Você já ouviu falar no chip da beleza? Popular nas redes sociais, ele consiste em um implante hormonal que costuma ser utilizado de forma off-label para fins estéticos — ou seja, fora das indicações descritas na bula e sem respaldo científico.
Entre as principais promessas associadas ao uso estão a perda de peso, a redução de gordura corporal, o ganho de massa muscular, o aumento da disposição, a melhora da libido e até mesmo o controle do apetite.
Mas você sabe como ele funciona, na prática? Conversamos com a cardiologista Juliana Soares para entender quando ele é indicado e os riscos cardiovasculares do uso para fins estéticos. Confira!
Afinal, o que é chip da beleza?
O chip da beleza é um implante hormonal, um pequeno dispositivo colocado sob a pele que libera hormônios de forma contínua no organismo por semanas ou meses.
Eles podem conter hormônios bioidênticos ou sintéticos, como o estradiol, a testosterona ou o gestrinona, que é o mais comum. O hormônio, da classe dos progestágenos, apresenta efeitos semelhantes aos hormônios masculinos.
De acordo com Juliana, o uso com finalidade estética, como emagrecimento, ganho de massa muscular ou aumento da disposição, é considerado off-label, sem respaldo científico, e pode trazer riscos importantes à saúde, especialmente ao sistema cardiovascular.
Como ele funciona?
O chip da beleza funciona por meio da liberação contínua de hormônios diretamente na corrente sanguínea. Após ser implantado sob a pele, o dispositivo passa a liberar pequenas doses hormonais todos os dias, por um período prolongado.
Diferentemente de comprimidos ou injeções, não é possível interromper facilmente o efeito do implante após a colocação. Uma vez inserido, o hormônio continua agindo no organismo, o que aumenta o risco de efeitos colaterais quando não há indicação médica adequada.
Quando o implante hormonal é indicado?
O implante hormonal é indicado apenas em situações médicas bem específicas, sempre com avaliação clínica e critérios claros. A indicação depende do tipo de hormônio utilizado e do histórico de saúde de cada paciente.
Entre as principais indicações reconhecidas, Juliana aponta:
- Endometriose, pois pode bloquear o ciclo menstrual e reduzir dores pélvicas;
- Miomatose uterina, ajudando a diminuir sangramentos e, em alguns casos, o volume dos miomas.
Em alguns casos, os implantes hormonais também podem ser utilizados para aliviar sintomas da menopausa, como fogachos (ondas de calor), queda da libido e perda de massa óssea, sempre com doses controladas e acompanhamento médico.
Já o uso com objetivo apenas estético, como emagrecimento, ganho de massa muscular ou melhora da disposição, não tem indicação médica reconhecida.
Por que o termo chip da beleza é enganoso?
Do ponto de vista médico, o termo acaba sendo enganoso, porque passa a ideia de algo voltado apenas para fins estéticos, como emagrecimento, e diminui o fato de se tratar de uma terapia hormonal potente.
Ao ser apresentado como algo simples ou associado à saúde e à beleza, Juliana aponta que ele transmite a ideia de um caminho rápido e quase milagroso para atingir o corpo ideal. No entanto, não deixa claros os riscos reais nem os possíveis efeitos colaterais, que podem ser graves.
Por isso, muitos profissionais de saúde preferem usar o termo implante hormonal, que deixa mais evidente a complexidade do tratamento e a necessidade de acompanhamento médico.
Riscos do uso do chip da beleza sem indicação
O uso de hormônios como a gestrinona e a testosterona interferem diretamente no metabolismo e na circulação, podendo provocar alterações como:
- Redução do HDL, conhecido como colesterol bom;
- Aumento do LDL, o colesterol ruim;
- Retenção de sódio e líquidos, com elevação da pressão arterial;
- Aumento da viscosidade do sangue, tornando-o mais espesso;
- Maior agregação das plaquetas, favorecendo a formação de coágulos;
- Aumento do risco de trombose;
- Maior risco de infarto e AVC, especialmente com uso prolongado ou em doses elevadas.
Sem orientação e acompanhamento médico, as alterações podem evoluir de forma silenciosa e aumentar o risco de complicações cardiovasculares graves.
Pessoas com histórico cardiovascular podem utilizar implantes hormonais?
Pessoas com hipertensão, colesterol elevado, histórico de infarto ou AVC, fumantes ou com outros fatores de risco cardiovascular não devem utilizar implantes hormonais com finalidade estética.
Nesses casos, Juliana explica que o risco de complicações cardiovasculares supera qualquer possível benefício estético. Para esse grupo, o uso desse tipo de implante é considerado contraindicado.
Uso de implantes hormonais precisa de acompanhamento médico
Os hormônios controlam várias funções do corpo, como metabolismo, coração, ciclo menstrual e humor. Quando eles são usados sem indicação ou sem acompanhamento médico, podem causar problemas sérios e até permanentes.
O uso inadequado pode afetar o fígado, o coração e provocar alterações no metabolismo, no humor e na saúde ginecológica.
Em mulheres, também pode causar virilização, com aumento de pelos, mudança da voz e alterações corporais que nem sempre têm reversão.
Assim, qualquer uso de hormônios precisa ser avaliado por um médico. Quando há indicação, o tratamento deve ser acompanhado de perto, com exames e ajustes ao longo do tempo.
Existem alternativas mais seguras para tratar sintomas hormonais?
O tratamento de sintomas hormonais, especialmente relacionados à menopausa, deve começar por medidas não medicamentosas, como:
- Alimentação equilibrada;
- Prática regular de exercícios físicos, combinando atividades aeróbicas e musculação;
- Exercícios de resistência, que têm impacto positivo no metabolismo, na massa óssea e na saúde cardiovascular.
Em situações específicas, Juliana explica que métodos hormonais mais tradicionais, como o DIU hormonal ou a terapia de reposição hormonal convencional, podem ser indicados.
Eles utilizam doses controladas, têm indicação médica bem definida e contam com acompanhamento de profissionais de saúde, o que torna o tratamento mais seguro.
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Perguntas frequentes
1. O uso do chip pode aumentar o colesterol?
Sim, o uso de hormônios androgênicos como a gestrinona tende a reduzir drasticamente o HDL (colesterol bom), que protege as artérias, e aumentar o LDL (colesterol ruim), acelerando a formação de placas de gordura.
2. Como o implante afeta os batimentos cardíacos?
O excesso de hormônios androgênicos pode causar palpitações e arritmias. Em alguns casos, o coração torna-se mais sensível à adrenalina, gerando taquicardias desconfortáveis e perigosas.
3. O chip é aprovado pelos órgãos de saúde para fins estéticos?
Não, a Anvisa e o Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbem a prescrição de implantes hormonais para fins exclusivamente estéticos ou de performance, devido à falta de evidências de segurança e aos riscos envolvidos.
4. É seguro retirar o chip a qualquer momento se eu sentir dor no peito?
Se houver sintomas agudos, a prioridade é o atendimento médico de emergência. A retirada do chip deve ser feita pelo médico responsável, mas os efeitos circulantes dos hormônios ainda podem durar semanas após a remoção.
5. Qual a diferença entre “chips” de silicone e pellets absorvíveis?
Os de silicone não são absorvidos; eles liberam o hormônio e precisam ser retirados cirurgicamente após o prazo (geralmente 6 meses a 1 ano).
Já os pellets são feitos de material que o corpo dissolve lentamente, não sendo necessária a retirada, mas dificultando a interrupção do tratamento caso haja um efeito colateral cardíaco.
6. É possível remover o implante se eu passar mal do coração logo após a colocação?
Se for o de silicone, sim. Se for o pellet absorvível, a remoção é extremamente difícil, pois ele se fragmenta e se mistura ao tecido. Nesses casos, o médico precisa tratar os sintomas cardíacos enquanto espera o corpo metabolizar o hormônio restante.
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