A experiência do tratamento oncológico costuma provocar mudanças físicas e emocionais que afetam o cotidiano, a rotina de trabalho, a relação com o corpo e até mesmo a forma como a pessoa lida com emoções internas e expectativas.
Os efeitos colaterais, tanto da quimioterapia quanto da radioterapia, podem surgir de formas diferentes para cada paciente, porque cada tratamento age no organismo de um jeito próprio. Ainda assim, existem alguns cuidados que podem ajudar a reduzir o desconforto, acolher as necessidades do corpo e tornar o processo mais leve — oferecendo mais qualidade de vida para uma fase tão delicada.
Conversamos com o oncologista Thiago Chadid para entender quais os principais efeitos colaterais que podem surgir nas principais terapias oncológicas e como é possível amenizá-las.
Quais são os efeitos colaterais mais comuns no tratamento contra o câncer?
Os efeitos colaterais podem variar de acordo com o método utilizado, já que cada modalidade de tratamento oncológico interfere no organismo de um jeito particular.
Quimioterapia
A quimioterapia utiliza medicamentos capazes de destruir células tumorais ou impedir que continuem se multiplicando. Eles circulam pelo sangue e alcançam diferentes partes do corpo, o que permite atuar tanto no local do tumor quanto em áreas onde possam existir células malignas microscópicas.
Como a quimioterapia atua em células que se multiplicam rapidamente, ela pode atingir também estruturas saudáveis de renovação acelerada, como folículos capilares, intestino e medula óssea, o que explica diversos efeitos colaterais, como aponta Thiago Chadid:
- Náuseas e vômitos;
- Queda de cabelo;
- Sensação de fraqueza;
- Perda de massa muscular;
- Diarreia ou prisão de ventre.
Segundo o especialista, a sarcopenia (perda de massa muscular) é um dos grandes problemas associados à quimioterapia convencional, contribuindo para indisposição, fraqueza, cansaço e até comprometimento da imunidade e da sobrevida.
Radioterapia
A radioterapia aplica radiação em doses controladas para eliminar células tumorais ou bloquear sua capacidade de continuar se multiplicando. A radiação é direcionada de forma precisa para a área afetada, preservando ao máximo os tecidos saudáveis ao redor.
Basicamente, as células cancerígenas têm maior dificuldade de reparar danos no DNA. Quando recebem a radiação, elas acumulam lesões que levam à morte celular. Já as células normais conseguem se recuperar mais facilmente, o que torna o tratamento possível.
Os efeitos colaterais da radioterapia variam conforme a região tratada, a dose utilizada e as características individuais de cada paciente. Mas, segundo o Ministério da Saúde, o paciente pode apresentar:
- Descamação, escurecimento e vermelhidão da pele na área tratada, principalmente em dobras como pescoço e virilha;
- Queda de pelos na região irradiada;
- Náuseas;
- Diarreia ou prisão de ventre;
- Mucosite (inflamação de mucosas);
- Dificuldade para engolir;
- Alterações de fertilidade, conforme a região tratada.
Imunoterapia
A imunoterapia é um tipo de tratamento que estimula o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais. Em vez de atacar diretamente o câncer, como ocorre na quimioterapia, a imunoterapia fortalece ou direciona as defesas naturais do organismo para que identifiquem o tumor como uma ameaça e passem a combatê-lo de maneira mais eficaz.
Existem diferentes formas de imunoterapia, como anticorpos monoclonais, inibidores de checkpoint imunológico, vacinas terapêuticas e células modificadas em laboratório.
Por estimular respostas inflamatórias, a imunoterapia pode provocar efeitos colaterais específicos em órgãos como intestino, pele, pulmões, rins e tireoide. Por isso, de acordo com Chadid, é necessário monitorar o risco de insuficiência renal por inflamação dos rins, alterações intestinais inflamatórias, tireoidite (que pode evoluir para hipotireoidismo), inflamação pancreática que pode levar ao diabetes e perda de proteína na urina.
Não existe uma medida específica capaz de prevenir esses efeitos, além de orientações gerais como hidratação adequada e prática regular de atividade física.
Hormonioterapia
A hormonioterapia é utilizada para combater tumores que dependem de hormônios para crescer, como alguns cânceres de mama e próstata, que têm células que se alimentam de estímulos hormonais — como estrogênio, progesterona ou testosterona, por exemplo. O tratamento atua justamente bloqueando a produção desses hormônios ou impedindo que eles se liguem às células tumorais.
Como ele interfere nos níveis hormonais, os efeitos colaterais lembram os do climatério ou da menopausa, como ondas de calor, ressecamento, alterações de humor, cansaço e mudanças metabólicas.
Terapias-alvo
As terapias-alvo são medicamentos desenvolvidos para agir de forma precisa em alterações específicas presentes nas células tumorais. Em vez de atacar todas as células que se multiplicam rapidamente, as terapias-alvo miram estruturas, proteínas ou vias de crescimento que estão alteradas no câncer, poupando mais tecidos saudáveis.
Elas podem bloquear receptores usados pelo tumor para crescer, impedir a formação de vasos sanguíneos que alimentam a massa tumoral, interromper sinais internos da célula cancerígena ou marcar células doentes para que o sistema imune as elimine. Para que funcionem, é necessário identificar a alteração genética ou molecular do tumor por meio de exames específicos.
Os efeitos colaterais costumam ser mais brandos que os da quimioterapia, mas podem incluir fadiga, alterações de pele, diarreia, pressão alta e alterações no fígado, dependendo do alvo terapêutico. É uma das áreas que mais evoluiu na oncologia nos últimos anos.
Como lidar com os efeitos colaterais do tratamento de câncer?
Já ficou claro que os sintomas podem variar de acordo com o tipo de terapia, mas existem medidas gerais que melhoram o bem-estar e reduzem desconfortos. Thiago Chadid e o Ministério da Saúde apontam algumas das principais:
Atividade física leve a moderada
Quando é possível, a prática de atividades físicas leves a moderadas é recomendada para aliviar diversos efeitos colaterais do tratamento de câncer. O hábito de movimentar o corpo ajuda a reduzir fadiga, melhora a circulação, preserva a força muscular e contribui para regular o humor.
Além de melhorar o condicionamento geral, a atividade física libera endorfinas, substâncias que promovem sensação de bem-estar e ajudam a controlar ansiedade e estresse, comuns durante o tratamento. A prática também favorece o sono, reduz dores musculares e facilita a recuperação após sessões de quimioterapia ou radioterapia.
Quando existem limitações físicas ou a pessoa tem sintomas mais intensos, o treino deve ser adaptado por um profissional capacitado.
Alimentação saudável
Uma alimentação leve, rica em fibras e com boa ingestão de proteínas favorece a manutenção da energia, reduz o risco de sarcopenia e auxilia no funcionamento intestinal, diminuindo desconfortos como prisão de ventre ou diarreia.
O ideal é dar preferência a alimentos com boa densidade proteica, como carnes magras, ovos, leguminosas, oleaginosas, leite e derivados, que ajudam a preservar massa muscular — além de frutas, verduras, água e preparações pouco gordurosas. Uma rotina alimentar equilibrada também contribui para melhorar o apetite, estabilizar o humor e manter o corpo hidratado, fatores importantes durante o tratamento.
Para pacientes com náuseas frequentes ou perda de apetite, uma dica é fracionar refeições ao longo do dia, o que facilita a ingestão alimentar, evita longos períodos em jejum e reduz a irritação gástrica. Também pode ajudar manter líquidos entre as refeições, preferir chás suaves, optar por refeições mais secas quando há enjoo e evitar odores fortes.
Vale lembrar que ter a supervisão de um nutricionista é sempre recomendado, principalmente quando há perda de peso, dificuldade para mastigar ou alterações intensas no paladar.
Cuidados com o sono
A qualidade do sono influencia diretamente o bem-estar físico e emocional, e é indispensável que ele seja restaurador durante o tratamento de câncer. O recomendado é estabelecer uma rotina regular de horários, manter o quarto silencioso e escuro, evitar telas antes de dormir e adotar hábitos calmantes, como banho morno ou leitura, que favorecem um descanso mais profundo.
Quando o paciente apresenta um quadro de insônia persistente, o médico pode indicar remédios temporários para reorganizar o ciclo do sono. A melhora do repouso impacta positivamente o humor, a imunidade e a tolerância ao tratamento.
Técnicas de meditação
As técnicas de meditação e respiração guiada funcionam como práticas organizadas que ajudam a regular o corpo e as emoções, diminuindo o estresse e facilitando o controle dos sintomas.
Elas podem ser realizadas em sessões curtas em casa, de cinco a quinze minutos, antes de dormir ou durante momentos de estresse. Além de auxiliarem no equilíbrio mental, técnicas como mindfulness colaboram para melhorar o sono, reduzir a tensão muscular e favorecer a adaptação às etapas do tratamento oncológico.
Fitoterapia
A fitoterapia pode ser integrada ao tratamento como medida complementar, sempre com avaliação médica ou de profissional habilitado. O uso de plantas medicinais e extratos padronizados pode ajudar no controle da ansiedade, no estímulo ao apetite, na qualidade do sono e no equilíbrio digestivo.
O uso deve ser criterioso, já que podem acontecer interações com medicamentos oncológicos. Por isso, toda indicação precisa ser alinhada com a equipe responsável. Não se automedique!
Outras medidas para aliviar os efeitos colaterais
Além das indicações mais comuns, Thiago Chadid explica que, quanto aos tratamentos mais avançados, há diversas novidades que vêm sendo incorporadas para tornar os efeitos colaterais menos agressivos, reunindo tanto medicações que causam menos sintomas quanto protocolos que reduzem efeitos adversos.
Além dos antieméticos tradicionais, como ondansetrona, proclorperazina e Plasil, hoje existem remédios que antes eram muito caros (como aprepitanto e fosaprepitanto) e que agora estão mais acessíveis, ajudando no controle das náuseas persistentes. Também há derivados de cannabis, como o cannabidiol, que podem ajudar a aumentar o apetite, reduzir náuseas e melhorar a sensação de dor.
O oncologista também conta que existem medicações voltadas para reduzir efeitos colaterais da hormonioterapia. Na American Society of Clinical Oncology (ASCO), foram apresentados dois medicamentos utilizados nos Estados Unidos capazes de reduzir ondas de calor e mal-estar associados à menopausa induzida por tratamentos hormonais no câncer de mama.
Apesar de ainda terem custo elevado, a expectativa é que se tornem mais acessíveis com o tempo, aumentando as possibilidades de condução do tratamento.
Sinais que exigem atenção médica
De acordo com Thiago, existem alguns sinais mais graves que devem ser comunicados ao médico imediatamente, como:
- Febre ou sinais de infecção após a quimioterapia (mal-estar forte, cansaço extremo, secreção, diarreia com sangue);
- Suspeita de trombose, com sintomas como inchaço repentino em peito, rosto, braço ou perna, com vermelhidão, dor ou endurecimento;
- Sangramentos importantes, como urina com sangue, evacuação com sangue, sangramento nasal intenso, tosse ou vômito com sangue;
- Sintomas de anemia forte, como fraqueza intensa, palidez, tontura, queda de pressão ou desmaio;
- Diarreia intensa, mais de cinco episódios por dia, com muita perda de água, boca seca ou sangue em grande quantidade.
Qualquer alteração que fuja do padrão explicado pelo médico na consulta deve ser comunicada rapidamente, pois muitos desses quadros podem evoluir com rapidez, sobretudo em períodos de baixa imunidade.
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Perguntas frequentes
A fadiga é normal durante o tratamento de câncer?
Sim, a fadiga é um dos efeitos mais frequentes e pode ser física, mental ou emocional. Ela ocorre pela combinação de fatores como anemia, inflamação, alterações do sono, estresse psicológico e impacto direto dos tratamentos no metabolismo do corpo.
Mesmo sendo comum, é importante contar aos profissionais, que podem orientar ajustes na rotina, pausas programadas, exercício leve e suporte nutricional para amenizar o cansaço.
Por que o cabelo cai durante a quimioterapia?
A queda de cabelo acontece porque as drogas quimioterápicas afetam células de crescimento rápido, incluindo as que formam os fios. A perda costuma começar de duas a três semanas após o início do tratamento e pode incluir sobrancelhas e pelos corporais.
Apesar de causar impacto emocional significativo, a queda é temporária, e o cabelo costuma crescer novamente alguns meses após o fim das sessões. Em alguns casos, a crioterapia no couro cabeludo ajuda a reduzir o problema.
A radioterapia sempre causa queimadura ou vermelhidão na pele?
Nem sempre, mas é comum a pele pode ficar vermelha, sensível, ressecada ou escurecida na área irradiada, especialmente em regiões de dobra, como pescoço ou virilha. Os efeitos são limitados ao campo de radiação e costumam melhorar dentro de semanas após o término do tratamento.
Algumas medidas podem ajudar a aliviar o desconforto, como cremes hidratantes, higiene adequada e orientações específicas da equipe de enfermagem.
Os efeitos colaterais sempre aparecem logo no início do tratamento?
Depende, pois enquanto alguns efeitos surgem nas primeiras horas ou dias, como náuseas e cansaço, outros aparecem após semanas de tratamento, como alterações de pele na radioterapia ou queda de cabelo na quimioterapia.
Há ainda efeitos tardios, que podem surgir meses ou anos depois, dependendo do tipo de terapia.
É possível evitar a queda de cabelo durante o tratamento?
Em alguns casos, sim. O uso de crioterapia, que é o resfriamento do couro cabeludo durante a quimioterapia, pode reduzir a queda dos fios ao diminuir o fluxo de sangue na região. Entretanto, o método não funciona para todos os tipos de quimioterapia, de modo que o oncologista pode orientar sobre a aplicabilidade conforme o protocolo usado.
O tratamento de câncer causa perda de peso?
Sim, a perda de peso pode acontecer devido à redução do apetite, náuseas, alterações no paladar e aumento do gasto energético causado pela doença. A perda pode prejudicar a imunidade, a energia e os resultados do tratamento.
Por isso, é importante ter a orientação de nutricionistas especializados em oncologia, que ajudam a montar planos alimentares de reposição calórica e proteica para prevenir agravamento do quadro.
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