Treino na gravidez: por que é importante monitorar a frequência cardíaca? 

Gestante descansando na academia após treino, segurando garrafa de água, representando atividade física segura na gravidez

O aumento do volume sanguíneo, a dilatação dos vasos periféricos e o aumento da quantidade de sangue bombeado por minuto são algumas das principais alterações que acontecem durante a gravidez, o que faz com que o sistema cardiovascular da mulher trabalhe de forma mais intensa ao longo de toda a gestação.

Por isso, quando a gestante tem uma rotina regular de treinos, é importante uma atenção especialmente na frequência cardíaca. “Uma frequência cardíaca elevada por tempo prolongado pode comprometer o fluxo sanguíneo uteroplacentário — ou seja, o sangue que chega até o bebê”, explica o cardiologista Giovanni Henrique Pinto.

Além disso, em casos de gestantes com condições de risco, como cardiopatias ou hipertensão, o especialista esclarece que o exercício sem monitoramento pode desencadear eventos mais graves. Vamos entender mais, a seguir.

Como a gravidez muda a frequência cardíaca?

Desde o primeiro trimestre, Giovanni explica que a frequência cardíaca de repouso tende a aumentar de forma progressiva, podendo ficar entre 10 e 20 batimentos por minuto acima do habitual. O coração precisa bombear mais sangue de forma contínua, tanto para o organismo materno quanto para a placenta e o bebê.

Por consequência, a gestante passa a atingir frequências mais altas com esforços menores do que antes da gravidez. “Em outras palavras, um exercício que antes parecia leve pode se tornar moderado ou até intenso durante a gestação — mesmo que a sensação subjetiva de esforço ainda não seja tão grande”, complementa o cardiologista.

Por isso, é necessário ajustar os parâmetros de intensidade ao longo da gravidez, em vez de simplesmente manter a mesma rotina de antes de engravidar.

Qual a frequência cardíaca ideal para gestantes durante o treino?

Não existe uma única frequência cardíaca ideal que sirva para todas as gestantes durante o treino, uma vez que a resposta do coração varia de acordo com a idade, o nível de condicionamento físico, o estágio da gestação e até a presença de alguma condição clínica.

Segundo Giovanni, a orientação mais atual envolve observar como a gestante se sente durante o exercício. As ferramentas como a percepção de esforço (Escala de Borg) e o “teste da fala” (conseguir conversar enquanto se exercita) ajudam a entender se a intensidade está adequada.

A frequência cardíaca continua sendo um parâmetro útil, especialmente quando associada à avaliação médica prévia e ao acompanhamento profissional.

“Gestantes sem complicações e com boa aptidão cardiovascular podem tolerar esforços moderados a intensos, enquanto outras precisam de restrições mais rígidas”, aponta o cardiologista.

Smartwatches são confiáveis para monitorar a frequência cardíaca?

Os dispositivos vestíveis, como smartwatches e monitores de frequência cardíaca, podem ajudar a gestante a ter mais consciência sobre a intensidade do exercício. Mas, apesar de práticos e acessíveis, eles não devem substituir a avaliação médica.

“Esses dispositivos mostram o que está acontecendo, mas não conseguem avaliar se aquela frequência é segura para uma gestante específica. Por exemplo, uma frequência de 160 bpm pode ser adequada para uma gestante com bom condicionamento e acompanhamento adequado, mas pode não ser segura para outra com algum risco cardiovascular”, detalha Giovanni.

Portanto, o cardiologista orienta que a gestante tenha uma avaliação cardiológica antes de iniciar ou manter um programa de exercícios. Os dispositivos podem ser usados como auxílio, não como única referência de segurança.

Como ajustar a intensidade do exercício conforme o trimestre da gestação?

A intensidade do exercício na gestação precisa ser ajustado conforme as mudanças do corpo e como a gestante se sente em cada fase:

  • Primeiro trimestre: as principais preocupações são o risco de aumento excessivo da temperatura corporal e os enjoos e a fadiga frequentes. Giovanni aponta que exercícios moderados costumam ser bem tolerados, mas é importante evitar ambientes muito quentes e manter uma boa hidratação;
  • Segundo trimestre: muitas mulheres se sentem com mais energia, e esse costuma ser o período mais confortável para se exercitar. Ainda assim, é importante evitar exercícios deitada de costas por muito tempo, pois o útero pode comprimir um vaso importante e prejudicar a circulação;
  • Terceiro trimestre: o crescimento da barriga muda o equilíbrio do corpo e aumenta o risco de quedas. Também pode surgir mais falta de ar, já que o útero pressiona o diafragma. Por isso, atividades de baixo impacto, como caminhada, hidroginástica e yoga para gestantes, costumam ser as mais indicadas.

“Em todas as fases, a avaliação médica prévia e o acompanhamento de um profissional de educação física são fundamentais”, complementa Giovanni.

Como se exercitar com segurança na gravidez?

A primeira orientação para gestantes que planejam manter uma rotina de treinos é procurar a orientação de um médico. Como cada mulher apresenta um nível de condicionamento e história clínica diferente, a avaliação individual consegue definir o que é seguro em cada caso.

Mas, de maneira geral, Giovanni aponta alguns cuidados:

  • Prefira exercícios de intensidade moderada, como caminhada, natação, hidroginástica, bicicleta estacionária e pilates gestacional;
  • Evite atividades com risco de impacto abdominal, quedas ou contato físico;
  • Não se exercite em ambientes muito quentes ou úmidos, e mantenha-se bem hidratada;
  • Respeite os sinais do próprio corpo: dor, sangramento, falta de ar excessiva, tontura ou contrações são sinais para interromper imediatamente o exercício e buscar avaliação médica;
  • Evite longas permanências deitada de costas (decúbito dorsal) a partir do segundo trimestre;
  • Exercitar-se com regularidade é mais benéfico do que sessões esporádicas e intensas.

“A gestação não é um período de inatividade — ao contrário, exercícios regulares e adequados trazem benefícios comprovados para a mãe e para o bebê. O segredo está na individualização e no acompanhamento profissional”, finaliza o cardiologista.

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Perguntas frequentes

1. É perigoso o coração bater rápido demais durante o treino gestacional?

Sim, se ultrapassar os limites de segurança por muito tempo. Batimentos excessivos podem reduzir temporariamente o fluxo de oxigênio para o bebê e causar hipertermia (aumento da temperatura corporal) na mãe.

2. Posso fazer exercícios de alta intensidade se eu já era atleta?

Sim, mas sob supervisão rigorosa. Atletas podem manter intensidades maiores, porém o monitoramento da frequência cardíaca e da temperatura deve ser constante para evitar o estresse fetal.

3. O que é o “teste da fala” no exercício para gestantes?

É uma forma prática de medir a intensidade: se a gestante consegue conversar enquanto se exercita, a frequência cardíaca está em uma zona segura. Se ficar ofegante demais para falar, deve reduzir o ritmo.

4. Como o monitoramento cardíaco ajuda a evitar a pré-eclâmpsia?

O monitoramento ajuda a controlar o esforço cardiovascular, evitando picos de pressão arterial e garantindo que o exercício atue de forma benéfica na saúde dos vasos sanguíneos.

5. O que fazer se a frequência cardíaca subir muito rápido no início do treino?

Pare ou reduza a intensidade imediatamente. Isso pode ser sinal de desidratação, cansaço acumulado ou necessidade de um aquecimento mais longo e gradual.

6. Quando os batimentos indicam que devo procurar um médico?

Se após interromper o exercício a frequência cardíaca demorar muito a baixar ou se você sentir arritmia (batimentos irregulares), dor no peito ou tontura extrema.

7. É seguro treinar em dias muito quentes?

Não é recomendado, pois o calor ambiente somado ao esforço físico eleva a frequência cardíaca e a temperatura interna, o que é arriscado para o desenvolvimento do bebê.

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