A constipação é um dos efeitos colaterais mais comuns em pessoas que usam remédios agonistas do receptor de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro. Eles atuam retardando o esvaziamento do estômago e diminuindo os movimentos naturais do intestino, o que pode deixar o trânsito intestinal mais lento e irregular ao longo do tratamento, resultando no intestino preso.
Apesar de ajudar no controle da glicemia e na perda de peso, a digestão mais lenta pode tornar as fezes endurecidas e difíceis de eliminar. A redução do apetite também contribui para um consumo menor de fibras e líquidos ao longo do dia, o que acaba agravando o quadro.
O desconforto, que costuma incluir sensação de inchaço, dor abdominal e dificuldade para evacuar, pode ser diminuído a partir de alguns ajustes na dieta, que nós explicamos a seguir!
Por que os agonistas do GLP-1 causam constipação?
Os agonistas do GLP-1, também conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras” atuam retardando o esvaziamento do estômago e diminuindo a velocidade do trânsito intestinal, o que prolonga a sensação de saciedade e contribui para o controle da glicemia.
Mas, com o alimento permanecendo mais tempo no sistema digestivo, o intestino absorve mais água ao longo do percurso, deixando as fezes mais secas e difíceis de eliminar.
Ao mesmo tempo, a nutricionista Bárbara Yared explica que, durante o tratamento, é comum reduzir a ingestão de alimentos ao longo do dia, principalmente de fibras. A ingestão de líquidos também pode cair, o que contribui ainda mais para o ressecamento das fezes.
Quais alimentos ajudam a combater a prisão de ventre?
Como a prisão de ventre é resultado especialmente da lentidão no esvaziamento gástrico, é importante priorizar alimentos que estimulem o funcionamento do intestino sem sobrecarregar a digestão.
A ideia envolve escolher opções ricas em fibras, com boa quantidade de água e que sejam bem toleradas ao longo do tratamento. Bárbara aponta os principais, a seguir:
1. Frutas com bagaço e casca comestível
As frutas são ótimas fontes de fibras, principalmente quando consumidas com casca ou bagaço, já que boa parte das fibras fica concentrada nessas partes. Alguns exemplos incluem:
- Laranja (com bagaço);
- Maçã (com casca);
- Pera (com casca);
- Ameixa;
- Mamão.
As fibras solúveis ajudam a formar um gel no intestino, que melhora a consistência das fezes, enquanto as fibras insolúveis aumentam o volume e estimulam o movimento intestinal. O mamão, por exemplo, contém papaína, uma enzima que facilita a digestão, enquanto a ameixa é rica em sorbitol, um composto com leve efeito laxativo natural.
2. Vegetais variados
O consumo regular de vegetais variados é fundamental para combater a constipação, uma vez que são ricos em fibras solúveis e insolúveis. A diversidade de nutrientes também alimenta as bactérias benéficas da flora intestinal, o que contribui para um trânsito intestinal mais equilibrado e regular.
- Folhas verdes (alface, rúcula, espinafre);
- Brócolis;
- Cenoura;
- Abobrinha;
- Couve.
A inclusão diária desses alimentos ajuda a manter o intestino ativo, mesmo com menor volume de refeições.
3. Grãos integrais e sementes
Os grãos integrais e as sementes ajudam a aumentar o volume das fezes, o que facilita o trânsito intestinal. Mesmo em pequenas quantidades, já contribuem para a regularidade:
- Aveia;
- Arroz integral;
- Quinoa;
- Chia;
- Linhaça.
A aveia se destaca por conter beta-glucanas, fibras solúveis que formam um gel no intestino e ajudam na passagem das fezes. A chia e a linhaça, quando hidratadas, absorvem água e aumentam de volume, o que auxilia na lubrificação do intestino e torna a evacuação mais confortável.
4. Leguminosas
As leguminosas estão entre as fontes mais completas de fibras e também oferecem minerais importantes para o funcionamento intestinal.
- Feijão;
- Lentilha;
- Grão-de-bico.
Além do alto teor de fibras, o magnésio presente nos alimentos ajuda a atrair água para o intestino e favorece o relaxamento da musculatura do trato digestivo. O efeito favorece fezes menos ressecadas e uma evacuação mais regular. A inclusão frequente na rotina, em porções moderadas, ajuda a manter o intestino mais equilibrado.
5. Pão integral
O pão integral é uma opção prática para o dia a dia, principalmente em uma rotina com menos apetite e refeições menores. Vale dar preferência para versões com grãos e sementes, que têm mais fibras e ajudam ainda mais o intestino.
Para quem sente saciedade precoce com o uso de GLP-1, o pão integral também é uma forma simples de garantir fibras sem precisar comer muito. Além disso, é fácil de incluir em lanches rápidos, o que ajuda a manter uma rotina mais equilibrada e o intestino funcionando melhor.
Quanto de fibras é recomendado consumir?
De acordo com Bárbara, o ideal é consumir cerca de 14 g de fibras para cada 1000 kcal ingeridas. No entanto, o ajuste deve ser feito conforme a tolerância individual, aumentando a ingestão de água simultaneamente para evitar gases e desconforto abdominal.
Importância da hidratação no tratamento com GLP-1
A fibra precisa de água para formar um bolo fecal mais macio e fácil de eliminar, segundo Bárbara. Isso acontece porque as fibras absorvem líquido no intestino, ajudando a dar volume e a deixar as fezes com uma consistência mais adequada para a evacuação.
Quando ocorre aumento do consumo de fibras sem um aumento na ingestão de líquidos, a prisão de ventre pode piorar, já que as fezes podem ficar ainda mais ressecadas e difíceis de eliminar.
Em geral, a recomendação fica na faixa de 20 a 40 ml de água por quilo de peso ao dia, com ajustes de acordo com o clima, o nível de atividade física e a presença de sintomas gastrointestinais.
Dicas para melhorar o trânsito intestinal
Pequenos ajustes na rotina já ajudam bastante a melhorar o funcionamento do intestino, principalmente durante o uso de GLP-1, como:
- Distribuir a alimentação ao longo do dia, em pequenas refeições, o que ajuda a estimular o intestino com mais frequência. Mesmo com menos apetite, manter intervalos regulares pode favorecer a motilidade intestinal;
- Aumentar gradativamente o consumo de fibras, o que evita desconfortos como gases e sensação de estufamento. O ideal é variar as fontes, combinando frutas, vegetais, grãos integrais e sementes ao longo do dia;
- Beber água de forma distribuída, e não apenas em grandes volumes de uma vez, o que ajuda o intestino a funcionar melhor;
- Movimentos simples, como caminhada, alongamento ou exercícios leves, que já estimulam o funcionamento do intestino. A atividade física contribui diretamente para a motilidade intestinal e pode reduzir a sensação de inchaço.
Com uma rotina mais organizada e consistente, o intestino tende a responder melhor, trazendo mais conforto no dia a dia.
Quando procurar um médico?
É importante procurar orientação médica quando a prisão de ventre começa a durar mais tempo ou vem acompanhada de outros sintomas, como:
- Vários dias sem evacuar, com piora progressiva;
- Dor abdominal importante;
- Distensão abdominal;
- Náuseas ou vômitos.
De acordo com Bárbara, os seguintes sinais também merecem atenção:
- Presença de sangue nas fezes;
- Perda de peso não planejada;
- Dor intensa;
- Histórico prévio de doenças intestinais.
Nessas situações, o ideal é conversar com um médico e um nutricionista para entender melhor o que está acontecendo e ajustar tanto o uso do medicamento quanto a alimentação.
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Perguntas frequentes
1. É normal ficar dias sem ir ao banheiro no início do tratamento?
Sim, é normal. No entanto, se o intervalo for superior a 3 dias ou houver dor intensa, é necessário consultar um médico.
2. Pode comer qualquer tipo de fibra?
O ideal é ter equilíbrio. As fibras solúveis (aveia, miolo de frutas) formam um gel que facilita a passagem, enquanto as fibras insolúveis (cascas, farelos) aumentam o volume das fezes.
3. Pode usar laxantes durante o tratamento?
Apenas sob orientação médica. O uso crônico de laxantes pode viciar o intestino e mascarar problemas que poderiam ser resolvidos com ajuste de dieta.
4. O pão integral é melhor que o branco para quem usa GLP-1?
Sim, o pão integral possui farelos que estimulam o movimento intestinal, enquanto o pão branco pode contribuir para um trânsito ainda mais lento.
5. O consumo de iogurte e probióticos ajuda?
Sim, os probióticos auxiliam no equilíbrio da flora intestinal, o que pode melhorar a frequência das evacuações e reduzir o inchaço abdominal.
6. Quais alimentos “prendem” mais o intestino durante o tratamento?
Alimentos ultraprocessados, ricos em farinha branca (pão francês, biscoitos, massas) e baixos em fibras, devem ser evitados, pois tornam o trânsito intestinal ainda mais lento.
7. O uso de suplementos de ferro ou cálcio afeta o intestino?
Sim, ambos são conhecidos por causar constipação como efeito colateral. Se você usa os suplementos e está em tratamento com GLP-1, converse com o médico sobre a melhor forma de administrá-los.
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