Como a solidão pode aumentar o risco de doenças cardíacas (e a importância das relações sociais)

Homem sozinho assistindo TV em casa, representando solidão e isolamento social ligados à saúde do coração

A solidão, aquela impressão de não ter com quem contar, dividir sentimentos ou viver momentos importantes, não é mais só uma questão emocional ou mental. Na verdade, nos últimos anos, pesquisas começaram a observar como o corpo responde a experiência de ficar sozinho.

Hoje já se sabe que a sensação prolongada de desconexão pode desencadear respostas biológicas relacionadas ao estresse, influenciando sono, pressão arterial, inflamação e até hábitos do dia a dia.

Para entender como tudo isso pode impactar a saúde do coração, conversamos com a cardiologista Juliana Soares e esclarecemos as principais dúvidas. Confira!

Solidão é considerada um fator de risco cardiovascular?

A solidão e o isolamento social são considerados fatores de risco para doenças cardiovasculares. Não são causas diretas como pressão alta, diabetes ou tabagismo, mas podem influenciar a saúde do coração ao longo do tempo.

Segundo Juliana, mesmo pessoas que apresentam a pressão arterial controlada e níveis de glicose adequados, por exemplo, podem apresentar aumento da chance de desenvolver problemas cardíacos caso estejam cronicamente isolados ou vivenciem solidão prolongada.

O que explica essa relação?

Existem duas vias que ajudam a explicar essa relação: mecanismos comportamentais e mecanismos biológicos ou fisiológicos.

No aspecto comportamental, quando o indivíduo está mais solitário e isolado, Juliana explica que ele tende a adotar hábitos menos saudáveis, como:

  • Alimentação menos equilibrada, com maior consumo de alimentos ultraprocessados e ricos em carboidratos;
  • Redução da prática de atividade física ou sedentarismo mais frequente;
  • Maior probabilidade de fumar ou aumentar o consumo de cigarro;
  • Dieta mais desorganizada, com excesso de açúcar e gorduras;
  • Menor adesão a tratamentos médicos, consultas e uso correto de medicamentos.

Já na via biológica, a solidão ativa o sistema nervoso e o eixo hormonal, elevando níveis de cortisol e catecolaminas, como a adrenalina. Isso gera um estado inflamatório crônico de baixo grau no organismo.

Como consequência, há aumento da atividade inflamatória geral, aceleração do processo de formação de placas nas artérias, elevação da pressão arterial, promoção de resistência à insulina e aumento da obesidade visceral, ou seja, acúmulo de gordura entre os órgãos.

Todos os fatores contribuem para maior risco cardiovascular, podendo favorecer, ao longo do tempo, a probabilidade de problemas como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca.

Solidão pode influenciar pressão arterial, sono e controle do colesterol

A solidão costuma gerar uma situação de estresse crônico no organismo, elevando os níveis basais de cortisol e adrenalina, segundo Juliana.

A alteração pode impactar o metabolismo das gorduras, aumentando o colesterol LDL (o chamado colesterol ruim), os níveis de açúcar no sangue e a pressão arterial. A solidão também está associada a maior incidência de um sono de má qualidade.

Muitas vezes, a pessoa apresenta sensação de insegurança ou estado constante de alerta, o que dificulta alcançar fases mais profundas do sono, importantes para a saúde cardiovascular.

Quem apresenta mais risco?

O risco de eventos cardiovasculares, como AVC, infarto e insuficiência cardíaca, é maior entre pessoas com atividade social mais restrita ou em situação de isolamento social.

Além disso, Juliana esclarece que pessoas socialmente isoladas que já convivem com a doença costumam apresentar pior prognóstico. Isso inclui maiores taxas de reinternação e mortalidade quando comparadas a pacientes com boa rede de apoio social.

A cardiologista ainda ressalta que tanto adultos jovens quanto idosos podem ser afetados pelos efeitos da solidão no sistema cardiovascular.

O isolamento social tende a ser mais frequente em idades mais avançadas, muitas vezes por perda de amigos ou cônjuges e mudanças na dinâmica familiar, como filhos que passam a ter rotinas próprias.

Já entre adultos mais jovens, a solidão prolongada pode ser ainda mais prejudicial a longo prazo, pois a exposição aos efeitos do isolamento costuma durar mais tempo. Isso pode contribuir para o envelhecimento precoce do sistema cardiovascular.

A importância das relações sociais para a saúde do coração

A convivência social com pessoas com quem existe troca afetiva, apoio e confiança também causa efeitos físicos positivos no organismo.

A interação social estimula a liberação de ocitocina, um hormônio ligado ao bem-estar, que possui propriedades anti-inflamatórias naturais e contribui para a dilatação dos vasos sanguíneos, ajudando na proteção do coração.

Além disso, ter uma rede de apoio formada por amigos, familiares ou pessoas de confiança costuma facilitar bastante os cuidados com a saúde: fica mais fácil manter consultas em dia, seguir tratamentos corretamente, encontrar motivação para praticar atividades físicas e até cuidar melhor da alimentação.

Por fim, saber que existe alguém para conversar, dividir preocupações ou simplesmente compartilhar momentos ajuda a reduzir o estresse do dia a dia, que também influencia a saúde do coração.

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Perguntas frequentes

1. Existe diferença entre “estar sozinho” e “sentir-se sozinho”?

Sim, o isolamento social é a falta física de contatos, enquanto a solidão é o sentimento subjetivo de desconexão. Ambos aumentam o risco cardíaco, mas o sentimento de solidão é um gatilho de estresse mais forte.

2. Ter um animal de estimação ajuda?

Sim! A ciência comprova que donos de cachorros, por exemplo, têm menor risco de morte por doenças cardiovasculares, pois o pet estimula a atividade física e oferece suporte emocional.

3. Melhorar a vida social pode reverter danos?

Sim, fortalecer laços sociais reduz os níveis de inflamação no corpo e ajuda a regular a frequência cardíaca.

4. O que é a “Síndrome do Coração Partido” e a solidão?

Embora seja causada por um estresse agudo (como um luto), pessoas cronicamente solitárias têm o músculo cardíaco mais vulnerável a esse tipo de falência súbita causada por emoções fortes.

5. O que é “fome social”?

É um termo científico usado para descrever como o cérebro reage à falta de interação social. Assim como a fome por comida nos leva a buscar energia e nutrientes, ela tende a estimular a busca por conexão com outras pessoas. Mas, quando a necessidade não é atendida, a saúde pode ser prejudicada.

6. Como o médico pode abordar esse fator no cuidado cardiovascular?

Durante a avaliação clínica, é importante considerar o contexto social do paciente, compreendendo a rotina, a rede de suporte, o estado emocional e o grau de satisfação com a própria vida.

Uma abordagem multiprofissional também é fundamental, integrando suporte psicológico, assistência social e outras áreas da saúde quando necessário.

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