndrome de Li-Fraumeni: conheça a condição que aumenta o risco de câncer

    Síndrome de Li-Fraumeni: conheça a condição que aumenta o risco de câncer

    Você já ouviu falar na síndrome de Li-Fraumeni? Embora seja rara no mundo, a condição é muito mais comum no Sul e no Sudeste do Brasil. Ela é marcada por uma alteração no gene TP53, conhecido como “gene guardião” por atuar na proteção do DNA contra danos que podem levar ao surgimento de tumores.

    A mutação compromete esse sistema de defesa natural, facilitando o acúmulo de alterações genéticas ao longo da vida e aumentando o risco de vários tipos de câncer, muitos deles surgindo ainda na idade adulta jovem.

    Segundo o oncologista Thiago Chadid, a condição ganhou destaque no país por causa de um fenômeno genético chamado efeito fundador, associado a um ancestral português que teria transmitido a mutação para milhares de descendentes a partir do século XVIII.

    Por causa dessa herança, muitas famílias podem carregar a alteração sem saber, vivendo com risco aumentado para vários tipos de câncer, como tumores de mama, tumores do sistema nervoso central, sarcomas e outros.

    Afinal, o que é a síndrome de Li-Fraumeni?

    A síndrome de Li-Fraumeni é uma condição genética rara caracterizada por uma mutação no gene TP53, um gene fundamental para proteger o DNA das células contra danos que podem causar tumores.

    Conforme explica Thiago, o TP53 atua como um sensor de dano no DNA: quando surge uma mutação, ele identifica o problema, tenta corrigir o defeito e, se a célula estiver muito comprometida, ativa mecanismos que levam à morte celular programada, impedindo que uma célula defeituosa continue se multiplicando e se transforme em câncer.

    Quando o TP53 não funciona corretamente, o organismo perde parte da sua capacidade de reparar erros genéticos ou eliminar células defeituosas antes que elas se transformem em tumores.

    Quando a pessoa nasce com uma mutação herdada do pai ou da mãe no gene TP53, e ocorre perda de função nas duas cópias do gene, o organismo fica sem esse sistema de proteção. O DNA passa a acumular mutações com muito mais facilidade ao longo da vida, e células alteradas conseguem escapar dos mecanismos naturais de defesa e evoluir para tumores.

    Por isso, a síndrome de Li-Fraumeni aumenta de forma significativa o risco de vários tipos de câncer em idades mais precoces.

    Como a síndrome de Li-Fraumeni é transmitida?

    A síndrome de Li-Fraumeni é transmitida de forma hereditária, por meio de uma mutação no gene TP53 que passa de geração em geração.

    A transmissão ocorre em um padrão chamado autossômico dominante, o que significa que:

    • Um único gene alterado já é suficiente para aumentar o risco de câncer;
    • Qualquer filho de um indivíduo com a mutação tem 50% de chance de herdar a alteração;
    • Tanto homens quanto mulheres podem transmitir a mutação igualmente.

    Quando a pessoa recebe a cópia alterada do pai ou da mãe, ela já nasce com parte da função do TP53 comprometida. Ao longo da vida, basta que a segunda cópia do gene sofra mutação espontânea para que se perca totalmente o mecanismo de proteção do DNA, aumentando a probabilidade de tumores.

    Por isso, famílias com história de vários cânceres em idades jovens, ou tumores considerados raros antes dos 40 anos, costumam ser investigadas para essa mutação.

    Quais tumores a síndrome pode causar?

    De acordo com Thiago, a pessoa pode desenvolver tumores em diferentes órgãos, muitas vezes mais cedo do que o esperado para a população geral. Entre os locais mais frequentemente afetados, destacam-se:

    • Mama;
    • Trato gastrointestinal;
    • Pulmão;
    • Sistema nervoso central;
    • Glândulas endócrinas, como adrenal;
    • Outros sítios, incluindo ossos e tecidos moles.

    Também pode ocorrer mais de um tumor primário ao longo da vida na mesma pessoa, resultado direto da incapacidade do organismo de impedir que novas mutações se acumulem e originem novos cânceres.

    Os tumores associados à síndrome de Li-Fraumeni tendem a ser mais agressivos, uma vez que acumulam um número maior de mutações e apresentam mais mecanismos de resistência.

    Quando o câncer reúne muitas alterações genéticas, o comportamento das células tumorais torna-se mais imprevisível: o tumor cria rotas alternativas para continuar crescendo, mesmo diante do tratamento, dribla terapias que miram um único alvo e, com frequência, apresenta respostas menos duradouras a determinadas drogas.

    Por que o câncer aparece mais cedo na síndrome de Li-Fraumeni?

    A manifestação costuma ser mais precoce porque, sem o gene guardião funcionando bem, os danos que se acumulam ao longo dos anos não são reparados de modo adequado. A rotina atual, marcada por exposição à radiação, hábitos alimentares irregulares, sedentarismo, tabagismo e outros fatores ambientais, intensifica ainda mais o impacto da predisposição genética.

    Thiago explica que, enquanto uma pessoa sem mutação costuma desenvolver câncer com maior frequência após os 60 ou 70 anos, alguém com síndrome de Li-Fraumeni pode apresentar tumores significativos já na faixa dos 20, 30 ou 40 anos.

    Como é feito o diagnóstico da síndrome de Li-Fraumeni?

    O diagnóstico da síndrome de Li-Fraumeni é feito por meio de avaliação clínica, história familiar detalhada e testes genéticos, que confirmam a presença de mutação no gene TP53.

    De forma geral, o processo envolve:

    • Investigação da história pessoal e familiar de câncer, especialmente quando há tumores em idades jovens, múltiplos cânceres na mesma pessoa ou tipos de câncer característicos da síndrome;
    • Avaliação por especialista em genética, que analisa padrões familiares, identifica critérios clínicos (como os critérios clássicos ou critérios de Chompret) e determina se há indicação para exame;
    • Teste genético específico para o gene TP53, realizado a partir de amostra de sangue ou saliva, que confirma ou descarta a presença da mutação;
    • Aconselhamento genético, etapa fundamental antes e depois do teste, para orientar sobre implicações médicas, emocionais e familiares do diagnóstico.

    Segundo Thiago, quando a mutação é confirmada, a família deve ser orientada de forma cuidadosa, e outros parentes podem ser indicados a realizar o teste, sempre com apoio de aconselhamento genético para esclarecer riscos, implicações e estratégias de acompanhamento.

    Cuidados com a síndrome de Li-Fraumeni

    A síndrome de Li-Fraumeni não possui, por enquanto, um protocolo único e rígido seguido por todos os serviços de saúde. A ideia é reduzir ao máximo fatores que aumentem o acúmulo de mutações ao longo da vida. As principais orientações incluem:

    • Evitar a exposição ao cigarro;
    • Redução ou suspensão do álcool;
    • Manter uma alimentação saudável, com alimentos pouco processados e ricos em fibras;
    • Prática regular de atividade física;
    • Proteção da pele contra radiação ultravioleta;
    • Realização periódica de consultas e exames de rastreamento, conforme idade e histórico familiar.

    A proposta é diminuir a exposição a fatores que estimulam danos ao DNA e, ao mesmo tempo, identificar qualquer alteração o mais cedo possível.

    É possível prevenir a síndrome de Li-Fraumeni?

    A prevenção absoluta não é possível, já que se trata de uma alteração herdada. Ainda assim, a combinação de vigilância constante, diagnóstico precoce e escolhas de estilo de vida mais saudáveis pode reduzir o impacto da predisposição e aumentar as chances de identificar tumores em estágios iniciais, quando o tratamento tende a ser mais eficaz.

    Confira: Carcinoma basocelular: entenda mais sobre o tipo de câncer de pele que mais afeta os brasileiros

    Perguntas frequentes

    Qual é a causa genética da síndrome de Li-Fraumeni?

    A causa principal é uma mutação no gene TP53, um gene supressor tumoral. O TP53 é conhecido como “guardião do genoma”, porque detecta danos no DNA das células e impede que elas se transformem em câncer.

    A síndrome de Li-Fraumeni é sempre hereditária?

    Na maioria dos casos (cerca de 70% a 80%), sim, a síndrome é herdada dos pais (mutação germinativa). No entanto, em uma pequena porcentagem dos casos, a mutação pode surgir espontaneamente no indivíduo (mutação de novo), sem histórico familiar aparente.

    Quem deve fazer o teste genético?

    Pessoas com vários familiares com câncer em idade jovem, com tumores raros antes dos 40 anos ou quem já teve mais de um câncer primário. O ideal é realizar com apoio de aconselhamento genético.

    Por que a mutação no TP53 aumenta o risco de tantos tipos de câncer diferentes?

    O TP53 é um gene central para a proteção do DNA. Quando ele falha, qualquer célula do corpo fica mais vulnerável a acumular mutações e evoluir para um tumor. Por isso, a síndrome não se restringe a um órgão específico: músculos, ossos, glândulas, cérebro e vários tecidos podem ser afetados.

    É possível ter uma vida normal mesmo com a síndrome?

    Sim! Apesar do risco, muitas pessoas com síndrome de Li-Fraumeni levam vidas longas, produtivas e com boa qualidade de vida. O grande diferencial é o acompanhamento próximo, a realização de rastreamentos adequados e a adoção de hábitos protetores.

    Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos

  • Infecções podem afetar as válvulas do coração: saiba o que é endocardite infecciosa

    Infecções podem afetar as válvulas do coração: saiba o que é endocardite infecciosa

    A endocardite infecciosa é uma condição rara, mas potencialmente fatal, que afeta diretamente o coração. Apesar de pouco conhecida pelo público geral, ela exige atenção médica imediata, já que pode agravar rapidamente e causar danos irreversíveis às válvulas cardíacas e a outros órgãos.

    Mais comum em pessoas idosas e em pacientes com doenças prévias ou dispositivos cardíacos, a endocardite infecciosa está frequentemente relacionada a infecções bacterianas que alcançam a corrente sanguínea. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado são decisivos para reduzir o risco de complicações e mortalidade.

    O que é a endocardite infecciosa?

    A endocardite infecciosa é uma inflamação das válvulas cardíacas, geralmente causada por bactérias, sendo os casos por fungos mais raros.

    Ela ocorre com maior frequência em homens idosos e em pessoas com fatores de risco, como:

    • Próteses valvares
    • Dispositivos cardíacos implantáveis
    • Doenças valvulares prévias
    • Hemodiálise
    • Pressão alta
    • Diabetes

    A infecção compromete o funcionamento normal das válvulas do coração e pode levar a complicações sistêmicas graves.

    Causas

    A maioria dos casos de endocardite infecciosa é causada por bactérias, principalmente:

    • Estreptococos
    • Estafilococos
    • Enterococos

    A doença se desenvolve quando há uma lesão prévia nas válvulas cardíacas, o que facilita a adesão de microrganismos. Esses agentes podem entrar na corrente sanguínea por diferentes vias, como:

    • Procedimentos dentários
    • Cirurgias
    • Uso de substâncias injetáveis
    • Presença de dispositivos médicos

    Após a adesão das bactérias à válvula lesionada, forma-se uma estrutura chamada vegetação, que prejudica o funcionamento da válvula e pode liberar pequenos fragmentos (microêmbolos). Esses microêmbolos podem obstruir vasos sanguíneos menores, causando inflamação e interrupção do fluxo sanguíneo em diferentes órgãos.

    Principais sintomas

    Os sintomas da endocardite infecciosa variam conforme a gravidade da infecção e resultam tanto da presença de bactérias no sangue (bacteremia) quanto do comprometimento das válvulas cardíacas.

    Os sinais mais comuns incluem:

    • Febre
    • Calafrios
    • Mal-estar geral
    • Fadiga

    Com a progressão da doença, pode surgir:

    • Aparecimento de um novo sopro cardíaco
    • Piora de um sopro já existente

    Em casos mais avançados, o paciente pode apresentar:

    • Dor no peito
    • Falta de ar intensa
    • Desconforto respiratório mesmo em repouso

    Lesões características

    Algumas alterações cutâneas podem surgir, como:

    • Lesões de Janeway: manchas indolores nas palmas das mãos e plantas dos pés
    • Nódulos de Osler: nódulos avermelhados e dolorosos nos dedos

    Quando os microêmbolos atingem o sistema nervoso central, podem ocorrer complicações graves, como:

    • Abscessos cerebrais
    • Acidente vascular cerebral (AVC)
    • Meningite

    Diagnóstico

    O diagnóstico da endocardite infecciosa é feito pela associação dos sintomas com os achados do exame físico feito pelo médico e exames complementares.

    O principal exame é o ecocardiograma, que permite avaliar o funcionamento do coração e identificar vegetações nas válvulas.

    Tipos de ecocardiograma

    • Ecocardiograma transtorácico: mais acessível e geralmente o primeiro a ser realizado;
    • Ecocardiograma transesofágico: mais sensível, porém mais invasivo.

    Além disso, a hemocultura é fundamental para identificar o microrganismo causador da infecção e orientar o tratamento antibiótico.

    Em casos de dor torácica, pode ser solicitado um eletrocardiograma, principalmente para descartar outras condições, como infarto.

    Tratamento

    O tratamento da endocardite infecciosa baseia-se no uso de antimicrobianos intravenosos.

    Assim que há suspeita clínica da doença, inicia-se a antibioticoterapia empírica, sem aguardar os resultados das hemoculturas, com foco nos microrganismos mais comuns.

    Após a identificação do agente infeccioso e do antibiograma, o esquema antibiótico é ajustado conforme a sensibilidade do microrganismo.

    Tratamento cirúrgico

    A troca da válvula acometida pode ser necessária nos casos de:

    • Insuficiência valvar grave;
    • Infecções extensas;
    • Embolizações frequentes.

    Prognóstico

    O prognóstico da endocardite infecciosa varia conforme:

    • O microrganismo envolvido;
    • A rapidez do diagnóstico;
    • A presença de insuficiência cardíaca.

    Infecções causadas por estafilococos e associadas a insuficiência cardíaca costumam apresentar maior mortalidade.

    Nos casos mais leves, quando tratados adequadamente, os pacientes podem evoluir bem e não apresentar sequelas permanentes.

    Leia também: Trabalho noturno: conheça os riscos para a saúde do coração

    Perguntas frequentes sobre endocardite infecciosa

    1. A endocardite infecciosa é contagiosa?

    Não. Ela não é transmitida de pessoa para pessoa.

    2. Procedimentos dentários podem causar endocardite?

    Sim, especialmente em pessoas com válvulas cardíacas doentes ou próteses valvares.

    3. Toda endocardite precisa de cirurgia?

    Não. Muitos casos são tratados apenas com antibióticos, mas a cirurgia pode ser necessária em situações específicas.

    4. Quanto tempo dura o tratamento?

    O tratamento com antibióticos costuma durar várias semanas, geralmente em ambiente hospitalar.

    5. A doença pode voltar?

    Sim, especialmente se os fatores de risco persistirem.

    6. Quem já teve endocardite precisa de cuidados especiais?

    Sim. O acompanhamento cardiológico regular é fundamental.

    7. A endocardite pode levar à morte?

    Sim, principalmente se não for diagnosticada e tratada precocemente.

    Veja mais: Burnout pode causar infarto? Veja como o desgaste emocional afeta o coração

  • Melanoma: o que é e como identificar o tipo mais perigoso de câncer de pele

    Melanoma: o que é e como identificar o tipo mais perigoso de câncer de pele

    O câncer de pele é o tumor mais frequente no Brasil e corresponde a cerca de 30% de todos os tumores malignos registrados no país. No entanto, o melanoma representa apenas 4% das neoplasias malignas da pele, embora seja considerado o tipo mais grave por causa da alta capacidade de se espalhar rapidamente para outros órgãos.

    O risco associado ao melanoma não está apenas na sua ocorrência, mas no comportamento agressivo das células tumorais. Mesmo lesões pequenas podem desenvolver metástases precoces, exigindo diagnóstico rápido e tratamento imediato. Vamos entender mais, a seguir.

    O que é melanoma?

    O melanoma é um tipo de câncer de pele que se desenvolve a partir dos melanócitos, células responsáveis por produzir melanina, o pigmento que dá cor à pele. Ele pode surgir em pintas já existentes ou aparecer como uma nova lesão na pele.

    A principal causa está ligada à exposição excessiva à radiação ultravioleta, principalmente sem proteção adequada.

    De acordo com o oncologista Thiago Chadid, a preocupação maior com esse tipo de tumor é o comportamento altamente agressivo: as células têm grande capacidade de se espalhar rapidamente pela pele e alcançar vasos sanguíneos e linfáticos, favorecendo metástases precoces.

    Em situações raras, uma pinta que deu origem ao melanoma pode regredir sozinha. Nesses casos, o paciente pode apresentar metástases mesmo sem que o tumor primário seja encontrado. A lesão inicial some, mas as células malignas já disseminadas continuam a se multiplicar. O oncologista explica que é um fenômeno pouco comum em outros cânceres de pele, mas que pode ocorrer no melanoma por causa da sua biologia particular.

    O que diferencia o melanoma de outros câncer de pele?

    A principal diferença entre o melanoma e outros cânceres de pele, como o carcinoma basocelular e o espinocelular, está na célula de origem.

    O carcinoma basocelular surge das células basais, localizadas na camada mais profunda da epiderme; o espinocelular aparece nas células escamosas, que produzem queratina. Já o melanoma se desenvolve nos melanócitos, responsáveis pela pigmentação da pele.

    Por causa dessa origem, a análise cuidadosa das pintas, usando critérios como o ABCDE, é especialmente importante para identificar o melanoma. Os carcinomas, por outro lado, tendem a se manifestar como feridas que não cicatrizam, manchas elevadas ou lesões com aspecto perolado.

    Muitas vezes, essas lesões são confundidas com “pintas casquinhas”, embora representem processos completamente diferentes.

    Quais os sintomas do melanoma?

    O melanoma nem sempre causa sintomas no início, e por isso a observação da pele é tão importante. Na maioria dos casos, o sinal mais comum é uma pinta que muda — no tamanho, na forma, na cor ou na textura. Porém, outros sinais podem surgir e merecem atenção.

    Os principais sintomas incluem:

    • Aparição de uma nova pinta com aspecto diferente das demais;
    • Mudança em uma pinta já existente, ficando maior, irregular ou mais escura;
    • Assimetria, quando metade da pinta não se parece com a outra;
    • Bordas irregulares, mal definidas ou serrilhadas;
    • Cores variadas na mesma pinta, como marrom, preto, cinza, vermelho ou branco;
    • Diâmetro maior que 6 mm, embora melanomas pequenos também existam;
    • Evolução rápida, quando a pinta cresce, muda de cor ou começa a se transformar em semanas ou meses;
    • Sangramento, coceira ou dor, sinais que podem indicar inflamação ou avanço da lesão;
    • Aspecto elevado, nodular ou brilhante, especialmente em melanomas mais agressivos.

    Segundo Thiago, o melanoma aparece com mais frequência nas áreas expostas ao sol, como couro cabeludo, face, tronco e costas, já que a radiação ultravioleta é o principal fator desencadeador.

    Ainda assim, o tumor pode surgir em regiões pouco expostas ou totalmente protegidas da luz, como palma das mãos, planta dos pés e unhas — situações em que fatores genéticos costumam ter papel mais relevante.

    Pintas congênitas, presentes desde o nascimento, também podem carregar risco aumentado e precisam de acompanhamento regular.

    Existem, inclusive, casos raros de melanoma em locais sem qualquer exposição solar, como a esclera (parte branca dos olhos) ou o trato gastrointestinal, normalmente ligados a predisposições genéticas ou síndromes hereditárias.

    O que aumenta o risco de melanoma?

    A exposição solar sem proteção é o principal fator de risco do melanoma, porque os raios ultravioleta provocam danos diretos no DNA dos melanócitos, estimulando mutações que podem levar à formação do tumor.

    Contudo, outros fatores também podem aumentar o risco do câncer de pele, como:

    • Queimaduras solares na infância, que aumentam o risco ao longo da vida;
    • Uso de câmaras de bronzeamento artificial, já proibidas no Brasil;
    • Pele clara, com menor produção de melanina;
    • Presença de muitas pintas ou pintas atípicas;
    • Histórico familiar de melanoma;
    • Síndromes genéticas que aumentam predisposição.

    Diagnóstico de melanoma

    O diagnóstico de melanoma é feito principalmente pela avaliação clínica da pele, complementada por exames específicos quando necessário. Quanto mais cedo o diagnóstico é estabelecido, maiores são as chances de cura, já que o tumor pode se espalhar rapidamente.

    O processo começa na consulta com o dermatologista, que examina toda a pele em busca de pintas suspeitas, observando forma, cor, tamanho, bordas e qualquer mudança recente na aparência da lesão.

    A investigação é aprofundada com a dermatoscopia, exame que utiliza um aparelho capaz de ampliar e iluminar a pinta, permitindo visualizar estruturas internas que não são perceptíveis a olho nu. Nesse momento, o médico também aplica os critérios clínicos ABCDE, usados para identificar sinais de alerta:

    • A: Assimetria;
    • B: Bordas irregulares;
    • C: Cores variadas;
    • D: Diâmetro maior que 6 mm (embora melanomas menores existam);
    • E: Evolução, quando a pinta muda rapidamente.

    Quando há suspeita de melanoma, a confirmação é feita por meio de biópsia, que consiste na retirada total ou parcial da lesão para análise no laboratório. O patologista examina o material para determinar se há células malignas e avalia informações importantes, como profundidade e grau de invasão.

    Se o diagnóstico for confirmado, exames adicionais podem ser solicitados para verificar se o tumor se espalhou, como ultrassom de linfonodos, tomografia, ressonância magnética ou PET-CT, dependendo do caso.

    Como é feito o tratamento do melanoma?

    O tratamento do melanoma é definido conforme o estágio da doença, ou seja, o quanto o tumor cresceu e se espalhou. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores são as chances de cura e mais simples costuma ser o manejo.

    O primeiro passo é a cirurgia para remover a lesão, feita com margem de segurança ao redor da pinta suspeita. Isso é importante porque o melanoma pode formar extensões microscópicas que não são visíveis a olho nu. Com o diagnóstico de melanoma, muitas vezes é necessário retornar para ampliar a margem cirúrgica, garantindo a retirada completa do tumor.

    Quando a profundidade é maior ou há suspeita de disseminação, pode ser indicada a biópsia do linfonodo sentinela, que verifica se o tumor já começou a se espalhar para os gânglios linfáticos.

    Se existir risco de recidiva após a cirurgia, é utilizado o tratamento adjuvante, que hoje envolve principalmente a imunoterapia, que estimula o sistema imunológico a reconhecer e atacar células tumorais remanescentes.

    Nos casos em que o melanoma já se disseminou para outros órgãos, o tratamento costuma incluir a imunoterapia e terapias alvo, usadas quando o tumor apresenta mutações específicas, como a mutação BRAF, permitindo usar medicamentos direcionados para bloquear sinais de crescimento tumoral.

    É possível prevenir o melanoma?

    A prevenção do melanoma começa com a proteção solar diária e o acompanhamento regular com dermatologista. Quem teve muita exposição ao sol na infância ou adolescência, especialmente quem cresceu nos anos 80 e 90, quando o uso de protetor era menos comum, deve ter ainda mais cuidado, porque queimaduras repetidas aumentam o risco ao longo da vida.

    Também é importante lembrar que pintas de nascença nem sempre são totalmente seguras. Algumas podem ter risco maior e precisam ser observadas de perto ou até removidas preventivamente, de acordo com a avaliação médica.

    Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos

    Perguntas frequentes

    1. Por que o melanoma é considerado tão grave?

    A gravidade do melanoma está na facilidade com que ele se espalha pelo corpo. Diferente de outros cânceres de pele, o tumor pode atingir vasos sanguíneos e linfáticos mesmo quando ainda é pequeno.

    Por crescer e se disseminar rápido, se torna mais difícil de controlar em fases avançadas. Por outro lado, quando é descoberto no início, as chances de cura são altas.

    2. Crianças podem ter melanoma?

    Sim, mas é raro. Quando acontece, costuma estar ligado a fatores genéticos, histórico familiar ou pintas de nascença com características diferentes. Por isso, pintas grandes ou irregulares em crianças devem ser avaliadas e acompanhadas por especialistas.

    3. Melanoma tem cura?

    Sim, quando o melanoma é diagnosticado no início, as chances de cura são muito altas. A maior dificuldade está nos casos mais avançados, quando o câncer já se espalhou.

    4. Melanoma pode aparecer nas unhas?

    Sim, o melanoma subungueal pode aparecer como uma faixa escura na unha, que vai crescendo ao longo do tempo. Muitas vezes, é confundido com hematoma, fungo ou machucado, o que pode atrasar o diagnóstico.

    Se a faixa escura for irregular, aumentar de tamanho ou vier acompanhada de sangramento na cutícula, é importante buscar investigação médica.

    5. Melanoma pode voltar após o tratamento?

    Mesmo depois da remoção completa da lesão, ainda existe risco de o melanoma voltar, especialmente quando o tumor era mais profundo ou tinha maior chance de se espalhar. Por isso, é fundamental manter o acompanhamento regular com o dermatologista e o oncologista.

    6. Quando devo procurar um dermatologista?

    Procure um dermatologista sempre que notar:

    • Uma nova pinta diferente das outras;
    • Mudança rápida em tamanho, cor ou formato;
    • Mancha que sangra ou não cicatriza;
    • Coceira persistente ou dor na região;
    • Também é importante realizar avaliação anual da pele, mesmo sem sintomas, especialmente para quem tem fatores de risco

    Confira: Carcinoma basocelular: entenda mais sobre o tipo de câncer de pele que mais afeta os brasileiros

  • Álcool aumenta a pressão arterial? Saiba como ele afeta o coração

    Álcool aumenta a pressão arterial? Saiba como ele afeta o coração

    Pessoas que convivem com problemas cardiovasculares, como hipertensão e insuficiência cardíaca, já sabem que uma das principais orientações para manter o coração estável é reduzir o consumo de álcool. A recomendação existe porque o álcool pode aumentar a pressão nas artérias, alterar o ritmo do coração e favorecer retenção de líquidos, o que piora os quadros cardíacos.

    Para se ter uma ideia, em algumas pessoas, mesmo pequenas quantidades já são suficientes para descompensar o organismo. Mas você sabe por que isso acontece? Conversamos com a cardiologista Juliana Soares para entender como o álcool afeta a pressão e o ritmo cardíaco. Confira!

    Como o álcool afeta o coração?

    Mesmo em pequenas quantidades, o consumo de álcool pode trazer riscos importantes para a saúde cardiovascular. O coração é um dos órgãos mais sensíveis aos efeitos das bebidas, e as consequências vão desde alterações nos batimentos até risco de condições crônicas.

    Alterações na pressão arterial

    Um dos efeitos mais imediatos do álcool no corpo é a vasodilatação, que é o processo de dilatação das artérias, de acordo com Juliana. Ele pode causar uma redução inicial e temporária da pressão arterial, que é passageira.

    No entanto, em um segundo momento, ocorre um efeito rebote, com aumento progressivo da pressão. Isso se deve à ativação do sistema nervoso simpático e à modificação de vias envolvidas no controle da pressão arterial. Como consequência, é instalado um quadro de vasoconstrição persistente, o que pode contribuir para o desenvolvimento da hipertensão.

    O risco é ainda maior entre pessoas que já têm predisposição genética ou outros fatores associados, como obesidade, estresse e má alimentação.

    Risco de arritmias

    O álcool aumenta a atividade do sistema nervoso simpático, responsável pelas reações de luta ou fuga. Segundo Juliana, o estímulo leva à liberação de hormônios como adrenalina, o que acelera os batimentos cardíacos (taquicardia) e eleva o risco de batimentos irregulares, resultando em arritmias.

    Além disso, tanto o álcool quanto seus metabólitos interferem no funcionamento dos canais de sódio, potássio e cálcio nas células do músculo cardíaco — canais responsáveis por gerar e conduzir impulsos elétricos que mantêm o ritmo dos batimentos. A interferência pode criar uma espécie de “curto-circuito” no coração, favorecendo o surgimento de arritmias.

    Para completar, o álcool possui ação diurética, o que intensifica a perda de potássio e magnésio. A queda dos minerais torna as células cardíacas mais instáveis, aumentando ainda mais o risco de distúrbios do ritmo.

    Danos ao músculo cardíaco

    O uso crônico de álcool, especialmente em grandes quantidades, pode levar à cardiomiopatia alcoólica — uma condição em que o músculo do coração enfraquece e perde a capacidade de bombear sangue de forma eficiente. O quadro pode evoluir para insuficiência cardíaca, que precisa de acompanhamento médico contínuo e, em alguns casos, o uso de remédios específicos.

    Juliana relembra que, segundo a literatura médica, uma ingestão média diária de cerca de 80 gramas de álcool por um período mínimo de cinco anos pode estar relacionada ao desenvolvimento de cardiomiopatia alcoólica. A quantidade equivale, aproximadamente, a cinco ou seis doses de bebida alcoólica por dia, considerando que uma dose contém em torno de 14 gramas de álcool.

    Vale destacar que mulheres tendem a apresentar maior suscetibilidade a desenvolver cardiomiopatia alcoólica com quantidades menores, devido a diferenças metabólicas que existem.

    Álcool pode interagir com medicamentos?

    O álcool interfere no metabolismo de diversos remédios, inclusive dos utilizados no tratamento de doenças cardiovasculares. A interação pode tanto potencializar quanto reduzir os efeitos dos remédios, além de aumentar o risco de efeitos colaterais.

    Segundo Juliana, tanto o álcool quanto grande parte das medicações são metabolizados no fígado. O uso simultâneo pode sobrecarregar o órgão e provocar sintomas como mal-estar, tontura, desmaios e outros desconfortos. Em quadros mais graves, pode prejudicar seriamente o funcionamento do fígado.

    Existe uma quantidade segura de álcool?

    De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe quantidade ou forma de consumo de álcool considerada totalmente segura, pois qualquer dose pode aumentar o risco de problemas de saúde, como diversos tipos de câncer, mesmo em consumo leve e moderado.

    Juliana explica que o álcool apresenta tanto efeitos imediatos quanto crônicos sobre o sistema cardiovascular. A curto prazo, pode alterar a frequência dos batimentos cardíacos, provocando arritmias e aumento da pressão arterial.

    Já o consumo prolongado e em grandes quantidades aumenta o risco de desenvolvimento da cardiomiopatia alcoólica, que enfraquece o músculo do coração e pode evoluir para insuficiência cardíaca.

    Alguns tipos de bebida são mais prejudiciais que outros?

    O etanol, forma química do álcool etílico, é o principal responsável pelos efeitos nocivos do consumo de bebidas alcoólicas, inclusive no que diz respeito à saúde cardiovascular. Segundo Juliana, a quantidade de álcool consumido é mais relevante do que o tipo de bebida.

    Durante muito tempo, o vinho foi associado a possíveis benefícios por conter compostos antioxidantes como resveratrol e taninos. No entanto, não há evidências científicas robustas de que alguma bebida alcoólica ofereça proteção significativa ou seja mais segura do que outra.

    O risco está diretamente relacionado ao volume consumido e à frequência de consumo, independentemente da origem alcoólica.

    O coração se recupera completamente ao parar de beber?

    Quando uma pessoa para de beber, o coração pode se recuperar parcial ou totalmente, mas Juliana explica que o grau de recuperação depende de vários fatores, como tempo de uso, quantidade ingerida e extensão dos danos gerados ao longo dos anos.

    Em aproximadamente quatro semanas de abstinência já é possível observar uma melhora na saúde, principalmente na pressão arterial. No entanto, em casos de cardiomiopatia alcoólica, o processo de recuperação tende a ser mais lento, gradual e proporcional à gravidade das lesões no músculo cardíaco.

    Quando procurar atendimento médico?

    A recomendação é procurar atendimento médico ao primeiro sinal de alteração no ritmo dos batimentos cardíacos ou de qualquer outra condição cardiovascular. Os principais sinais de alerta incluem:

    • Palpitações frequentes ou sensação de “coração acelerado” em repouso;
    • Tontura, desmaios ou sensação de desfalecimento;
    • Dor no peito ou pressão na região torácica;
    • Falta de ar ao realizar esforços leves;
    • Inchaço nas pernas ou nos pés;
    • Cansaço excessivo, mesmo em atividades simples.

    Pessoas que fazem uso frequente de álcool e apresentam pressão alta, histórico familiar de doenças cardiovasculares ou já tomaram medicamentos para o coração devem conversar com um médico sobre os riscos. Quanto mais cedo for feita a avaliação, maiores as chances de evitar complicações graves.

    Como parar de beber?

    Para algumas pessoas, parar o consumo de bebidas alcóolicas por conta própria é mais simples — elas reduzem aos poucos, estabelecem metas e criam novas rotinas que não envolvem bebida. Para outras, pode ser necessário apoio contínuo, acompanhamento terapêutico, uso de medicações ou participação em grupos de apoio, e não é um problema procurar ajuda e acolhimento nesse momento.

    O processo envolve, muitas vezes, reconhecer que o álcool deixou de ser algo esporádico ou social e passou a ocupar um espaço maior do que deveria na vida, afetando a saúde, os relacionamentos, o sono, o humor e até a autoestima.

    Com o acompanhamento psicológico, é possível entender gatilhos, padrões e mecanismos internos que alimentam o uso do álcool e, assim, desenvolver medidas saudáveis para lidar com emoções difíceis, frustrações, cobranças externas e conflitos pessoais, que muitas vezes estão por trás do impulso de beber.

    Ter uma rede de apoio ao redor, seja profissional ou familiar, também ajuda muito a recuperar autonomia, qualidade de vida e uma relação mais saudável consigo mesmo.

    Veja mais: Pressão alta: quando ir ao pronto-socorro?

    Perguntas frequentes

    Beber socialmente também faz mal?

    Sim, principalmente se o consumo for regular. O “uso social” pode parecer inofensivo, mas quando se repete frequentemente, eleva o risco de pressão alta, arritmias e outros problemas cardiovasculares. Mesmo que não se perceba sintomas, o álcool pode estar provocando alterações silenciosas no coração.

    Como saber se o álcool já afetou meu coração?

    Alguns sinais de alerta para ficar de olho são cansaço excessivo, falta de ar, inchaço nas pernas, palpitações, tontura, dor no peito e desmaios.

    Porém, em muitos casos, os danos causados pelo álcool podem ser silenciosos, de modo que a melhor forma de avaliar é fazer exames como eletrocardiograma, ecocardiograma e avaliação clínica com um cardiologista.

    Quais são os principais sinais de abstinência do álcool?

    Os sinais variam de acordo com o grau de dependência e o tempo de uso, mas incluem:

    • Tremores;
    • Suor excessivo;
    • Ansiedade;
    • Irritabilidade;
    • Náusea;
    • Vômitos;
    • Dor de cabeça;
    • Taquicardia;
    • Insônia;
    • Em casos mais graves, alucinações e convulsões.

    Os sintomas surgem porque o organismo estava adaptado à presença constante do álcool e precisa de tempo para reequilibrar suas funções.

    A abstinência pode ser perigosa?

    Sim! Em quadros graves, a abstinência alcoólica pode evoluir para uma condição séria chamada delirium tremens, caracterizada por confusão mental, febre, alucinações e convulsões, e é uma emergência médica que exige internação imediata. Por isso, a interrupção do álcool deve ser feita com acompanhamento médico, especialmente em casos de dependência severa.

    Energéticos são perigosos para o coração?

    Sim, especialmente para pessoas com predisposição a arritmias, hipertensão ou doenças cardíacas. Os energéticos combinam doses elevadas de cafeína com outras substâncias estimulantes (como taurina e guaraná), o que pode causar taquicardia, aumento da pressão arterial e, em casos extremos, crises de arritmia ou até infarto. O risco é ainda maior quando o energético é bebido junto com álcool.

    Quem toma diurético para pressão alta precisa beber mais líquidos?

    Em geral, sim. Os diuréticos aumentam a eliminação de líquidos e eletrólitos pelo organismo, e isso pode levar à desidratação e à perda de potássio e sódio, o que afeta diretamente o funcionamento do coração. Assim, é importante manter a hidratação e seguir as orientações médicas sobre reposição de líquidos e minerais.

    Veja mais: Uso nocivo de álcool: 10 sinais de alerta e como a família pode ajudar

  • Neuralgia do Trigêmeo: entenda mais sobre a ‘pior dor do mundo’

    Neuralgia do Trigêmeo: entenda mais sobre a ‘pior dor do mundo’

    Descrita muitas vezes como “a pior dor do mundo”, a neuralgia do trigêmeo é um dos quadros de dor facial mais intensos e incapacitantes na medicina. O impacto na rotina é profundo, pois atividades simples como falar, mastigar ou até sentir o vento no rosto podem desencadear crises fortes, de início súbito e muito dolorosas.

    Embora seja uma condição rara, a neuralgia do trigêmeo merece atenção porque pode evoluir com piora progressiva e exige diagnóstico especializado.

    O que é a neuralgia do trigêmeo?

    A neuralgia do trigêmeo é uma condição crônica marcada por episódios de dor intensa e súbita, descrita como choques elétricos, e que atinge regiões inervadas pelo nervo trigêmeo.

    Esse nervo é responsável pela sensibilidade e parte dos movimentos da face, como mandíbula, maxila e região ao redor dos olhos.

    A dor costuma ocorrer de um lado do rosto e é mais frequente em mulheres e pessoas acima de 50 anos.

    Principais sintomas

    A neuralgia do trigêmeo se manifesta por crises de dor facial muito intensa. Entre os sinais mais característicos estão:

    • Dor aguda, em choque ou pontadas;
    • Início abrupto, com pico logo nos primeiros segundos;
    • Duração de segundos a poucos minutos;
    • Dor localizada em bochechas, mandíbula, maxila, dentes, gengivas, lábios ou região dos olhos;
    • Possível dor residual mais leve após a crise.

    A frequência dos episódios varia bastante: alguns pacientes têm poucas crises por dia, enquanto outros apresentam muitos episódios ao longo de horas.

    Causas

    A dor geralmente é causada pela compressão do nervo trigêmeo, muitas vezes por vasos sanguíneos próximos à sua origem no crânio. Outras causas possíveis são:

    • Tumores cerebrais que comprimem o nervo;
    • Ativação anormal do nervo trigêmeo;
    • AVC que afeta a área de origem do nervo (menos comum).

    Fatores de risco:

    • Pressão alta;
    • Enxaqueca;
    • Esclerose múltipla.

    Gatilhos que costumam desencadear crises:

    • Tocar o rosto;
    • Falar;
    • Mastigar;
    • Escovar os dentes;
    • Sentir vento frio;
    • Dar risada.

    Diagnóstico

    O diagnóstico é clínico, ou seja, feito em consultório por um médico, baseado na descrição da dor e no padrão das crises. Para identificar a causa, especialmente compressões ou lesões estruturais, exames de imagem são muito importantes.

    Exames que podem ser solicitados

    • Ressonância magnética (mais eficaz para avaliar compressão do nervo);
    • Tomografia ou angiotomografia, quando a ressonância magnética não é possível.

    Tratamento

    O tratamento é direcionado a reduzir a frequência e a intensidade das crises, com foco tanto em prevenção quanto em alívio imediato.

    Tratamento com remédios (primeira escolha)

    Os medicamentos mais usados são:

    • Carbamazepina
    • Oxcarbazepina

    Outras opções podem ser indicadas em casos específicos.

    Terapeutas de resgate

    Utilizadas em crises intensas:

    • Lidocaína;
    • Fenitoína;
    • Sumatriptano.

    Opções cirúrgicas

    Indicadas quando a pessoa não responde ao tratamento com remédios (casos refratários).

    Prognóstico: o que esperar da condição

    O prognóstico varia, pois muitos pacientes conseguem períodos prolongados sem dor, enquanto outros apresentam crises recorrentes que impactam significativamente a qualidade de vida.

    O acompanhamento com neurologista é essencial para ajustar o tratamento e melhorar o controle dos sintomas.

    Confira: Dor de cabeça: quando é normal e quando é sinal de alerta

    Perguntas frequentes sobre neuralgia do trigêmeo

    1. A neuralgia do trigêmeo é curável?

    Não há cura definitiva, mas muitos pacientes têm excelente controle dos sintomas com medicamentos ou cirurgia.

    2. A dor sempre ocorre do mesmo lado?

    Na maioria dos casos, sim. A neuralgia é tipicamente unilateral.

    3. A neuralgia do trigêmeo está relacionada à enxaqueca?

    Não diretamente, mas pessoas com enxaqueca têm maior risco de desenvolver a condição.

    4. Escovar os dentes pode desencadear crises?

    Sim. Estímulos leves, como falar, mastigar ou tocar a face, podem provocar dor.

    5. Como diferenciar dor de dente de neuralgia do trigêmeo?

    A neuralgia provoca dor súbita, elétrica e muito intensa, diferente da dor contínua típica de problemas dentários.

    6. Quais exames confirmam a doença?

    A ressonância magnética ajuda a identificar causas estruturais, mas o diagnóstico é essencialmente clínico.

    7. Quando a cirurgia é indicada?

    Quando o paciente não responde aos medicamentos ou tem efeitos colaterais importantes.

    Veja mais: Dor de cabeça tensional: como aliviar o tipo mais comum de dor de cabeça

  • Segundo trimestre de gravidez: quando começa, sintomas e exames

    Segundo trimestre de gravidez: quando começa, sintomas e exames

    Você sabia que o segundo trimestre de gravidez é conhecido como a lua de mel da gestação? Isso porque vários dos sintomas intensos do primeiro trimestre, como náuseas, vômitos e cansaço extremo, tendem a diminuir. O corpo já se adaptou às primeiras mudanças hormonais e a placenta está plenamente formada — então o período costuma ser mais tranquilo.

    Mas isso não significa que os cuidados devem diminuir! O bebê continua crescendo de forma acelerada e o organismo materno atravessa alguns ajustes importantes, como maior circulação sanguínea, alteração da postura e aumento gradual do peso uterino.

    Vamos entender mais, a seguir, o que muda no segundo trimestre, os exames mais importantes e quais cuidados merecem atenção.

    Quando começa o segundo trimestre de gravidez?

    O segundo trimestre de gravidez começa a partir da 13ª semana completa e segue até o final da 27ª semana. É o período intermediário da gestação, marcado por uma maior estabilidade física e emocional, já que o corpo se adapta aos hormônios produzidos no início da gravidez e a placenta assume totalmente as funções.

    O que acontece no segundo trimestre de gravidez?

    No segundo trimestre de gravidez, o corpo entra em uma fase de maior estabilidade. A placenta assume totalmente as funções e os sintomas intensos do início tendem a diminuir.

    Além disso, Andreia aponta que, como o bebê ainda não está tão grande, a gestante costuma ter mais conforto ao se movimentar e sente menos impacto na postura e no equilíbrio. A barriga cresce, mas ainda não pesa o suficiente para causar limitações — o que favorece as atividades cotidianas e até a prática de exercícios leves.

    No período, o útero aumenta de tamanho, projetando o abdômen para frente e abrindo mais espaço para o crescimento fetal. Com isso, os movimentos do bebê começam a ser percebidos com nitidez, primeiro como pequenas “borboletas” no baixo-ventre e, depois, como chutes e giros mais evidentes.

    A circulação sanguínea também se intensifica para sustentar o desenvolvimento fetal, o que pode levar ao surgimento de varizes, sensação de peso nas pernas e aumento natural da vontade de urinar. O apetite tende a crescer, já que o metabolismo se ajusta para suprir as necessidades energéticas da gestação, e as mamas continuam se preparando para a amamentação e podem ficar mais sensíveis.

    Ganho de peso no segundo trimestre

    No segundo trimestre, o bebê cresce mais rápido, e o corpo da gestante passa por mudanças mais visíveis, o que resulta em aumento gradual do peso. Para quem iniciou o pré-natal com IMC dentro da faixa considerada adequada, o ganho costuma ficar em torno de 300 g por semana. O ritmo é compatível com o desenvolvimento do bebê, do útero, da placenta e do volume de líquido amniótico.

    Vale apontar que aumentos muito rápidos de peso, como 1 kg por semana, acendem sinal de alerta para retenção exagerada de líquidos ou mudanças bruscas na alimentação. Nesses casos, é necessário informar o médico.

    Sintomas do segundo trimestre de gravidez

    No segundo trimestre, os sintomas tendem a ser mais leves, mas o corpo continua passando por mudanças importantes, que podem causar:

    • Aumento do apetite;
    • Maior energia e disposição;
    • Redução de náuseas e vômitos;
    • Aumento da sensibilidade nas mamas;
    • Surgimento de varizes ou sensação de peso nas pernas;
    • Aumento da vontade de urinar;
    • Congestão nasal;
    • Sensação clara dos movimentos fetais;
    • Dores lombares leves, devido ao crescimento do útero;
    • Azia ocasional, relacionada ao relaxamento dos esfíncteres digestivos.

    Alterações na pele, como estrias, escurecimento da aréola e uma linha escura na barriga, também são comuns nessa fase.

    Síndrome do túnel do carpo

    A síndrome do túnel do carpo é uma condição relativamente comum na gravidez, especialmente no segundo e no terceiro trimestres. Ela ocorre quando o nervo mediano, que passa por um pequeno canal no punho chamado túnel do carpo, sofre compressão devido ao aumento de líquido e inchaço típicos da gestação.

    Durante a gestação, o corpo tende a reter mais líquido, o volume de sangue aumenta e os hormônios passam por mudanças que facilitam o aparecimento de inchaço. Como o túnel do carpo é uma estrutura rígida, qualquer aumento de volume no local comprime o nervo mediano, causando sintomas como:

    • Formigamento nas mãos, especialmente à noite;
    • Dormência nos dedos polegar, indicador, médio e metade do anelar;
    • Dor que pode irradiar para o antebraço;
    • Dificuldade para segurar objetos ou fraqueza ao pinçar;
    • Sensação de “choque” no punho ou nos dedos;

    Algumas medidas podem ajudar a aliviar os sintomas, como compressas frias, alongamentos leves e o uso de talas noturnas, orientadas pelo médico. Normalmente, a síndrome melhora espontaneamente após o parto, quando a retenção de líquido diminui.

    Se houver dor intensa, perda de força ou agravamento rápido, é importante consultar o médico para avaliação e condutas específicas.

    Como está o bebê no segundo trimestre?

    O segundo trimestre é um período marcado por amadurecimento dos órgãos, ganho de peso e muita movimentação dentro do útero. Entre as principais mudanças, destacamos:

    • O sistema nervoso avança, coordenando melhor os movimentos;
    • Os pulmões evoluem estruturalmente, embora ainda não funcionem para respirar ar;
    • O sistema digestivo inicia seu funcionamento básico;
    • Sobrancelhas, cílios, cabelos e unhas começam a se formar;
    • Movimentos coordenados surgem, percebidos como chutes, estiramentos e giros;
    • A audição amadurece, permitindo que o bebê reaja a sons externos;
    • A força muscular aumenta, deixando os movimentos mais firmes e perceptíveis;
    • As glândulas sebáceas produzem o vérnix, camada que protege a pele delicada.

    No começo do segundo trimestre, o bebê costuma medir em torno de 10 centímetros e pesar pouco mais de 20 gramas, ainda muito pequeno e leve. Conforme as semanas avançam, o ritmo de crescimento se intensifica e, ao final do trimestre, ele pode chegar a cerca de 35 centímetros de comprimento e pesar entre 1 e 2 quilos.

    Exames recomendados no primeiro segundo de gravidez

    No segundo trimestre, o acompanhamento inclui exames simples, como urina tipo I, urocultura e hemograma, que ajudam a identificar infecções urinárias, anemia e outras alterações frequentes na gestação.

    De acordo com Andreia, o ponto central da fase é o ultrassom morfológico de segundo trimestre, realizado entre 20 e 24 semanas. Diferente do morfológico inicial, ele avalia a anatomia detalhada do bebê, permitindo observar cérebro, coluna, coração, rins, face, membros e outros órgãos com nitidez. Como o feto ainda não ocupa toda a tela do exame, essa é a melhor janela para identificar possíveis malformações estruturais.

    No final do segundo trimestre, a ginecologista aponta que também é feito o rastreamento do diabetes gestacional por meio do teste oral de tolerância à glicose (TOTG). Nele, a gestante ingere um líquido concentrado em açúcar e, em seguida, são medidas as glicemias em intervalos específicos para avaliar como o organismo lida com a sobrecarga de glicose.

    A investigação é importante porque, nessa fase, a placenta já está maior e produz hormônios que aumentam a resistência à insulina, elevando o risco de diabetes gestacional. Por isso, mesmo mulheres com exames normais no início da gravidez podem apresentar alterações apenas agora, quando o impacto hormonal se torna mais significativo.

    Em alguns casos, outros exames sorológicos (como toxoplasmose, rubéola, HIV e hepatite) também podem ser solicitados. A indicação exata varia conforme o histórico da gestante, sintomas apresentados e resultados dos exames anteriores.

    Cuidados no segundo trimestre de gravidez

    As recomendações para o segundo trimestre seguem as mesmas, e como muitas gestantes sentem mais energia e conforto no período, é mais fácil manter hábitos saudáveis de forma regular, como:

    • Fracionar as refeições, evitando longos períodos em jejum;
    • Priorizar alimentos naturais, ricos em fibras, vitaminas e proteínas;
    • Beber entre 2 e 3 litros de água por dia para auxiliar a digestão e a circulação;
    • Manter caminhadas, alongamentos e exercícios leves orientados pelo médico;
    • Incluir atividades físicas leves, como hidroginástica ou yoga, para aliviar dores lombares;
    • Dormir preferencialmente de lado, com apoio de travesseiros entre as pernas;
    • Criar uma rotina de sono com horários estáveis;
    • Evitar ficar muito tempo sentada ou muito tempo em pé;
    • Elevar as pernas ao final do dia para diminuir o inchaço;
    • Usar roupas confortáveis e sutiãs adequados, evitando peças apertadas;
    • Manter cuidados com a pele, hidratando áreas mais suscetíveis a estrias;
    • Reservar momentos para descanso, leitura ou atividades relaxantes.

    Leia mais: Primeiro trimestre de gravidez: sintomas, exames e cuidados

    Planejamento do parto e amamentação

    De acordo com Andreia, a preparação para o parto já pode começar no segundo trimestre. O médico verifica se há alguma contraindicação para parto vaginal e, se estiver tudo bem, inicia a conversa sobre preferências da mãe: desejo pela via vaginal, possibilidade de indução e escolha da maternidade. Isso ajuda a organizar o plano de parto com calma, tirar dúvidas e alinhar expectativas desde cedo.

    Ao mesmo tempo, também começa a preparação para a amamentação. Apesar do bebê ter reflexo de sucção, isso não garante uma pega correta — que exige que o mamilo e parte da aréola alcancem o fundo do palato.

    Como cada gestante tem necessidades diferentes, é importante esclarecer dúvidas e confirmar todas as orientações com a equipe de pré-natal, que pode avaliar o formato da aréola, orientar posições e indicar cuidados adequados para prevenir dor e fissuras quando o aleitamento começar.

    Sinais que exigem atenção médica no segundo trimestre

    Os principais sinais de alerta que exigem atendimento imediato incluem qualquer sangramento, indícios de trabalho de parto prematuro e ruptura da bolsa.

    Também existem casos raros de hiperêmese, em que a gestante continua vomitando durante toda a gravidez; embora não seja comum, pode se estender até o segundo trimestre. O mesmo vale para doenças pré-existentes, que precisam de acompanhamento contínuo ao longo de toda a gestação.

    Veja mais: Exames no pré-natal: entenda quais são e quando fazer

    Perguntas frequentes

    Quando os movimentos do bebê começam a ser percebidos?

    A percepção dos primeiros movimentos do bebê, chamados de “quickening”, normalmente surge entre a 18ª e a 22ª semana, embora mulheres que já tiveram filhos possam identificar movimentos mais cedo.

    No início, a sensação se parece com pequenas bolhas ou leves toques internos. Com o passar das semanas, os movimentos ganham força e se tornam uma parte importante do vínculo emocional e da avaliação da vitalidade fetal.

    Por que a fome aumenta tanto durante o segundo trimestre?

    A demanda energética cresce porque o bebê se desenvolve em ritmo acelerado, a placenta se torna mais ativa e o corpo materno trabalha intensamente na produção de novos tecidos.

    A sensação de fome mais frequente é natural, mas a orientação é priorizar refeições equilibradas e fracionadas, com alimentos ricos em fibras, proteínas e nutrientes que contribuem para a saciedade sem causar desconforto.

    O segundo trimestre de gravidez é mais tranquilo?

    Muitas mulheres relatam mais disposição e bem-estar por causa da redução das náuseas, melhora do humor e adaptação do organismo ao novo estado fisiológico. Ainda assim, podem surgir sintomas como prisão de ventre, congestão nasal, dores lombares e azia, que resultam do crescimento do útero e da ação dos hormônios na musculatura lisa.

    O que muda nos exames durante o segundo trimestre?

    A fase inclui avaliação detalhada do desenvolvimento fetal, especialmente por meio da ultrassonografia morfológica, que examina órgãos internos, coluna, medidas de membros, formato craniano e quantidade de líquido amniótico. Os exames laboratoriais complementares avaliam anemia, glicemia e possíveis infecções, garantindo que a gestação siga em condições adequadas.

    Como aliviar a prisão de ventre do segundo trimestre?

    A constipação está relacionada à ação da progesterona e ao suplemento de ferro, de modo que aumentar fibras na alimentação, priorizar frutas ricas em água, manter hidratação abundante e caminhar diariamente favorece o funcionamento intestinal. Em alguns casos, ajustes no tipo de ferro ou uso de probióticos são indicados pelo médico.

    Veja também: Eritroblastose Fetal: entenda o que é e o que ela pode causar no bebê

  • O que significa ter o corpo inflamado por obesidade?

    O que significa ter o corpo inflamado por obesidade?

    Considerada um dos principais e crescentes problemas de saúde pública no Brasil, a obesidade é uma doença crônica caracterizada por um acúmulo de gordura no corpo que excede os níveis considerados normais e saudáveis, responsável por desencadear uma série de reações biológicas dentro do organismo.

    Uma delas é a inflamação crônica de baixo grau, que está associada ao desenvolvimento de outras doenças graves, como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Vamos entender mais, a seguir.

    Afinal, o que significa ter o corpo inflamado por obesidade?

    Em quadros de obesidade, o consumo constante de mais calorias do que o corpo gasta faz com que as células de gordura (adipócitos) aumentem drasticamente de tamanho. Quando estão sobrecarregadas, elas sofrem estresse e passam a liberar substâncias químicas na corrente sanguínea, conhecidas como citocinas pró-inflamatórias.

    As substâncias sinalizam ao sistema imunológico que existe um problema, de modo que ele interpreta a alteração como uma ameaça e envia células imunológicas para o tecido adiposo, criando um ambiente de constante ativação.

    Segundo a cardiologista Juliana Soares, a interação entre células de gordura sobrecarregadas e células de defesa gera uma liberação contínua de mediadores inflamatórios, que entram na corrente sanguínea e mantêm o organismo em estado de inflamação de baixo grau.

    A inflamação se torna crônica porque o estímulo não desaparece: a gordura segue produzindo sinais de estresse, o sistema imunológico continua reagindo e o corpo inteiro passa a conviver com um processo inflamatório silencioso que, ao longo do tempo, contribui para várias doenças metabólicas e cardiovasculares.

    Como a inflamação aumenta o risco de doenças?

    A inflamação associada à obesidade cria um ambiente interno de alerta contínuo, que desgasta os órgãos e altera o funcionamento normal do corpo. A circulação constante de substâncias inflamatórias interfere em vários sistemas ao mesmo tempo, abrindo caminho para problemas metabólicos e cardiovasculares. Isso acontece por vários mecanismos, como:

    • A inflamação altera as paredes das artérias (endotélio), deixando o vaso sanguíneo mais vulnerável;
    • A facilidade para a entrada de colesterol ruim aumenta, favorecendo o acúmulo de placas de gordura;
    • Formação de placas instáveis torna o vaso mais propenso a ruptura, o que pode causar infarto ou AVC;
    • Liberação de substâncias como interleucina 6 e TNF-alfa prejudica a ação da insulina, aumentando o risco de diabetes tipo 2;
    • Proteína C reativa, estimulada pela inflamação, eleva a chance de formação de coágulos.

    A combinação de paredes vasculares fragilizadas, colesterol elevado, resistência à insulina e maior tendência a coágulos cria um cenário que favorece doenças cardíacas, AVC, diabetes tipo 2 e outras complicações crônicas.

    Mesmo pessoas com poucos quilos a mais podem estar com inflamação?

    De acordo com Juliana, o ponto central não é somente a quantidade de peso, mas o local onde a gordura se concentra. A gordura localizada entre os órgãos, chamada gordura visceral, é metabolicamente ativa, libera substâncias inflamatórias de forma constante e aumenta o risco de alterações metabólicas e cardiovasculares. Mesmo um leve acúmulo nessa região já pode estimular um estado de inflamação de baixo grau.

    Portanto, o risco não depende apenas do número de quilos acumulados, mas da distribuição corporal e do impacto da gordura na função dos órgãos internos.

    Como é feita a detecção da inflamação?

    A forma mais usada para medir a inflamação de baixo grau é o exame de proteína C reativa ultrassensível (PCR-us), de acordo com Juliana. A PCR-us consegue identificar pequenas elevações na inflamação, algo muito comum em quadros de obesidade, especialmente quando há acúmulo de gordura visceral.

    A avaliação clínica também ajuda, já que o profissional de saúde considera o histórico de saúde, hábitos, medidas corporais e presença de doenças associadas.

    Vale apontar que a simples elevação de um marcador não confirma, isoladamente, uma inflamação relevante, mas o padrão de substâncias alteradas, aliado ao excesso de gordura corporal, dá fortes indicações de que o organismo está em estado de alerta contínuo.

    Como diminuir a inflamação da obesidade?

    A perda de peso é uma das principais medidas para reduzir a inflamação relacionada à obesidade, porque diminui a sobrecarga das células de gordura, reduz a liberação de substâncias inflamatórias e melhora o funcionamento de vários sistemas do organismo.

    A redução de apenas 5 a 10% do peso corporal já provoca queda importante nos marcadores inflamatórios e melhora a sensibilidade à insulina, de acordo com estudos.

    Como a obesidade é uma doença multifatorial, o tratamento envolve uma série de abordagens diferentes, como:

    • Alimentação baseada em alimentos naturais, com variedade de frutas, verduras, legumes, peixes ricos em ômega-3, azeite de oliva, sementes e oleaginosas, que fornecem compostos com ação anti-inflamatória;
    • Redução do consumo de ultraprocessados, açúcar refinado, gordura trans, frituras e bebidas adoçadas, evitando estímulos que mantêm o organismo em estado de alerta;
    • Prática regular de atividade física, fundamental para diminuir gordura visceral, melhorar a circulação e fortalecer a função das artérias;
    • Sono adequado, já que noites mal dormidas elevam hormônios ligados à inflamação e dificultam o controle metabólico;
    • Manejo do estresse, importante para reduzir a liberação contínua de cortisol e favorecer o equilíbrio do organismo;
    • Acompanhamento médico, incluindo avaliação para uso de medicamentos quando indicado, com o objetivo de auxiliar no controle do peso e da inflamação.

    Segundo Juliana, a dieta com propriedades anti-inflamatórias pode ajudar muito no controle da inflamação causada pela obesidade. A dieta mediterrânea é considerada uma das mais completas nesse sentido, porque reúne alimentos naturais que atuam diretamente na redução de mediadores inflamatórios.

    Leia também: Pressão alta: quando ir ao pronto-socorro?

    Perguntas frequentes

    1. O que causa a obesidade?

    A obesidade é uma doença multifatorial, causada por uma combinação de fatores biológicos, ambientais, emocionais e sociais. A alimentação rica em ultraprocessados, a rotina sedentária, o sono insuficiente e o estresse prolongado favorecem o acúmulo de gordura. A genética também influencia, pois altera o modo como o corpo armazena energia.

    2. O que é gordura visceral e por que ela preocupa?

    A gordura visceral é aquela que envolve órgãos internos, como fígado, intestino e pâncreas. O acúmulo provoca inflamação contínua, altera hormônios importantes e aumenta o risco de diabetes, hipertensão e doenças do coração. A identificação ocorre por exames clínicos e é um dos principais marcadores de risco para complicações metabólicas.

    3. Como a prática de atividade física ajuda no controle da obesidade?

    A prática regular de atividade física diminui gordura visceral, aumenta a massa muscular e melhora a sensibilidade à insulina. O movimento fortalece o sistema cardiovascular, reduz estresse e melhora o sono, fatores que influenciam diretamente no controle do peso. Mesmo atividades leves, como caminhada, já oferecem benefícios importantes quando realizadas com frequência.

    4. A obesidade aumenta o risco de câncer?

    A obesidade está relacionada ao risco maior de alguns tipos de câncer, como mama, colorretal, fígado e pâncreas. A inflamação crônica, a alteração de hormônios e o excesso de gordura visceral criam um ambiente que favorece o crescimento de células anormais.

    5. Por que algumas pessoas têm dificuldade em perder peso?

    A dificuldade pode surgir devido a fatores hormonais, genéticos, emocionais, ambientais e comportamentais. A presença de inflamação, resistência à insulina e gordura visceral torna o processo mais lento. O corpo tende a manter o peso habitual, o que exige constância e acompanhamento profissional para superar barreiras biológicas e psicológicas.

    6. A cirurgia bariátrica é indicada para todos?

    A cirurgia bariátrica é indicada apenas para casos selecionados, normalmente quando há obesidade grave ou presença de doenças associadas que colocam a vida em risco. O procedimento reduz o tamanho do estômago ou modifica o trajeto do alimento, facilitando perda de peso e melhora de condições metabólicas. A decisão exige avaliação criteriosa e acompanhamento de longo prazo.

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  • Dormir pouco aumenta o apetite? Saiba como o sono afeta os hormônios do apetite

    Dormir pouco aumenta o apetite? Saiba como o sono afeta os hormônios do apetite

    Durante um sono de qualidade, o organismo é capaz de reparar tecidos, consolidar memórias e reduzir sinais de inflamação que acumulamos ao longo do dia. O descanso adequado também influencia diretamente a liberação dos hormônios que controlam o apetite, afetando a forma como o corpo lida com a fome e a saciedade.

    Quando o sono é insuficiente ou de má qualidade, ele causa um desequilíbrio nesses mensageiros químicos, desregulando o controle alimentar e aumentando o risco de ganho de peso.

    Conversamos com a cardiologista Juliana Soares para entender como funciona o mecanismo e de que forma o sono interfere na sensação de fome, no armazenamento de gordura e no risco de desenvolver doenças metabólicas.

    Qual a relação entre o sono e o controle da fome?

    Durante o sono, o organismo passa por um dos períodos mais importantes de regulação metabólica, e um dos processos diretamente influenciados por ele é o controle da fome. A privação de sono interfere nos mecanismos responsáveis por equilibrar saciedade e apetite, alterando a forma como o corpo interpreta suas necessidades energéticas, segundo Juliana.

    Quando dormimos, o cérebro ajusta hormônios e neurotransmissores para indicar que o corpo precisa de menos energia durante o descanso e de mais energia ao despertar.

    Mas, quando o sono é curto ou de má qualidade, o cérebro entra em estado de alerta, interpreta o cansaço como falta de energia e estimula maior ingestão de alimentos para compensar o desequilíbrio.

    De acordo com a cardiologista, o córtex pré-frontal, responsável por decisões racionais e controle dos impulsos, fica menos ativo, reduzindo nossa capacidade de avaliar escolhas alimentares com clareza. Ao mesmo tempo, a amígdala, região ligada às emoções e ao sistema de recompensa, torna-se mais ativa, ampliando a busca por estímulos prazerosos.

    Com o cérebro cansado e precisando de energia rápida, cresce a preferência por alimentos que fornecem combustível imediato, como carboidratos simples, açúcar e gordura.

    Quais os hormônios responsáveis por regular o apetite?

    O controle do apetite depende de dois hormônios principais, e o sono interfere diretamente no funcionamento de cada um deles:

    • Grelina: produzida no estômago, é responsável por sinalizar fome. Quando o sono é pouco, os níveis de grelina aumentam, provocando sensação de fome mais intensa e mais frequente;
    • Leptina: conhecida como o hormônio da saciedade, é produzida pelas células de gordura e informa ao cérebro quando já ingerimos energia suficiente. Com sono insuficiente, os níveis de leptina diminuem, fazendo o cérebro interpretar que ainda falta energia, mesmo após a alimentação.

    Em conjunto, os desequilíbrios fazem a falta de sono aumentar o hormônio da fome e diminuir o da saciedade, levando a pessoa a comer mais e sentir menos satisfação depois das refeições.

    Sono de má qualidade pode afetar o peso e a saúde do coração

    Com a desregulação dos hormônios que controlam fome e saciedade, aumenta a ingestão de alimentos, principalmente carboidratos e doces — o que favorece o ganho de peso. A obesidade, por sua vez, eleva a sobrecarga do coração e aumenta o risco de problemas cardiovasculares.

    O sono também é o momento em que a pressão arterial e os batimentos cardíacos diminuem de forma natural. Quando não dormimos bem, o corpo continua em alerta e aciona o sistema nervoso simpático, ligado à resposta de luta e fuga. Isso faz o cortisol subir, aumenta a pressão, acelera o coração e deixa a inflamação mais intensa.

    Com o tempo, ocorre um desgaste do sistema cardiovascular, aumenta o risco de hipertensão e diminui a capacidade de recuperação do organismo durante a noite.

    Qual a quantidade ideal de sono?

    A quantidade ideal de sono varia conforme a idade, porque cada fase da vida tem necessidades diferentes. Mas, no geral, Juliana aponta:

    • Adolescentes: 8 a 10 horas por noite;
    • Adultos jovens e adultos: 7 a 9 horas;
    • Idosos: 7 a 8 horas.

    Dormir menos de 6 horas de forma contínua aumenta o risco de hipertensão, diabetes, ganho de peso e doenças cardiovasculares. Por outro lado, dormir muito além do recomendado também pode indicar algum desequilíbrio no organismo, como depressão, apneia ou fadiga extrema.

    O mais importante é manter uma rotina regular e sentir que o corpo acorda descansado, com energia e sem sonolência excessiva durante o dia.

    Como melhorar a qualidade do sono?

    Algumas medidas importantes ajudam a melhorar a qualidade do sono e a manter o equilíbrio hormonal ao longo do dia:

    • Manter regularidade no horário de deitar e acordar, inclusive em fins de semana. A rotina ajusta o relógio biológico e facilita que o corpo reconheça o momento certo de relaxar e despertar;
    • Praticar higiene do sono, evitando telas por pelo menos 2 horas antes de dormir. A luz azul de celulares, computadores e televisão interfere na produção de melatonina, hormônio que sinaliza ao corpo que está na hora de descansar;
    • Dormir em ambiente escuro, silencioso e com temperatura adequada, criando condições que favorecem um sono profundo e contínuo. Algumas medidas podem ajudar, como cortinas blackout ou ventilação leve;
    • Evitar substâncias estimulantes, como cafeína, no fim da tarde e à noite. O efeito estimulante pode permanecer por horas e atrasar o início do sono;
    • Evitar refeições pesadas próximas ao horário de deitar; o ideal é que a última refeição seja feita cerca de 3 horas antes do sono, para que a digestão não atrapalhe o descanso.

    Quando procurar ajuda médica?

    A procura por ajuda médica é importante quando a dificuldade para dormir começa a interferir na rotina, na saúde física ou no bem-estar emocional. Por isso, fique de olho nos seguintes sinais:

    • Existe dificuldade frequente para iniciar ou manter o sono, mesmo com hábitos adequados;
    • O cansaço persiste durante o dia, com sonolência excessiva, dificuldade de concentração ou lapsos de memória;
    • Há roncos intensos, pausas na respiração durante a noite ou sensação de sufocamento ao acordar;
    • O sono é fragmentado, acompanhado de despertares constantes ou sensação de sono “não reparador”;
    • Irritabilidade, ansiedade ou alterações de humor relacionadas ao cansaço contínuo;
    • O uso de cafeína ou estimulantes aumenta porque a pessoa não consegue manter energia ao longo do dia;
    • Existe ganho de peso associado ao sono ruim, com aumento do apetite e preferência por alimentos calóricos.

    O acompanhamento médico permite identificar causas como apneia, distúrbios hormonais, depressão, ansiedade, uso de medicações ou hábitos que interferem no descanso. A avaliação adequada ajuda a recuperar a qualidade do sono, prevenir complicações e melhorar a saúde.

    Confira: Abdominais para perder barriga? Saiba o que realmente funciona

    Perguntas frequentes

    1. O que caracteriza um sono de qualidade?

    A qualidade do sono envolve profundidade, continuidade e descanso real ao despertar. Uma noite bem dormida permite que o organismo reduza a inflamação, reorganize hormônios, repare tecidos e estabilize funções vitais.

    A pessoa adormece com facilidade, permanece dormindo por horas suficientes e acorda com sensação de energia, sem sonolência excessiva ao longo do dia. A regularidade também importa, porque o corpo precisa de ritmo para manter o equilíbrio biológico.

    2. O que causa dificuldade para dormir?

    A dificuldade para dormir pode surgir por fatores emocionais, como ansiedade, preocupação e estresse, ou por hábitos inadequados, como uso de telas até tarde, consumo de cafeína à noite, ambiente quente, ruído ou luz excessiva.

    Casos de dor crônica, a apneia do sono e distúrbios hormonais também influenciam na qualidade do sono.

    3. Dormir demais faz mal?

    O excesso de sono pode indicar desequilíbrios, como depressão, apneia, anemia ou doenças metabólicas. A duração acima de 10 horas, quando repetida por longos períodos, costuma ser sinal de que o organismo está sobrecarregado ou lutando contra alguma condição médica. A investigação clínica é importante para identificar a causa.

    4. O que é higiene do sono?

    A higiene do sono reúne uma série de práticas que facilitam o descanso, como manter horários regulares, evitar telas à noite, reduzir luzes fortes, criar ambiente silencioso e fresco, e evitar refeições pesadas no período noturno. A adoção constante dos hábitos melhora a qualidade das horas dormidas e reduz os despertares ao longo da noite.

    5. Por que a luz prejudica o sono?

    A exposição à luz, especialmente à luz azul emitida por celulares, computadores e televisões, reduz a produção de melatonina, hormônio que prepara o corpo para dormir. A luz informa ao cérebro que ainda é dia, atrasando o horário natural do sono e dificultando o início do descanso.

    6. Como criar um ambiente ideal para dormir?

    O ambiente ideal inclui quarto escuro, silencioso e com temperatura amena. A organização do espaço, a escolha de colchão confortável, o uso de cortinas blackout e a retirada de estímulos visuais reduzem interrupções e favorecem sono profundo. A sensação de segurança e conforto também influencia a qualidade do descanso.

    7. A prática de atividade física ajuda a dormir melhor?

    A prática regular de atividade física melhora o humor, reduz o estresse, regula hormônios e aumenta a sensação de relaxamento ao final do dia. O movimento constante também ajuda a equilibrar o ciclo sono-vigília.

    A orientação mais comum é evitar exercícios intensos próximo ao horário de dormir, porque o corpo leva um tempo para voltar ao estado de calma. Após o jantar, fazer caminhadas leves à noite podem favorecer a transição para o sono.

    Leia também: Circunferência abdominal: por que é tão importante medir?

  • Por que o horário da refeição importa? Entenda a relação com o ritmo circadiano

    Por que o horário da refeição importa? Entenda a relação com o ritmo circadiano

    Você já se perguntou por que a hora em que você come parece afetar mais do que apenas a sua digestão? A resposta está no ritmo circadiano, um relógio interno que dita quando o corpo deve acelerar ou desacelerar.

    A alimentação funciona como um dos sinais que informam ao organismo se ele deve produzir energia, armazenar nutrientes, liberar hormônios ou iniciar processos de reparo.

    E o horário da refeição tem tudo a ver com isso. No caso de pessoas com horários desregulados, o organismo acaba recebendo sinais confusos ao longo do dia, o que pode afetar o metabolismo: a digestão fica menos eficiente, a sensibilidade à insulina diminui e a tendência ao acúmulo de gordura aumenta, principalmente na região abdominal.

    A seguir, a cardiologista Juliana Soares explica como o relógio biológico reage quando a rotina alimentar foge do ciclo natural do dia e se existe um melhor horários para comer. Confira!

    Afinal, o que é ritmo circadiano e como ele afeta o metabolismo?

    O ritmo circadiano funciona como um relógio biológico interno que organiza as atividades do organismo ao longo de 24 horas. Ele coordena grande parte dos processos fisiológicos e metabólicos do corpo, definindo quando devemos estar em estado de alerta e quando devemos descansar.

    Segundo Juliana, a luz é o principal sinal que ajusta esse relógio: ao atingir os olhos, informa ao cérebro se é dia, período em que precisamos de metabolismo acelerado, ou se é noite, momento destinado à desaceleração e ao reparo dos tecidos.

    Ao longo do dia, o metabolismo trabalha de forma mais intensa. O corpo gasta energia, realiza digestão com mais eficiência e responde melhor à insulina. Já durante a noite, o organismo reduz o ritmo, direciona energia para recuperação celular e prepara órgãos e sistemas para o próximo ciclo.

    A alternância é fundamental para manter equilíbrio hormonal, regular o apetite, proteger o coração e sustentar um metabolismo saudável.

    Por que o horário das refeições pode afetar o coração?

    O sistema cardiovascular segue um ritmo que acompanha o ritmo circadiano. Durante o dia, Juliana explica que a pressão arterial tende a estar mais alta e a frequência cardíaca mais elevada, porque estamos ativos. Já no sono, ocorre o chamado descenso noturno — uma queda natural da pressão arterial que permite ao coração descansar e recuperar forças.

    Quando fazemos refeições muito pesadas à noite, o organismo é obrigado a manter-se ativo para direcionar fluxo sanguíneo ao estômago e realizar a digestão. Com isso, a pressão arterial e os batimentos permanecem elevados justamente no período em que deveriam diminuir. O esforço extra coloca o coração sob estresse e reduz a capacidade de recuperação durante a madrugada.

    Com o tempo, isso pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, porque o coração passa noites seguidas trabalhando acima do que deveria.

    Comer muito tarde também interfere nos hormônios?

    A liberação e a sensibilidade à insulina, hormônio responsável por permitir que a glicose entre nas células e seja usada como fonte de energia, seguem um ritmo ao longo do dia.

    Segundo Juliana, pela manhã o corpo responde melhor à insulina, porque a luz sinaliza que precisamos estar ativos e utilizar energia. À noite, essa sensibilidade diminui naturalmente, já que o organismo se prepara para descansar.

    Por isso, uma refeição rica em carboidratos ingerida no almoço é metabolizada com mais eficiência. Quando consumida perto do horário de dormir, ela passa por um processo diferente: as células respondem menos à insulina e deixam mais glicose circulando no sangue.

    Como consequência, o excesso tende a ser convertido em gordura visceral, que se acumula entre os órgãos e está associada a maior risco de formação de placas nas artérias, contribuindo para infarto e AVC.

    O cortisol, hormônio ligado ao estresse, também segue o ritmo circadiano: atinge o pico pela manhã e diminui à noite para facilitar o sono. Quando comemos tarde, sobretudo açúcar ou grandes quantidades, o organismo interpreta como estresse metabólico e mantém o cortisol elevado durante a noite.

    O cortisol alto à noite atrapalha a produção de melatonina, prejudica o sono, dificulta o descanso profundo e desorganiza o metabolismo. Com o tempo, esse padrão pode impactar peso, glicemia, pressão arterial e saúde cardiovascular.

    Existe um melhor horário para realizar as refeições?

    Como o metabolismo acompanha o ritmo circadiano, os melhores horários para comer são pela manhã e no período do almoço. Juliana reforça que o jantar deve ser feito, idealmente, até 3 horas antes de dormir, permitindo que o organismo realize a digestão antes de entrar no ritmo mais lento da noite.

    O ideal é evitar a ingestão de alimentos muito perto do horário de deitar, porque isso sobrecarrega a digestão, interfere no sono e desorganiza o funcionamento metabólico, que deveria estar voltado para descanso e reparo.

    Confira: Abdominais para perder barriga? Saiba o que realmente funciona

    Perguntas frequentes

    1. Comer tarde pode afetar o sono?

    Sim, pois o corpo precisa manter-se ativo para digerir a refeição pesada, o que eleva batimentos cardíacos, aumenta cortisol e atrapalha a liberação da melatonina, hormônio do sono. A digestão intensa perto de dormir dificulta a entrada nas fases profundas de descanso, deixando o sono leve e fragmentado.

    2. Comer tarde aumenta o risco de diabetes?

    O risco aumenta porque a sensibilidade à insulina diminui à noite. Quando ingerimos carboidratos no período noturno, a glicose circula por mais tempo, exigindo mais trabalho do pâncreas. Com o tempo, esse padrão pode favorecer resistência à insulina.

    3. Beliscar antes de dormir faz mal?

    Mesmo pequenas porções podem interferir no sono, porque ativam o processo digestivo e elevam levemente a glicose e o cortisol. Se for necessário comer, o ideal é algo leve, com proteína ou gordura boa, e evitar açúcar ou carboidratos simples.

    4. O jejum prolongado pode desregular o ritmo circadiano?

    Depende do tipo de jejum. O jejum natural, alinhado ao ritmo circadiano (como jantar por volta das 19h, dormir às 22h e acordar às 7h) funciona bem para o organismo e favorece a manutenção das células.

    Já jejuns desordenados, como pular o café da manhã, passar muitas horas sem comer e concentrar a maior refeição à noite, desregulam o relógio biológico. Nesses casos, o corpo é obrigado a lidar com uma carga metabólica elevada justamente no período em que deveria estar desacelerando, o que prejudica equilíbrio e recuperação.

    5. Como alinhar alimentação e ritmo circadiano em rotina corrida?

    O mais importante é manter uma rotina previsível: fazer as maiores refeições durante o dia, ter lanches práticos para evitar longos períodos sem comer e deixar o jantar mais leve ajudam o corpo a seguir o ciclo natural. Ajustes simples, como reduzir telas à noite e manter um horário fixo para dormir, também contribuem para esse equilíbrio.

    6. É verdade que comer mais cedo melhora o controle da glicemia?

    Sim! Pela manhã e no início da tarde, o corpo está mais sensível à insulina, o que facilita o uso da glicose como fonte de energia. O hábito de comer mais tarde, especialmente carboidratos, mantém a glicose elevada por mais tempo e aumenta o risco de acúmulo de gordura visceral. Por isso, refeições antecipadas costumam melhorar o controle glicêmico.

    7. A sensação de “acordar estufado” pode estar relacionada ao horário da refeição?

    Pode, pois comer tarde faz com que parte da digestão aconteça durante o sono, quando o metabolismo está lento. Isso causa a sensação de estufamento, azia, refluxo e inchaço pela manhã. Ajustar o jantar para horário mais cedo costuma melhorar o desconforto rapidamente.

    Confira: Circunferência abdominal: por que é tão importante medir?

  • Esclerodermia: como essa doença autoimune afeta o organismo

    Esclerodermia: como essa doença autoimune afeta o organismo

    A esclerodermia, também chamada de esclerose sistêmica, é uma doença autoimune rara que chama atenção pela maneira como altera o corpo: tecidos que deveriam ser flexíveis tornam-se rígidos, como se desenvolvessem uma espécie de “cicatriz interna”.

    Apesar de incomum, quem tem a condição precisa ter um acompanhamento especializado, já que pode atingir desde a pele até pulmões, coração e rins.

    O que é esclerose sistêmica (esclerodermia)?

    A esclerose sistêmica é uma doença reumática rara que afeta o tecido conectivo, responsável por sustentar e ligar órgãos do corpo. O principal processo dessa doença autoimune é a fibrose, ou seja, o endurecimento progressivo dos tecidos, que pode atingir pele, vasos sanguíneos e órgãos internos.

    Principais formas da doença

    • Esclerodermia localizada: acomete pele e tecido subcutâneo.
    • Esclerose sistêmica limitada: espessamento cutâneo principalmente em extremidades.
    • Esclerose sistêmica difusa: comprometimento mais amplo da pele e maior risco de envolvimento de órgãos internos.

    A doença é mais comum em mulheres entre 40 e 50 anos e tem maior prevalência em pessoas descendentes de povos africanos.

    Como ocorre em outras doenças autoimunes, o sistema imunológico passa a atacar o tecido conectivo, gerando inflamação e levando à fibrose, um processo semelhante ao de cicatrização, o que deixa o tecido espesso e rígido.

    Principais sintomas

    A esclerose sistêmica pode se manifestar de formas muito diferentes entre os pacientes. Entre os sinais mais comuns estão:

    Fenômeno de Raynaud

    Presente em cerca de 95% dos casos, costuma ser o primeiro sintoma. A circulação das mãos e pés se altera com frio ou estresse, fazendo os dedos ficarem pálidos ou arroxeados.

    Também pode ocorrer em pessoas sem doenças reumatológicas (cerca de 15% da população geral).

    Sintomas cutâneos

    São os mais marcantes:

    • Inchaço e vermelhidão iniciais
    • Espessamento progressivo da pele
    • Rigidez e perda da elasticidade

    Essas alterações variam conforme o tipo de esclerodermia e podem dificultar movimentos.

    Sintomas musculoesqueléticos

    • Dores articulares
    • Dores musculares
    • Contraturas e tendinites
    • Limitação de movimentos devido ao endurecimento da pele

    Sintomas gastrointestinais

    Muito frequentes e variados:

    • Dificuldade de abrir a boca
    • Boca seca
    • Dificuldade para engolir
    • Refluxo gastroesofágico
    • Esvaziamento gástrico lento, com distensão e sensação de saciedade precoce
    • Constipação

    Sintomas pulmonares

    Representam a principal causa de mortalidade.

    Decorrem principalmente de:

    • Fibrose pulmonar
    • Pressão alta pulmonar

    Sintomas:

    • Falta de ar
    • Cansaço
    • Tosse
    • Dor no peito

    Casos avançados podem exigir oxigênio suplementar.

    Sintomas cardíacos

    Menos frequentes, mas graves:

    • Pericardite
    • Arritmias
    • Derrame pericárdico
    • Dilatação cardíaca secundária à pressão alta pulmonar

    Sintomas renais

    O quadro mais importante é a Crise Renal Esclerodérmica, marcada por:

    • Aumento súbito da pressão arterial
    • Piora rápida da função renal
    • Urina espumosa ou com sangue

    Causas

    A esclerose sistêmica não tem causa única, mas resulta da interação entre predisposição genética e fatores ambientais.

    Fatores genéticos

    • Histórico familiar de doenças autoimunes
    • Presença de certos marcadores genéticos

    Fatores ambientais

    Podem atuar como gatilhos:

    • Infecções virais (citomegalovírus, Epstein-Barr, parvovírus B19)
    • Exposição à sílica
    • Contato com solventes orgânicos

    A combinação desses fatores é considerada essencial para o início da doença.

    Diagnóstico

    O diagnóstico é clínico, feito em consultório médico, baseado na avaliação detalhada dos sintomas, exame físico e exames complementares.

    Exames que auxiliam

    • Autoanticorpos específicos: ajudam a definir subtipo e entender o que esperar da doença.
    • Exames de sangue: anemia é comum; outras alterações dependem do órgão afetado.
    • Espirometria: identifica padrão restritivo em casos de fibrose pulmonar.
    • Endoscopia digestiva: avalia refluxo e alterações no esôfago ou estômago.

    Tratamento

    A esclerose sistêmica não tem cura, mas o tratamento adequado controla sintomas, reduz complicações e melhora a qualidade de vida.

    Imunossupressores

    São a base do tratamento, por reduzirem a atividade autoimune e retardarem a evolução da fibrose. A escolha depende do padrão de acometimento de cada paciente.

    Tratamentos direcionados por manifestação

    • Medicações para refluxo
    • Tratamento da hipertensão pulmonar
    • Cuidados com a pele
    • Fisioterapia para manter mobilidade
    • Tratamento específico do fenômeno de Raynaud

    O cuidado sempre deve ser individualizado e exige seguimento regular.

    Veja também: Diabetes autoimune latente do adulto (LADA): o ‘tipo 1,5’ do diabetes

    Perguntas frequentes sobre esclerose sistêmica

    1. Esclerose sistêmica tem cura?

    Não. Mas o tratamento adequado controla a doença e pode evitar complicações.

    2. Esclerodermia e esclerose sistêmica são a mesma coisa?

    O termo “esclerodermia” é amplo; inclui formas localizadas e sistêmicas. A esclerose sistêmica é o tipo que pode afetar órgãos internos.

    3. O fenômeno de Raynaud sempre significa esclerodermia?

    Não. Ele ocorre em até 15% da população geral sem doenças autoimunes.

    4. A doença sempre afeta órgãos internos?

    Não. Depende da forma: a esclerose sistêmica difusa tem maior risco; a localizada geralmente não afeta órgãos.

    5. O que causa o endurecimento da pele?

    A produção excessiva de colágeno, resultado da inflamação autoimune.

    6. A doença é hereditária?

    Não é hereditária no sentido clássico, mas há predisposição genética.

    7. O tratamento sempre usa imunossupressores?

    Na maioria dos casos sim, mas a escolha depende do tipo e da gravidade da doença.

    Veja mais: Doenças autoimunes: 10 sinais para você ficar atento