Você começou a semana com o nariz escorrendo, a garganta arranhando e aquela sensação de corpo pesado, mas o aplicativo de treino continua enviando notificações, lembrando que está na hora de se exercitar. Na dúvida, é comum se perguntar se vale a pena treinar ou se é melhor deixar o corpo descansar.
Quando surgem sintomas de resfriado ou gripe, o organismo já está trabalhando para combater uma infecção. Durante o exercício físico, o corpo também precisa de energia e de esforço do sistema cardiovascular e respiratório. Por isso, em alguns casos, pode ser arriscado treinar durante a infecção.
Conversamos com o cardiologista Giovanni Henrique Pinto para entender quando o exercício pode (e quando definitivamente não pode) continuar durante um quadro de infecção viral, quais os riscos e como voltar aos treinos sem colocar a saúde em risco.
É seguro treinar com gripe?
Depende dos sintomas e da intensidade da gripe. Em muitas situações, o treino pode até ser mantido, mas com algumas adaptações para não sobrecarregar o organismo. Em outras, o melhor caminho realmente é descansar.
“De forma geral, sintomas leves localizados na parte superior do corpo, como nariz escorrendo, leve congestão nasal ou dor de garganta sem febre, costumam ser tolerados com exercícios de baixa a moderada intensidade. Já sintomas que comprometem o corpo como um todo pedem repouso obrigatório”, explica Giovanni.
Uma forma de avaliar a situação é observar onde estão os sintomas, a partir da regra do pescoço, que é usada para decidir se é seguro ou não praticar exercício físico quando surgem sintomas de resfriado ou gripe leve.
Quando os sintomas ficam acima do pescoço
Se os sintomas aparecem apenas acima do pescoço, em geral o exercício leve costuma ser considerado seguro. Os sinais mais comuns são:
- Nariz entupido ou escorrendo;
- Espirros;
- Garganta arranhando;
- Congestão nasal leve.
Nesses casos, atividades leves, como caminhada, alongamento, yoga ou um treino moderado, costumam ser bem toleradas. Ainda assim, o ideal é reduzir a intensidade e observar a reação do corpo. Se você sentir o mal-estar piorar durante o exercício, o melhor é parar.
Quando os sintomas ficam abaixo do pescoço
Se os sintomas aparecem no corpo inteiro ou abaixo do pescoço, o mais indicado é evitar o treino. Os sinais de alerta são:
- Febre;
- Dores no corpo;
- Tosse intensa;
- Fadiga ou cansaço forte;
- Dor no peito;
- Calafrios.
A regra do pescoço não é um diagnóstico médico, mas funciona como um guia prático para avaliar o próprio estado físico. Ela ajuda a separar os casos mais leves, em que uma atividade moderada pode ser possível, dos quadros mais sérios, que pedem descanso.
Quais os riscos de treinar com uma infecção viral?
Durante uma gripe ou resfriado, o organismo já está mobilizando energia para combater o vírus. Quando você adiciona um treino intenso na rotina, o esforço físico pode aumentar ainda mais a sobrecarga sobre o corpo.
Sobrecarga no coração
Segundo Giovanni, a febre, por si só, já eleva a frequência cardíaca e aumenta a demanda de oxigênio pelo coração. De forma geral, a cada aumento de cerca de 1 °C na temperatura corporal, a frequência cardíaca pode subir entre 10 e 15 batimentos por minuto.
Quando você pratica exercícios físicos em estado febril, a sobrecarga sobre o organismo aumenta. O coração precisa bombear sangue para os músculos em atividade e, ao mesmo tempo, lidar com a temperatura corporal elevada, com a desidratação mais rápida e com o esforço do sistema imunológico para combater a infecção.
Como consequência, o cardiologista explica que podem surgir arritmias cardíacas, queda brusca da pressão arterial, tontura, desmaio ou, em situações mais graves, lesões no músculo cardíaco.
Desidratação e piora dos sintomas
As infecções virais frequentemente vêm acompanhadas de febre, sudorese e perda de líquidos. O exercício físico também aumenta a transpiração. Quando as duas situações acontecem juntas, o risco de desidratação cresce, o que pode agravar o mal-estar, causar queda de pressão e prolongar a recuperação.
O esforço físico também pode intensificar sintomas como a fadiga, as dores no corpo e a sensação de exaustão, atrasando o processo de recuperação.
Inflamação no coração (miocardite)
Alguns vírus respiratórios, como o vírus influenza, podem provocar uma inflamação do músculo cardíaco chamada miocardite. A condição surge quando a resposta inflamatória do organismo, ao combater o vírus, acaba afetando também o coração.
Giovanni aponta que o quadro é leve e passa despercebido na maioria das vezes. Mas, em algumas pessoas, principalmente em jovens e atletas, pode causar sintomas como:
- Palpitações e arritmias;
- Dor no peito;
- Falta de ar;
- Queda abrupta do desempenho físico;
Em situações raras, a miocardite pode evoluir para insuficiência cardíaca ou até morte súbita associada ao esforço físico.
“Continuar treinando durante uma infecção viral, mesmo sem saber que há miocardite, pode acelerar a progressão da inflamação e aumentar o risco de complicações graves. Estudos em atletas mostram que a miocardite é uma das principais causas de morte súbita relacionada ao esporte”, esclarece o cardiologista.
Quando parar o treino imediatamente?
Independentemente da presença de gripe ou resfriado, alguns sintomas durante a prática de exercício físico indicam que a atividade deve ser interrompida imediatamente, como:
- Dor ou sensação de pressão no peito;
- Falta de ar desproporcional ao nível do esforço;
- Palpitações intensas ou batimentos cardíacos irregulares;
- Tontura, desmaio ou sensação de desmaio iminente;
- Cansaço extremo e incomum;
- Febre durante ou após o treino.
Se você apresentar os sintomas durante um quadro de infecção viral, ou mesmo nos dias seguintes à recuperação, o mais indicado é procurar avaliação médica.
Quanto tempo esperar antes de voltar a treinar?
A recomendação geral, com base nas diretrizes da cardiologia esportiva, varia conforme a intensidade dos sintomas, como explica Giovanni:
- Sintomas leves, sem febre: aguardar de 24 a 48 horas após a resolução completa dos sintomas antes de retomar os exercícios moderados;
- Gripe com febre ou sintomas sistêmicos: aguardar pelo menos 7 dias após a resolução completa da febre e dos sintomas;
- Suspeita de miocardite ou complicações: realizar uma avaliação médica com eletrocardiograma e, eventualmente, um ecocardiograma antes de qualquer retorno.
Para quem tem doenças cardíacas pré-existentes, hipertensão ou diabetes, o retorno deve sempre ser acompanhado por um profissional de saúde.
Como retomar os exercícios de forma gradual e segura?
Após uma gripe, o organismo ainda está em fase de recuperação mesmo quando os sintomas desaparecem. Por isso, Giovanni orienta a seguinte estratégia:
- Dias 1 e 2: caminhada leve por 20 a 30 minutos, sem esforço;
- Dias 3 e 4: atividade aeróbica de baixa intensidade, como uma corrida leve ou um ciclismo tranquilo;
- Dias 5 e 6: intensidade moderada, se o corpo responder bem;
- A partir do dia 7: retorno progressivo à intensidade habitual.
Uma boa referência: se após 10 minutos de atividade leve você já se sentir significativamente cansado, o corpo ainda precisa de mais tempo para se recuperar.
“Durante esse retorno, preste atenção ao seu corpo. Cansaço excessivo, falta de ar ou palpitações são sinais de que o organismo ainda não está pronto. Não force”, finaliza o cardiologista.
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Perguntas frequentes
1. O treino pesado pode piorar uma dor de garganta?
Sim. O exercício intenso causa um estresse temporário no sistema imune, a chamada “janela aberta”. Isso pode fazer com que uma irritação leve na garganta evolua para uma infecção bacteriana mais séria.
2. Posso fazer musculação, mas evitar o cardio enquanto estou me recuperando?
A musculação de alta intensidade também exige muito do sistema cardiovascular e do sistema nervoso central. Se optar por treinar, escolha cargas leves e descansos mais longos entre as séries.
3. O uso de suplementos como whey e creatina deve ser mantido durante a gripe?
Pode ser mantido, mas o foco principal deve ser a hidratação e a ingestão de micronutrientes (frutas e vegetais). Se não estiver conseguindo comer bem, o Whey pode ajudar a manter o aporte proteico.
4. Tomar remédios para gripe me libera para treinar?
Não. Os remédios antigripais apenas mascaram os sintomas (como dor e febre), mas a infecção viral continua presente no seu organismo. O risco cardíaco permanece o mesmo, mesmo que você se sinta melhor sob efeito do remédio.
5. O que acontece com o meu VO2 máx (capacidade aeróbica) se eu parar de treinar por causa de uma gripe?
Haverá uma queda leve na capacidade cardiovascular após 7 a 10 dias de inatividade, mas nada que não seja recuperado rapidamente nas primeiras duas semanas de volta aos treinos.
6. É melhor treinar em casa para não infectar os outros ou nem treinar?
Se você tem sintomas sistêmicos (abaixo do pescoço), não deve treinar nem em casa. O repouso é para o seu coração e sistema imune, não apenas para evitar o contágio alheio.
7. O uso de pré-treinos com cafeína é perigoso durante a gripe?
Sim, pois a cafeína aumenta a frequência cardíaca e esconde a fadiga real, o que potencializa o risco de arritmias em um coração já estressado pelo vírus.
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