O câncer de boca e garganta, também conhecido como câncer de cavidade oral ou câncer de lábio, é um dos principais tipos de câncer de cabeça e pescoço. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa para 2025 era de mais de 15 mil novos casos no Brasil.
Apesar de mais frequente em homens acima dos 40 anos, a doença pode acometer pessoas de todos os gêneros e idades, especialmente quando há exposição prolongada a fatores de risco conhecidos — como o tabagismo, consumo de álcool e infecção pelo papilomavírus humano (HPV).
O que é o câncer de boca e garganta?
O câncer de boca e garganta é um tipo de câncer que se desenvolve nas células que revestem a cavidade oral e a orofaringe. Ele faz parte do grupo dos cânceres de cabeça e pescoço e pode acometer diferentes estruturas, como lábios, gengivas, língua, assoalho da boca, céu da boca, amígdalas, faringe e parte posterior da língua.
Na maioria dos casos, o tumor se origina nas células da mucosa, sendo classificado como carcinoma espinocelular, responsável por cerca de 90% dos diagnósticos. Ele tende a se desenvolver de forma silenciosa no início, o que contribui para o diagnóstico tardio em muitas pessoas.
Tipos de câncer de boca e garganta
Os cânceres de boca e garganta podem se manifestar de diferentes formas, sendo classificados de acordo com a origem das células, as características do tumor e a região afetada. Entre eles, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica aponta:
Carcinoma de células escamosas
O carcinoma de células escamosas é o tipo mais comum, responsável por cerca de 95% dos casos de câncer de cavidade oral e orofaringe. Ele tem origem nas células escamosas, células planas que revestem a boca e a garganta.
Nos estágios iniciais, recebe o nome de carcinoma in situ, quando as células cancerígenas estão restritas à camada superficial do epitélio. Quando ocorre invasão das camadas mais profundas da mucosa, passa a ser classificado como carcinoma de células escamosas invasivo, condição associada a maior agressividade e risco de disseminação.
Câncer de boca relacionado ao HPV
Também classificado como carcinoma de células escamosas, esse tipo de câncer está associado à infecção por determinados subtipos do papilomavírus humano (HPV), pertencentes ao grupo HPV positivo.
Ele ocorre com mais frequência em pessoas mais jovens, muitas vezes sem histórico de tabagismo ou consumo excessivo de álcool — e acomete principalmente a orofaringe, como amígdalas e base da língua.
Carcinoma verrucoso
O carcinoma verrucoso é uma forma rara de carcinoma de células escamosas, normalmente encontrada na gengiva ou na mucosa da bochecha. Ele apresenta crescimento lento e pode surgir inicialmente como uma lesão aparentemente benigna.
Apesar de representar menos de 5% dos casos, ele costuma ser menos agressivo e raramente produz metástases. Ainda assim, pode se expandir localmente, atingindo tecidos vizinhos, o que torna necessária a remoção cirúrgica.
Carcinoma das glândulas salivares menores
O carcinoma das glândulas salivares menores se desenvolve nas pequenas glândulas salivares distribuídas pela mucosa da boca e da região próxima à garganta. Existem diferentes subtipos, entre eles:
- Carcinoma adenoide cístico, de crescimento lento, com tendência a se disseminar ao longo dos nervos e apresentar recidivas tardias;
- Carcinoma mucoepidermoide, o mais comum entre os tumores das glândulas salivares, geralmente originado nas parótidas, podendo variar de baixo a alto grau;
- Adenocarcinoma, originado nas células glandulares. Quando acomete glândulas salivares menores, costuma ser de baixo grau e apresenta altas taxas de cura.
Linfomas
Os linfomas são cânceres que se originam nos glóbulos brancos e afetam o sistema linfático, componente essencial da defesa do organismo. Como estruturas como as amígdalas e a base da língua fazem parte do tecido linfóide, esse tipo de câncer também pode se iniciar nessas regiões da boca e da garganta.
Quais os fatores de risco do câncer de boca e garganta?
O tabagismo é o principal fator de risco para o desenvolvimento do câncer de boca e garganta. O uso de cigarros, charutos, cachimbos ou qualquer produto derivado do tabaco provoca uma agressão contínua à mucosa da boca e da garganta.
Quanto maior o tempo de exposição e a quantidade consumida ao longo dos anos, maior é o risco. Mesmo após a interrupção do hábito, o risco não desaparece imediatamente, diminuindo de forma gradual com o passar do tempo.
Entre outros fatores de risco, é possível destacar:
- Consumo frequente e excessivo de álcool: a ingestão regular de bebidas alcoólicas, principalmente em grande volume e por longos períodos, aumenta significativamente a chance de desenvolver a doença, sobretudo quando associada ao tabagismo;
- Infecção pelo HPV (papilomavírus humano): o HPV tem se tornado um fator de risco cada vez mais importante, especialmente para os cânceres de orofaringe. Está relacionado principalmente à prática de sexo oral sem proteção e ao maior número de parceiros sexuais;
- Obesidade: o excesso de peso está associado a alterações metabólicas e inflamatórias que podem aumentar o risco de diversos tipos de câncer, incluindo os de boca e garganta;
- Exposição solar excessiva sem proteção: a exposição constante e prolongada ao sol, sem o uso de protetor solar labial, é o principal fator de risco para o câncer de lábio, especialmente o lábio inferior.
De acordo com o oncologista Thiago Chadid, o câncer de boca e garganta sempre esteve, historicamente, ligado ao tabagismo e ao consumo de álcool, que continuam sendo as principais causas da doença em grande parte do mundo.
No entanto, em países como Estados Unidos e nações do norte da Europa, a infecção pelo papilomavírus humano (HPV) passou a ser o principal fator de risco, superando o cigarro e o álcool. A estimativa é que cerca de 70% da população norte-americana já tenha tido contato com o vírus.
No Brasil, o tabagismo e o consumo excessivo de álcool ainda são os fatores de risco mais comuns, devido à alta exposição da população. Ainda assim, o HPV tende a ganhar espaço nos próximos anos, especialmente se não houver políticas eficazes de vacinação durante a infância e a adolescência.
O uso de enxaguante bucal com álcool aumenta o risco?
Ainda não há evidências suficientes de que o uso de enxaguantes bucais à base de álcool seja um fator de risco independente para o câncer de boca ou orofaringe.
No entanto, Thiago Chadid explica que o principal problema, nesse contexto, está no contato direto do álcool com a mucosa oral, que atua como um agente irritante. O uso diário pode causar irritação contínua e favorecer o agravamento de lesões precursoras.
Por isso, o recomendado é evitar enxaguantes bucais com álcool, especialmente quando utilizados com frequência. Existem versões sem álcool, consideradas menos agressivas, mas esse tipo de produto não é indispensável para a higiene bucal diária quando a escovação adequada e o uso regular do fio dental são mantidos.
Quais os sintomas do câncer de boca e garganta?
Os sintomas do câncer de boca e garganta podem variar conforme o tipo, a localização e o estágio do tumor. Em muitos casos, eles surgem de forma discreta no início, o que pode atrasar o diagnóstico.
Entre os principais sintomas, estão:
- Dor na boca ou na garganta que não melhora com o tempo;
- Ferida ou lesão que sangra e não cicatriza;
- Nódulo ou inchaço na parte interna da bochecha;
- Manchas esbranquiçadas ou avermelhadas na língua, gengivas, amígdalas, céu da boca ou mucosa oral;
- Dificuldade para mastigar ou movimentar a mandíbula;
- Dificuldade para movimentar a língua, falar ou engolir;
- Dormência na língua ou em outras áreas da boca;
- Inchaço na mandíbula, que pode causar desconforto ao usar próteses dentárias;
- Enfraquecimento ou dor nos dentes sem causa aparente;
- Rouquidão persistente ou mudanças no tom de voz;
- Presença de caroço ou nódulo no pescoço.
Diante dos sinais de alerta, Thiago orienta procurar um otorrinolaringologista, um cirurgião de cabeça e pescoço ou um cirurgião bucomaxilofacial, profissionais capazes de avaliar as lesões e indicar uma biópsia quando necessário.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico do câncer de boca e garganta é feito principalmente por meio da avaliação clínica e da observação direta das lesões, já que não existe um exame de rastreamento de rotina para a população geral.
O primeiro passo é o exame físico detalhado da cavidade oral e do pescoço, em que o especialista observa a presença de feridas que não cicatrizam, manchas esbranquiçadas ou avermelhadas, úlceras, nódulos e assimetrias — além de palpar o pescoço em busca de linfonodos aumentados.
Quando há suspeita da doença, alguns exames podem ser solicitados para confirmar o diagnóstico e avaliar a extensão do tumor, como:
- Exame clínico da boca e do pescoço, com inspeção visual das mucosas e palpação dos linfonodos cervicais;
- Nasofibrolaringoscopia, exame feito com um aparelho fino e flexível introduzido pelo nariz, que permite visualizar a garganta, a laringe e a base da língua;
- Biópsia, procedimento fundamental para a confirmação do diagnóstico, no qual um fragmento da lesão é retirado para análise em laboratório;
- Tomografia computadorizada, utilizada para avaliar a extensão do tumor e o comprometimento de estruturas vizinhas;
- Ressonância magnética, indicada para uma análise mais detalhada dos tecidos moles;
- PET-CT, exame que ajuda a identificar metástases e a atividade do tumor no organismo.
Rastreamento do câncer de boca e garganta
Para pessoas consideradas de maior risco, como tabagistas, o oncologista Thiago Chadid orienta a realização de uma avaliação anual de cabeça e pescoço. A consulta inclui exame clínico detalhado da cavidade oral, da garganta e do pescoço e, quando necessário, a nasofibrolaringoscopia.
Os exames de imagem, como tomografia computadorizada, ressonância magnética ou PET-CT, não são indicados para rastreamento, pois não conseguem identificar lesões muito iniciais. O diagnóstico precoce depende, principalmente, da observação direta das mucosas e da avaliação clínica criteriosa.
Tratamento de câncer de boca e pescoço
O tratamento depende do tipo de lesão, do estágio da doença e da profundidade do tumor. Quando uma lesão pré-maligna é identificada, a cirurgia costuma ser a base do tratamento, especialmente nos casos diagnosticados em fases iniciais. Thiago explica que a conduta indicada é a ressecção completa da lesão, com margens adequadas, sempre que possível.
A boca e o pescoço são regiões delicadas, ricas em vasos sanguíneos e nervos. Mesmo cirurgias consideradas pequenas podem causar impacto funcional e estético.
Em algumas situações, não é possível fechar a área operada com pontos, sendo necessário recorrer a enxertos ou permitir a cicatrização por segunda intenção, um processo mais lento e, muitas vezes, doloroso.
Quando a lesão pré-maligna é removida de forma completa, o tratamento cirúrgico costuma ser suficiente, sem necessidade de quimioterapia ou radioterapia. Após a retirada, realiza-se o estadiamento, uma etapa para avaliar a profundidade do tumor, a qualidade das margens cirúrgicas e o risco de disseminação da doença.
Quando o tumor cresce mais profundamente, não é retirado por completo ou apresenta risco de espalhamento para outras partes do corpo, o médico pode indicar tratamentos complementares, como radioterapia — sozinha ou em conjunto com a quimioterapia, para reduzir a chance da doença voltar.
Em casos mais avançados, a imunoterapia pode ser usada no tratamento. Ela ajuda o próprio sistema de defesa do corpo a reconhecer e combater as células do câncer, aumentando as chances de controlar a doença.
Câncer de boca e garganta tem cura?
Quando a doença é identificada precocemente, as chances de cura costumam ser elevadas, e os tratamentos tendem a ser menos agressivos. No entanto, o câncer de boca e garganta pode se tornar bastante agressivo quando o diagnóstico ocorre em fases mais avançadas.
Tumores mais profundos ou extensos apresentam maior risco de metástases, principalmente para os linfonodos do pescoço, além de órgãos como pulmões, ossos, fígado e pele, o que torna o tratamento mais complexo e pode comprometer o prognóstico. Isso ressalta a importância do diagnóstico precoce.
É possível prevenir o câncer de boca e garganta?
A maior parte dos casos pode ser prevenida com mudanças de hábitos e cuidados simples no dia a dia, como:
- Evitar o tabagismo, em qualquer forma, incluindo cigarro, charuto, cachimbo e fumo sem combustão;
- Reduzir ou evitar o consumo de bebidas alcoólicas, especialmente quando associado ao tabaco;
- Manter boa higiene bucal e realizar acompanhamento odontológico regular;
- Usar preservativo durante as relações sexuais, reduzindo o risco de infecção pelo HPV;
- Vacinar-se contra o HPV, conforme orientação médica e faixa etária;
- Proteger os lábios da exposição solar excessiva, utilizando protetor labial com filtro solar;
- Manter uma alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras e legumes;
- Procurar avaliação médica ou odontológica diante de feridas na boca, rouquidão ou dor persistente que não cicatrizam em até duas semanas.
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Perguntas frequentes
Qual a população de risco para câncer de boca e garganta?
A população de maior risco inclui pessoas que fumam ou já fumaram, consomem álcool com frequência, especialmente de forma associada ao tabagismo, e pessoas infectadas pelo HPV, principalmente os subtipos oncogênicos. A exposição solar crônica sem proteção, má higiene bucal e histórico familiar também elevam o risco.
Como funciona o tratamento cirúrgico?
A cirurgia busca remover completamente o tumor com margens de segurança. Dependendo da extensão, pode envolver estruturas importantes da boca ou garganta. Em alguns casos, é necessária reconstrução para preservar funções como fala, mastigação e deglutição.
O câncer de boca e garganta pode causar caroço no pescoço?
Sim, o surgimento de caroços endurecidos no pescoço pode indicar comprometimento dos linfonodos, um dos primeiros sinais de disseminação da doença. Todo nódulo persistente deve ser investigado.
Quando a radioterapia é indicada?
A radioterapia pode ser utilizada como tratamento principal ou complementar à cirurgia. É indicada quando há risco de recidiva, margens comprometidas ou tumores mais avançados. O tratamento é realizado ao longo de várias semanas.
O tratamento afeta a fala e a alimentação?
Pode afetar, dependendo do local e da extensão do tumor. Por isso, o acompanhamento com fonoaudiólogo e nutricionista é fundamental para recuperação funcional e qualidade de vida.
Quando procurar um médico ou dentista?
Sempre que houver feridas na boca, dor, rouquidão, dificuldade para engolir ou caroços no pescoço que persistam por mais de duas semanas. O diagnóstico precoce é fundamental para o tratamento e o prognóstico.
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