Um pouco de dor de cabeça no final da tarde, a necessidade de apertar os olhos para ler uma placa à distância, a dificuldade de enxergar com clareza o que está escrito na lousa. As situações podem até ser vistas como algo passageiro, mas tendem a indicar alterações na visão que merecem atenção.
Conversamos com o oftalmologista Marcus Vinicius Takatsu para entender os principais sinais de problemas de visão, em adultos e crianças, e quando procurar um profissional com urgência.
Quais sinais no dia a dia podem indicar problemas de visão?
Em muitos casos, os sinais de problemas de visão aparecem de forma sutil e acabam sendo confundidos com cansaço ou situações momentâneas, o que pode atrasar o reconhecimento do problema.
Por isso, Marcus aponta que é importante estar atento a alguns sinais que merecem investigação, como:
- Redução da acuidade visual: dificuldade para enxergar com nitidez objetos distantes, como na miopia, ou próximos, como ocorre na hipermetropia e na presbiopia;
- Astenopia: sensação de cansaço visual, que pode se manifestar como peso nas pálpebras, ardência nos olhos, lacrimejamento ou sonolência durante atividades que exigem esforço visual, como leitura ou uso prolongado de telas;
- Efeito estenopeico: hábito de apertar os olhos para tentar enxergar melhor. Ao reduzir a abertura palpebral, ocorre uma melhora temporária do foco visual, causada pela diminuição das aberrações ópticas;
- Alteração da sensibilidade ao contraste: dificuldade para enxergar em ambientes com pouca iluminação, como ao dirigir à noite ou sob chuva, situação frequentemente associada a alterações oculares iniciais, como a catarata.
Além da redução da nitidez visual, adultos também devem ficar atentos a:
- Afastamento de objetos para enxergar melhor: conhecido como “síndrome do braço curto”, é um sinal clássico da presbiopia, ou vista cansada, comum após os 40 anos;
- Halos ao redor das luzes: percepção de círculos luminosos ao redor de lâmpadas ou faróis, o que pode estar associado a alterações como catarata, edema de córnea ou, em alguns casos, glaucoma;
- Distorção de linhas retas (metamorfopsia): linhas que parecem tortas ao olhar para grades, portas ou molduras, um sinal de alerta importante para doenças da mácula, como a degeneração macular relacionada à idade.
Mesmo quando não há dor ou sintomas mais evidentes, muitos problemas de visão evoluem de forma gradual e silenciosa, o que torna importante marcar uma consulta com o oftalmologista.
Dor de cabeça frequente pode estar relacionada à visão?
Desde que apresente algumas características específicas, sim. Segundo Marcus, a dor de cabeça de origem oftalmológica costuma surgir ao redor dos olhos ou na região da testa, tem caráter de pressão e tende a aparecer ou se intensificar no final do dia.
Esse tipo de dor está diretamente relacionado ao esforço visual prolongado, como leitura, uso de telas ou atividades que exigem foco contínuo.
Por outro lado, o oftalmologista explica que as dores de cabeça que aparecem logo ao acordar ou têm caráter pulsátil, como ocorre na enxaqueca, geralmente não têm origem ocular.
Ainda assim, o esforço visual pode funcionar como um fator desencadeante ou agravante dessas crises, mesmo quando a causa principal não está diretamente ligada à visão.
Em crianças, quais sinais indicam a hora de checar a visão?
Segundo Takatsu, as crianças costumam se adaptar às dificuldades visuais e raramente relatam problemas espontaneamente. Por isso, a observação atenta do comportamento no dia a dia é fundamental para identificar possíveis alterações na visão e buscar avaliação oftalmológica no momento adequado.
Alguns sinais de problemas de visão que merecem atenção incluem:
- Aproximação excessiva de objetos: ficar muito perto da televisão, do celular ou do caderno;
- Esfregar os olhos com frequência: pode indicar esforço visual ou alergias oculares;
- Desinteresse por leitura ou queda no rendimento escolar: situação que pode ser confundida com falta de atenção, mas estar relacionada a alterações visuais não corrigidas, como a hipermetropia;
- Inclinação da cabeça ao olhar (torcicolo ocular): tentativa de compensar dificuldades de alinhamento ocular, como estrabismo ou nistagmo.
O excesso de telas pode mascarar problemas de visão?
O uso prolongado de telas pode levar à chamada Síndrome da Visão do Computador, caracterizada principalmente por ressecamento ocular e esforço excessivo dos músculos responsáveis pelo foco. Isso acontece porque, ao olhar para telas, a frequência do piscar diminui, favorecendo a evaporação da lágrima, além de provocar um espasmo do músculo ciliar, responsável pelo ajuste do foco.
“Isso pode mascarar ou exacerbar sintomas de olho seco, insuficiência de convergência ou hipermetropia latente. O paciente sente a visão borrada intermitente, que melhora ao descansar”, explica Marcus.
Por melhorarem temporariamente com pausas visuais, muitas pessoas acabam atribuindo o desconforto apenas ao cansaço, deixando de investigar possíveis alterações visuais associadas.
Por isso, quando a visão embaçada, o ardor ou o cansaço visual se tornam frequentes, é importante buscar avaliação oftalmológica para diferenciar a fadiga visual de outros problemas que podem estar por trás dos sintomas.
Como ocorre a perda de visão?
Qualquer perda de visão, com ou sem dor, deve ser considerada uma emergência médica e exige avaliação imediata. Ela pode acontecer de duas formas, dependendo da causa do problema visual:
- Perda gradual: é mais comum em erros de refração, catarata e no glaucoma primário de ângulo aberto, conhecido como o “ladrão silencioso da visão”, pois evolui sem sintomas evidentes nas fases iniciais;
- Perda abrupta ou súbita: costuma estar relacionada a condições mais graves, como alterações vasculares da retina, neurite óptica, descolamento de retina ou glaucoma agudo.
Quando procurar um oftalmologista com emergência?
A avaliação deve ser imediata, preferencialmente em pronto atendimento, nas seguintes situações:
- Perda súbita da visão, parcial ou total;
- Dor ocular intensa, especialmente quando associada a náuseas ou vômitos;
- Trauma ocular, seja químico, perfurante ou por impacto;
- Visão de flashes de luz acompanhados por aumento repentino de pontos pretos no campo visual ou sensação de uma “cortina” encobrindo a visão.
Os sinais podem indicar condições graves que exigem diagnóstico e tratamento rápidos para evitar danos permanentes à visão.
Perguntas frequentes
1. O uso excessivo de telas pode prejudicar a visão?
O uso prolongado de telas pode causar fadiga visual, ressecamento dos olhos e visão borrada temporária. Embora nem sempre cause danos permanentes, pode agravar sintomas de problemas visuais já existentes e gerar desconforto frequente.
2. Quais problemas de visão costumam surgir com a idade?
Com o envelhecimento, aumentam as chances de presbiopia, catarata, glaucoma e doenças da retina. As alterações costumam se desenvolver lentamente e, muitas vezes, sem sintomas iniciais claros.
3. Halos ao redor das luzes são normais?
Em alguns casos, podem ocorrer temporariamente, mas a presença frequente de halos ao redor das luzes pode indicar alterações oculares e merece avaliação oftalmológica.
4. Com que frequência é indicado fazer exame de vista?
A frequência varia conforme a idade e as condições de saúde, mas avaliações regulares ajudam a identificar problemas precocemente e preservar a saúde ocular.
5. Coçar os olhos faz mal?
Sim, coçar os olhos com frequência pode causar irritação, aumentar o risco de infecções e agravar quadros de alergia ocular. Além disso, o atrito constante pode lesionar a superfície dos olhos e, em casos mais raros, contribuir para alterações na córnea.
6. Ler no escuro faz mal para os olhos?
Ler com pouca iluminação não provoca danos estruturais aos olhos, mas aumenta o esforço visual, podendo causar cansaço, dor de cabeça e visão embaçada temporária.
7. Olho seco pode causar visão embaçada?
Sim, o ressecamento ocular interfere na qualidade da lágrima, essencial para uma visão nítida, podendo causar embaçamento intermitente, ardor e sensação de areia nos olhos.
8. Luz azul realmente prejudica os olhos?
A exposição excessiva à luz azul pode causar fadiga visual e interferir no sono, mas não há evidências suficientes de que cause danos permanentes à visão em níveis comuns de uso de telas.
