Vasculite: o que é, sintomas e como é feito o tratamento da condição

Cuidadora aferindo a temperatura de paciente acamado, situação associada a sintomas sistêmicos da vasculite, como febre.

A vasculite é uma inflamação que afeta os vasos sanguíneos, estruturas do sistema circulatório responsáveis por transportar o sangue por todo o corpo.

Como elas estão presentes em praticamente todos os órgãos e tecidos, a condição pode se manifestar de formas diferentes. Por isso, os sintomas variam muito de uma pessoa para outra, indo de quadros leves até situações mais graves.

Conversamos com o cirurgião vascular Marcelo Dalio para entender como ela afeta o organismo, os principais sintomas e como é feito o diagnóstico.

O que é vasculite?

A vasculite é uma condição caracterizada pela inflamação dos vasos sanguíneos. Quando isso acontece, as paredes dos vasos podem ficar mais espessas, estreitas ou até se fechar, dificultando a passagem do sangue, de acordo com Marcelo Dalio.

Como os vasos sanguíneos estão distribuídos por todo o corpo, a vasculite pode atingir diferentes órgãos e tecidos, como pele, articulações, rins, pulmões, nervos e cérebro. Isso explica porque os sintomas variam tanto de uma pessoa para outra, indo de quadros leves até situações mais graves.

Como a vasculite afeta o corpo?

A vasculite compromete o organismo por meio de um processo inflamatório que altera a estrutura física das paredes dos vasos sanguíneos, sejam eles artérias, veias ou capilares.

Quando a parede vascular inflama, ela pode ficar mais grossa, diminuindo o espaço por onde o sangue passa, o que é conhecido como estenose.

A obstrução parcial ou total restringe a passagem do fluxo sanguíneo, resultando em isquemia, que é a privação de oxigênio e nutrientes essenciais para a sobrevivência dos tecidos e órgãos.

Se essa falta de circulação for intensa e durar muito tempo, pode ocorrer a morte do tecido, conhecida como necrose.

Em outros casos, a inflamação pode levar ao enfraquecimento da parede do vaso sanguíneo, tornando-o vulnerável à pressão interna do sangue. O processo favorece a formação de aneurismas, dilatações anormais que apresentam risco elevado de ruptura e hemorragia.

Quais os tipos de vasculite?

A condição é classificada em dois grandes grupos: as vasculites primárias, que ocorrem de forma isolada, e as vasculites secundárias, que surgem como consequência de outros fatores ou doenças preexistentes.

Vasculite primária

As vasculites primárias são doenças raras em que o vaso sanguíneo é o principal alvo da inflamação, sem uma causa claramente definida. A classificação depende, principalmente, do tamanho do vaso acometido.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, elas podem ocorrer de duas formas:

  • Localizadas, quando atingem apenas um órgão ou tecido, como pele, olhos ou sistema nervoso central;
  • Sistêmicas, quando afetam vários órgãos ao mesmo tempo ou em momentos diferentes.

Entre os principais exemplos estão vasculites de vasos grandes, médios e pequenos, cada uma com características próprias.

Vasculite secundário

As vasculites secundárias acontecem quando a inflamação dos vasos está relacionada a outra condição, como doenças autoimunes, infecções, câncer, uso de medicamentos ou exposição a determinadas substâncias. Nesses casos, a vasculite surge como consequência de outro problema de saúde.

Classificação pelo tamanho dos vasos

As vasculites também são classificadas de acordo com o tamanho dos vasos afetados, segundo Marcelo:

  • Vasculites de pequenos vasos: geralmente se manifestam na pele, causando manchas, púrpura ou feridas;
  • Vasculites de vasos médios: podem atingir artérias importantes, como as coronárias ou as artérias das pernas;
  • Vasculites de grandes vasos: acometem artérias maiores, como a aorta.

Um exemplo de vasculite de vasos médios é a tromboangeíte obliterante, uma doença autoimune em que o tabagismo atua como gatilho da inflamação.

Já entre as vasculites de grandes vasos, destaca-se a arterite de Takayasu, que afeta a aorta e pode comprometer a circulação em várias partes do corpo.

O que causa a vasculite?

Na maioria das vezes, a vasculite está relacionada a uma reação inadequada do sistema imunológico, que passa a atacar estruturas do próprio corpo. Nesse processo, os vasos sanguíneos se tornam o alvo da inflamação, como se o organismo os reconhecesse de forma equivocada como uma ameaça.

No entanto, ela também pode estar associada a outros fatores que funcionam como gatilhos para o processo inflamatório, especialmente em pessoas com predisposição, como:

  • Doenças autoimunes sistêmicas: a vasculite pode surgir como complicação de outras doenças em que o sistema imunológico já funciona de forma desregulada, como lúpus, artrite reumatoide ou síndrome de Sjögren;
  • Infecções: alguns vírus e bactérias podem desencadear inflamação nos vasos sanguíneos. Entre os exemplos mais conhecidos estão os vírus das hepatites B e C, o HIV e infecções bacterianas mais graves, como a endocardite;
  • Reações a medicamentos: certos remédios, como antibióticos, anti-inflamatórios ou anticonvulsivantes, podem provocar uma reação exagerada do sistema imunológico, levando à inflamação dos vasos;
  • Câncer: embora seja menos comum, alguns tipos de câncer, especialmente leucemias e linfomas, podem estar associados ao surgimento de vasculite. Nesses casos, a inflamação ocorre como uma reação indireta do organismo à doença;
  • Fatores genéticos e ambientais: a combinação entre predisposição genética e contato com poluentes, toxinas ou outras agressões ambientais pode facilitar o desenvolvimento da vasculite em pessoas mais suscetíveis.

Sintomas da vasculite

Os sintomas de vasculite podem variar bastante, porque a inflamação pode atingir vasos sanguíneos de diferentes partes do corpo. Normalmente, os sinais aparecem de forma gradual e costumam persistir por semanas.

Antes de surgir um sintoma específico, o corpo costuma dar sinais de inflamação, como:

  • Febre persistente;
  • Cansaço intenso;
  • Mal-estar geral;
  • Perda de peso sem explicação;
  • Dores musculares e articulares.

Quando a inflamação se concentra em determinados vasos, os órgãos correspondentes começam a apresentar sintomas, como:

  • Pele: sendo uma das partes mais afetadas pela vasculite, podem surgir manchas arroxeadas que não somem quando apertadas, lesões parecidas com alergia, feridas abertas que demoram a cicatrizar ou caroços doloridos sob a pele;
  • Sistema nervoso: podem aparecer dormência, formigamento, perda de sensibilidade ou fraqueza repentina em uma mão ou em um pé. Quando o cérebro é afetado, podem surgir dor de cabeça forte, confusão mental ou dificuldade para pensar com clareza;
  • Rins: no início, a inflamação dos vasos dos rins pode não causar sintomas. Com o tempo, podem surgir sinais como urina com sangue, urina espumosa ou aumento repentino da pressão arterial;
  • Aparelho respiratório: a pessoa pode sentir falta de ar, ter tosse que não melhora ou, em casos mais graves, tossir com presença de sangue;
  • Aparelho digestivo: podem ocorrer dores fortes na barriga, principalmente após as refeições, além de sangue nas fezes;
  • Olhos e ouvidos: é possível notar olhos vermelhos, visão embaçada, perda repentina da audição ou zumbido constante nos ouvidos.

Diagnóstico de vasculite

O diagnóstico começa com uma avaliação clínica cuidadosa, uma vez que a vasculite é uma doença rara e com sintomas variados. Segundo Marcelo, o médico observa os sinais apresentados pela pessoa e analisa quais vasos sanguíneos podem estar afetados, sejam vasos grandes, médios, pequenos ou microvasos.

Durante o exame físico, o especialista pode identificar alterações importantes, como a diminuição ou ausência de pulso em algumas artérias, especialmente quando vasos grandes estão envolvidos.

Já nos casos de vasculite de pequenos vasos da pele, Marcelo aponta que não há alteração do pulso, mas podem surgir manchas arroxeadas, púrpura, feridas ou outras lesões cutâneas, com padrões que ajudam a orientar o diagnóstico.

Também podem ser necessários outros exames, como:

  • Exames de imagem, como tomografia, ressonância ou arteriografia, para visualizar estreitamentos ou inflamações nos vasos sanguíneos;
  • Exames laboratoriais, como a dosagem da proteína C-reativa (PCR) e do VHS, que costumam mostrar sinais de inflamação no organismo. Em alguns tipos de vasculite, existem exames específicos que ajudam a confirmar o diagnóstico.

Nas vasculites que afetam apenas a pele, o diagnóstico muitas vezes é clínico, baseado nos sintomas e no aspecto das lesões, sem necessidade de exames de imagem.

Como é feito o tratamento de vasculite?

O tratamento inicial da vasculite costuma ser clínico, a fim de controlar a inflamação dos vasos sanguíneos, aliviar os sintomas e evitar danos aos órgãos. A escolha do tratamento depende do tipo de vasculite, dos vasos atingidos e da gravidade do quadro.

Na maioria dos casos, o tratamento é clínico, feito com o uso dos seguintes medicamentos:

  • Corticoides, que reduzem rapidamente a inflamação e costumam ser a base do tratamento inicial;
  • Imunossupressores, usados quando a inflamação é mais intensa ou não responde apenas ao corticoide;
  • Medicamentos imunobiológicos, mais recentes, que ajudam a modular a resposta do sistema imunológico de forma mais direcionada.

Se a vasculite for desencadeada por uma infecção (como a hepatite C) ou pelo uso de algum medicamento, o tratamento da infecção ou a suspensão da substância é necessária para a recuperação.

Segundo Marcelo, o tratamento e o acompanhamento costumam ser feitos pelo reumatologista, especialista em doenças autoimunes.

Com o controle da inflamação, os sintomas tendem a melhorar, as lesões de pele regridem, a dor nas articulações diminui e a progressão da doença é interrompida.

Quando é necessário tratamento vascular?

Em alguns casos, a vasculite pode causar sequelas nos vasos, como estreitamentos ou obstruções importantes. Quando isso acontece, o cirurgião vascular pode atuar para corrigir essas alterações, principalmente se houver risco de perda de função, dificuldade para andar, AVC ou comprometimento de órgãos como os rins.

Marcelo explica que essas correções podem ser feitas por procedimentos cirúrgicos ou endovasculares, sempre após o controle da inflamação.

Vasculite precisa de acompanhamento a longo prazo?

Mesmo após a melhora dos sintomas, o acompanhamento continua sendo importante, já que a vasculite pode voltar em alguns casos e o controle precoce ajuda a evitar complicações.

Algumas pessoas entram em remissão completa e conseguem suspender os medicamentos, mantendo apenas o seguimento regular. Outras, segundo Marcelo, podem precisar de tratamento contínuo ou intermitente ao longo da vida.

Quando ir ao médico?

A avaliação médica é importante sempre que surgirem sintomas persistentes ou sem causa aparente, principalmente quando envolvem mais de uma parte do corpo. Alguns sinais merecem atenção especial:

  • Febre que dura vários dias sem explicação;
  • Cansaço intenso e mal-estar constante;
  • Dores nas articulações ou músculos que não melhoram;
  • Manchas arroxeadas, feridas ou lesões na pele sem motivo claro;
  • Perda de peso sem mudança na alimentação;
  • Dormência, formigamento ou fraqueza em braços ou pernas;
  • Falta de ar, tosse persistente ou presença de sangue ao tossir;
  • Dor abdominal forte ou sangue nas fezes;
  • Inchaço, alterações na urina ou aumento repentino da pressão arterial.

Também é importante procurar um médico se houver histórico de doenças autoimunes, uso recente de medicamentos novos ou infecções, já que essas situações podem estar relacionadas ao surgimento da vasculite.

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Perguntas frequentes

1. A vasculite é considerada um tipo de câncer?

Não, a vasculite é uma doença inflamatória, normalmente de origem autoimune, e não uma neoplasia. Contudo, em casos raros, ela pode surgir como uma reação secundária a algum tipo de câncer.

2. A vasculite é contagiosa?

Não, a vasculite não é uma doença infectocontagiosa. Ela decorre de uma disfunção do sistema imunológico ou de reações internas do organismo.

3. Existe cura para a vasculite?

Muitas formas de vasculite podem entrar em remissão completa, onde o paciente fica livre de sintomas e pode levar uma vida normal. No entanto, em muitos casos, ela é tratada como uma condição crônica que exige monitoramento contínuo.

4. É seguro praticar exercícios físicos?

Durante a fase aguda de inflamação, o repouso é normalmente indicado. Após o controle da doença, a atividade física é recomendada para combater os efeitos colaterais dos medicamentos e melhorar a saúde vascular.

5. A vasculite pode causar cegueira?

Sim, particularmente na Arterite de Células Gigantes. A inflamação das artérias que suprem o nervo óptico pode causar perda de visão súbita e irreversível se não for tratada como uma emergência médica.

6. Qual a relação entre a vasculite e o fumo?

O tabagismo é um fator de risco crítico para a vasculite, especialmente para a Tromboangeíte Obliterante (Doença de Buerger), um tipo de vasculite que afeta as extremidades e está diretamente ligada ao consumo de tabaco, podendo levar à amputação se o hábito não for interrompido.

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