Apesar de ser mais conhecida como um hormônio masculino, a testosterona também é produzida naturalmente pelas mulheres, principalmente nos ovários e nas glândulas suprarrenais, mas em quantidades bem menores.
No corpo feminino, o hormônio participa de várias funções, como a manutenção dos músculos e dos ossos, o metabolismo e a função sexual.
Nos últimos anos, a suplementação de testosterona ganhou espaço com promessas de aumentar a libido e a disposição, ajudar no emagrecimento e facilitar o ganho de massa muscular. Os “chips da beleza” e os implantes personalizados são alguns exemplos divulgados nas redes sociais e em clínicas de estética e bem-estar.
Com tantas promessas, pode parecer que usar testosterona é uma forma simples de melhorar a saúde e a qualidade de vida. Mas, na prática, a suplementação é indicada apenas em situações específicas, e o uso sem necessidade ou em doses elevadas pode causar efeitos colaterais importantes.
Para que serve a testosterona no corpo da mulher?
No organismo feminino, a testosterona participa de diferentes funções relacionadas ao equilíbrio hormonal, ao metabolismo, à manutenção da massa muscular e da força, à saúde dos ossos e à função sexual, além de contribuir para alguns processos ligados à disposição e ao bem-estar.
Por ser um hormônio androgênico, a testosterona precisa permanecer dentro dos níveis fisiológicos esperados para as mulheres, já que tanto a produção natural quanto o uso externo em quantidades elevadas podem causar mudanças no organismo.
Quando as concentrações ficam muito acima do adequado, podem surgir alterações na pele, nos cabelos, na distribuição dos pelos e até na voz, além de possíveis impactos no sistema cardiovascular e no metabolismo.
É preciso fazer exame para medir a testosterona feminina?
O exame de testosterona não é indicado como teste de rotina para mulheres, principalmente porque um valor isolado no exame não permite determinar, com segurança, se existe falta do hormônio no organismo feminino.
Segundo a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, a dosagem da testosterona deve ser solicitada de acordo com a avaliação médica e, principalmente, quando existem sinais ou sintomas que levantam a suspeita de alguma condição capaz de alterar os níveis hormonais.
A investigação não deve se basear apenas em sintomas inespecíficos, como cansaço, falta de disposição ou redução da libido, já que diferentes fatores físicos, emocionais e relacionados ao estilo de vida também podem provocar sinais semelhantes.
Por que os exames comuns de laboratório não são confiáveis para mulheres?
Uma das dificuldades para avaliar níveis muito baixos de testosterona está relacionada ao próprio método utilizado pelos laboratórios. Andreia explica que muitos exames convencionais foram desenvolvidos principalmente para analisar concentrações encontradas no organismo masculino, que costumam ser muito superiores às observadas nas mulheres.
Quando os mesmos métodos são utilizados para medir concentrações naturalmente muito baixas, a precisão pode ser menor, porque determinados exames não apresentam sensibilidade suficiente para diferenciar pequenas variações dentro da faixa feminina.
Na prática, a margem de erro pode deixar mais difícil a interpretação dos valores e impedir que um número isolado seja usado para diagnosticar uma suposta deficiência de testosterona em mulheres.
Quando a dosagem de testosterona é indicada?
A dosagem da testosterona pode ser útil principalmente quando existe a suspeita de níveis elevados do hormônio, especialmente diante de sinais como aumento de pelos em áreas incomuns, acne intensa, queda de cabelo, alterações menstruais ou outras manifestações relacionadas ao excesso de andrógenos.
Andreia esclarece que o exame pode fazer parte da investigação de doenças capazes de aumentar a produção de testosterona, incluindo alterações nas glândulas suprarrenais, localizadas acima dos rins, algumas doenças ovarianas e condições metabólicas.
A síndrome dos ovários policísticos, por exemplo, pode estar associada ao aumento dos níveis de andrógenos e, dependendo dos sintomas apresentados pela paciente, a dosagem hormonal pode ajudar o médico a complementar a investigação.
Quando o excesso é identificado, o tratamento depende da causa e pode envolver medidas destinadas a controlar a produção hormonal ou reduzir os efeitos provocados pelos níveis elevados.
Quando a suplementação de testosterona é realmente necessária?
A suplementação de testosterona em mulheres possui indicações bastante restritas e deve ser realizada somente após uma avaliação médica cuidadosa, que considere os sintomas, o histórico de saúde e as possíveis causas das alterações apresentadas.
Segundo a especialista, a única indicação com respaldo científico está relacionada ao Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH), em mulheres na pós-menopausa, sempre utilizando doses baixas e próximas das concentrações fisiológicas femininas.
Por outro lado, o uso da testosterona apenas com a promessa de melhorar a disposição, aumentar a energia, facilitar o ganho de massa muscular ou recuperar a libido, sem uma investigação adequada, não conta com respaldo científico e pode expor a mulher a riscos desnecessários.
Na prática, algumas mulheres podem perceber mudanças na energia, na disposição ou no desejo sexual durante o uso, mas uma melhora percebida não significa necessariamente que havia falta de testosterona ou que a suplementação seja indicada.
Diferença da reposição de estrogênio no climatério e a suplementação de testosterona
A principal diferença está no objetivo de cada tratamento e nas situações em que os hormônios são indicados. No climatério e na menopausa, a produção de estrogênio diminui naturalmente, o que pode favorecer sintomas como ondas de calor, alterações no sono, ressecamento vaginal e desconforto durante as relações sexuais.
Quando há indicação médica, a terapia hormonal com estrogênio pode ajudar a controlar os sintomas relacionados à queda hormonal e melhorar a qualidade de vida.
Já a suplementação de testosterona não é indicada de forma rotineira para tratar os sintomas do climatério, nem deve ser utilizada apenas para aumentar a disposição, melhorar o desempenho físico ou facilitar o ganho de massa muscular.
Nas mulheres, o uso possui indicações bastante específicas e deve ser feito em doses baixas, com acompanhamento médico.
Riscos do excesso de testosterona no organismo feminino
A presença de testosterona em níveis muito superiores aos fisiológicos pode provocar diferentes alterações no organismo feminino, como:
- Queda acentuada de cabelo, acompanhada pelo aumento da acne e da oleosidade da pele;
- Hirsutismo, caracterizado pelo crescimento de pelos grossos em áreas como o rosto, o tórax e outras regiões em que os pelos costumam ser menos frequentes nas mulheres;
- Aumento do risco de alterações cardiovasculares e mudanças nas taxas de colesterol;
- Clitoromegalia, caracterizada pelo aumento do tamanho do clitóris, além do engrossamento da voz.
Algumas alterações relacionadas à pele e aos cabelos podem diminuir depois da interrupção do uso do hormônio, mas mudanças como o engrossamento da voz e o aumento do clitóris podem ser irreversíveis.
Como identificar e evitar golpes com hormônios?
Os tratamentos hormonais devem ser indicados por um médico, de acordo com os sintomas, o histórico de saúde e, quando necessário, os exames.
Os “chips da beleza”, a “modulação hormonal” e os implantes personalizados podem parecer atraentes, mas isso não significa que tenham eficácia comprovada ou segurança estabelecida, principalmente quando envolvem promessas de mais disposição, emagrecimento, aumento da libido ou ganho de massa muscular.
Para reduzir o risco de aderir a tratamentos inadequados, alguns sinais merecem atenção:
- Promessas milagrosas: tratamentos que prometem ganho rápido de massa muscular, aumento imediato da energia, emagrecimento ou melhora da libido sem uma investigação completa das causas dos sintomas;
- Uso de anabolizantes associados: prescrições que combinam testosterona com substâncias como gestrinona ou oxandrolona podem aumentar os riscos à saúde e precisam de uma avaliação médica criteriosa;
- Doses não estudadas: concentrações muito superiores às fisiológicas podem provocar efeitos colaterais importantes e possuem riscos que ainda não são totalmente conhecidos no uso prolongado;
- Profissionais sem formação adequada: os tratamentos hormonais devem ser conduzidos por médicos capacitados para avaliar alterações hormonais, identificar contraindicações e acompanhar possíveis efeitos adversos.
Queda da libido nem sempre é problema hormonal
Segundo Andreia, a libido é influenciada por diferentes fatores e depende não apenas das condições físicas, mas também do bem-estar emocional, da saúde mental, da qualidade dos relacionamentos, da rotina e da forma como cada pessoa vivencia a própria sexualidade.
Quando a redução do desejo está ligada a fatores emocionais, psicológicos ou relacionados à rotina, o tratamento pode envolver acompanhamento psicológico, mudanças no estilo de vida, revisão de medicamentos e outras estratégias definidas de acordo com cada caso, sem que o uso de hormônios seja necessariamente indicado.
Quando procurar um médico especialista?
A consulta com um ginecologista ou endocrinologista pode ser indicada quando aparecem alterações menstruais, sinais de excesso de pelos, queda intensa de cabelo, acne importante, sintomas intensos durante o climatério ou mudanças persistentes na libido e na qualidade de vida.
Durante a avaliação, o profissional poderá investigar diferentes causas para os sintomas, analisar o histórico de saúde, revisar os medicamentos utilizados e solicitar exames quando houver indicação clínica.
Veja também: Reposição hormonal na menopausa: benefícios e riscos
Perguntas frequentes
1. Usar testosterona ajuda a emagrecer ou ganhar massa magra com segurança?
Não de forma segura. O uso focado em fins estéticos exige doses acima do normal, o que traz riscos graves à saúde.
2. O que são os chamados “chips da beleza”?
São implantes hormonais manipulados que prometem fins estéticos e de libido, mas que não possuem regulamentação ou segurança comprovada.
3. Quais são os riscos da testosterona para o coração?
Doses altas alteram o perfil de colesterol (reduzem o HDL e elevam o LDL) e aumentam o risco de hipertensão e eventos cardiovasculares.
4. A testosterona pode ser associada a anabolizantes como oxandrolona ou gestrinona?
Não é recomendado, pois a mistura potencializa a toxicidade no fígado e eleva o risco do desenvolvimento de tumores hepáticos e de mama.
5. A reposição de estrogênio na menopausa é a mesma coisa que tomar testosterona?
Não. A reposição clássica utiliza estrogênio (e progesterona, quando necessário) para tratar fogachos e ressecamento; a testosterona é apenas um adjuvante pontual.
6. Remédios de uso contínuo podem afetar a libido feminina?
Sim. Antidepressivos, anti-hipertensivos e anticoncepcionais orais estão entre os medicamentos que frequentemente reduzem o desejo sexual.
7. Qual profissional deve avaliar a necessidade desse hormônio?
O acompanhamento deve ser feito estritamente por um ginecologista ou endocrinologista atualizado pelas diretrizes das sociedades médicas oficiais.
Confira: Perimenopausa: o que é, quais são os sintomas e em que idade a fase começa

