Nem toda convulsão é epilepsia: entenda quando o corpo responde ao estresse em forma de crise

Pessoa dá suporte a paciente com crises não epilépticas psicogênicas

Crises convulsivas costumam ser associadas automaticamente à epilepsia. No entanto, nem toda crise com movimentos involuntários, quedas ou perda aparente de consciência tem origem neurológica elétrica. Em muitos casos, exames não mostram alterações, e os tratamentos tradicionais não funcionam, o que gera frustração para pacientes e profissionais de saúde.

As crises não epilépticas psicogênicas são um exemplo disso. Elas imitam crises epilépticas, mas têm origem psicológica e emocional. Por serem difíceis de diferenciar à beira do leito, essas crises ainda levam muitos pacientes a diagnósticos equivocados, uso desnecessário de medicamentos anticonvulsivantes e atrasos no tratamento adequado.

O que são as crises não epilépticas psicogênicas?

As crises não epilépticas psicogênicas são respostas involuntárias do organismo a situações ou condições que atuam como gatilhos emocionais ou psicológicos. Embora se manifestem de forma semelhante às crises epilépticas, elas não estão associadas a descargas elétricas anormais no cérebro.

A diferenciação clínica pode ser difícil, especialmente durante a crise, o que faz com que muitos pacientes sejam tratados como se tivessem epilepsia, passando por intervenções desnecessárias.

As crises não epilépticas psicogênicas são mais frequentes em pessoas em torno dos 30 anos, mas podem ocorrer em qualquer idade. São observadas com maior frequência em mulheres e em indivíduos com comorbidades psiquiátricas ou distúrbios do desenvolvimento.

Principais sintomas

Um aspecto fundamental das crises não epilépticas psicogênicas é que elas costumam ser desencadeadas por gatilhos específicos, geralmente associados a situações sociais, emocionais ou estressantes.

Características gerais das crises

A descrição feita pelo próprio paciente costuma ser vaga. Por isso, o relato de pessoas que presenciam a crise é essencial para a avaliação.

Entre as manifestações possíveis estão:

  • Convulsões dissociativas ou funcionais, com quedas (quando o paciente está em pé);
  • Movimentos amplos e irregulares do tronco, cabeça e membros.

Perda de consciência aparente

Em algumas crises, ocorre uma perda de consciência que pode se assemelhar a uma síncope. Um detalhe clínico importante é a posição dos olhos:

  • Em crises epilépticas, os olhos geralmente permanecem abertos;
  • Nas crises não epilépticas psicogênicas, os olhos costumam ficar fechados, e o paciente pode resistir à tentativa de abertura das pálpebras.

Duração e comportamento durante a crise

As crises não epilépticas psicogênicas tendem a ser mais prolongadas, podendo durar mais de 30 minutos, o que é incomum em crises epilépticas.

Durante a crise, manifestações vocais como choro, gagueira ou vocalizações com forte carga emocional são mais sugestivas de origem psicogênica.

Diferentemente das crises epilépticas, os pacientes:

  • Não perdem completamente a consciência;
  • Relatam crises muito frequentes, às vezes diárias;
  • Podem apresentar exame físico normal entre os episódios.

Após a crise, o retorno ao estado basal costuma ser rápido, sem o período pós-ictal de sonolência e confusão típico da epilepsia.

Causas

As crises não epilépticas psicogênicas são entendidas como manifestações de transtornos psiquiátricos, geralmente relacionadas a situações estressoras.

O transtorno mais frequentemente associado é o transtorno conversivo, no qual sintomas físicos surgem de forma involuntária após eventos emocionais significativos. Isso difere do transtorno factício, em que os sintomas são simulados conscientemente.

O mecanismo exato ainda não é totalmente conhecido, mas acredita-se que resulte da interação entre fatores genéticos, desequilíbrios emocionais e respostas ao estresse.

Diagnóstico

O diagnóstico baseia-se principalmente:

  • Nas características das crises;
  • Nas situações em que ocorrem;
  • Nos relatos de testemunhas.

A avaliação por um neurologista é essencial, assim como a realização de um eletroencefalograma (EEG). Nas crises não epilépticas psicogênicas, o EEG costuma ser normal, mesmo durante os episódios.

O diagnóstico também exige a exclusão de causas neurológicas e cardíacas que possam justificar as crises, reforçando a importância de uma avaliação clínica completa.

Tratamento

O tratamento começa com um passo fundamental: explicar claramente o diagnóstico ao paciente. É importante esclarecer que:

  • As crises são reais;
  • Não há alterações estruturais ou elétricas no cérebro;
  • Trata-se de uma condição relativamente comum.

A abordagem terapêutica é centrada em:

  • Psicoterapia;
  • Acompanhamento psicológico ou psiquiátrico para tratar outras questões que aparecem em conjunto com as crises.

Medicamentos anticonvulsivantes que tenham sido prescritos anteriormente devem ser retirados de forma gradual, sob supervisão médica, quando o diagnóstico de crises não epilépticas psicogênicas é confirmado.

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Perguntas frequentes sobre crises não epilépticas psicogênicas

1. As crises não epilépticas psicogênicas são fingimento?

Não. As crises são involuntárias e não controladas conscientemente pelo paciente.

2. Essas crises aparecem nos exames?

Não costumam aparecer no eletroencefalograma, que geralmente é normal.

3. Elas podem acontecer todos os dias?

Sim. Diferente da epilepsia, podem ocorrer com alta frequência, inclusive diariamente.

4. Medicamentos anticonvulsivantes ajudam?

Não. Esses medicamentos não tratam crises não epilépticas psicogênicas.

5. Psicoterapia realmente funciona?

Sim. É a principal forma de tratamento e manejo da condição.

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