O parto prematuro, também conhecido como nascimento pré-termo, é aquele que acontece antes das 37 semanas completas de gestação. Apesar do período considerado ideal para o nascimento seja entre a 37ª e a 42ª semana, o bebê pode nascer antes de os órgãos e sistemas estarem totalmente amadurecidos.
Segundo a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, com os avanços da medicina e das UTIs neonatais, muitos bebês conseguem sobreviver mesmo quando nascem muito cedo. Em alguns casos, a viabilidade fetal (ou seja, a chance de o bebê sobreviver fora do útero) já pode existir a partir das 24 semanas, dependendo da estrutura do hospital.
Ainda assim, quanto mais precoce for o nascimento, maiores costumam ser os desafios para o desenvolvimento e a saúde do bebê. A seguir, vamos entender quais fatores podem aumentar o risco de parto prematuro e os principais sinais de alerta.
Como o parto prematuro é classificado?
O parto prematuro é classificado de acordo com a idade gestacional do bebê no momento do nascimento:
- Prematuro extremo: é o bebê que nasce antes das 28 semanas de gestação. Nesses casos, os órgãos ainda estão muito imaturos, principalmente os pulmões, o cérebro e o sistema digestivo. Por isso, normalmente há necessidade de internação prolongada em UTI neonatal e de suporte intensivo, como ajuda para respirar e alimentação pela veia;
- Prematuro precoce: acontece quando o nascimento ocorre entre 28 e 34 semanas de gestação. Embora o bebê já tenha um desenvolvimento mais avançado do que o prematuro extremo, ainda pode apresentar dificuldades respiratórias, maior risco de infecções e necessidade de acompanhamento intensivo nos primeiros dias ou semanas de vida;
- Prematuro tardio: é o nascimento entre 34 semanas e 36 semanas e 6 dias de gestação. Nessa fase, muitos órgãos já estão mais maduros, e o bebê costuma ter menos complicações. Mesmo assim, ainda podem existir dificuldades para mamar, controlar a temperatura corporal, manter o peso e respirar adequadamente, o que pode exigir observação e cuidados médicos após o parto.
Quanto mais cedo o bebê nasce, maiores são as chances de precisar de cuidados intensivos, já que órgãos como pulmões, cérebro e intestino ainda estão em desenvolvimento. Já os prematuros tardios costumam apresentar menos complicações e, muitas vezes, precisam de menos tempo de internação.
O que pode causar o parto prematuro?
O parto prematuro pode ser desencadeado por diferentes mecanismos. Em alguns casos, o corpo inicia o trabalho de parto sozinho (espontâneo), enquanto em outros, a equipe médica precisa intervir para garantir a segurança da mãe e do bebê.
1. Infecções e processos inflamatórios
As infecções são algumas das causas mais comuns do parto prematuro e, normalmente, ocorrem de maneira silenciosa. Qualquer infecção no corpo da gestante pode liberar substâncias inflamatórias na corrente sanguínea que estimulam as contrações uterinas, como:
- Infecção urinária: muitas gestantes apresentam a chamada bacteriúria assintomática, que é a presença de bactérias na urina sem sintomas típicos, como dor ou ardor ao urinar. Quando não tratada, a condição pode aumentar o risco de parto prematuro;
- Saúde bucal: a periodontite, que é uma infecção na gengiva, também está associada ao aumento do risco de nascimento prematuro;
- Outros quadros infecciosos: gripes intensas, pneumonias e infecções vaginais, como a vaginose bacteriana, também exigem atenção durante a gestação, pois podem favorecer processos inflamatórios relacionados ao parto prematuro.
Qualquer febre, mal-estar ou sinal de infecção durante a gestação deve ser avaliado rapidamente pelo médico, pois mesmo infecções aparentemente simples podem desencadear processos inflamatórios capazes de estimular as contrações uterinas e aumentar o risco de parto prematuro.
2. Distensão uterina excessiva
A distensão uterina excessiva é o alongamento ou expansão exagerada das paredes do útero, ultrapassando sua capacidade normal de acomodação durante a gestação, segundo Andreia.
O quadro é comum em gestações múltiplas, como gravidez de gêmeos, trigêmeos ou mais bebês, já que o útero precisa se distender muito mais cedo do que em uma gestação única. O polidrâmnio, condição caracterizada pelo excesso de líquido amniótico, também provoca uma distensão maior do útero e pode favorecer o trabalho de parto prematuro.
3. Insuficiência cervical
A insuficiência cervical, também chamada de incompetência cervical, é uma condição em que o colo do útero não consegue sustentar o peso da gestação adequadamente. Em algumas mulheres, o colo é mais curto ou possui menos colágeno, perdendo a capacidade de permanecer fechado à medida que o bebê ganha peso.
Diferente do trabalho de parto comum, na insuficiência cervical o colo do útero pode começar a encurtar e se abrir sem que a gestante sinta contrações fortes ou dor intensa. Muitas vezes, os sinais são discretos ou inexistentes, o que aumenta o risco de perda gestacional tardia ou parto prematuro.
Se identificado precocemente via ultrassom transvaginal, o médico pode recomendar a cerclagem (um ponto cirúrgico para manter o colo fechado) ou o uso de repouso e progesterona.
4. Indicações médicas de interrupção
Em alguns casos, Andreia explica que é preciso interromper a gestação antes do tempo por questões médicas, inclusive por cesárea, para proteger a saúde da mãe ou do bebê. Nessas situações, o parto prematuro acontece por indicação médica, quando continuar a gravidez representa mais riscos do que antecipar o nascimento.
Algumas das principais situações incluem:
- Pré-eclâmpsia e hipertensão: quando a pressão arterial elevada coloca a vida da mãe ou do bebê em risco, podendo causar complicações graves, como convulsões, alterações nos órgãos maternos e sofrimento fetal;
- Sofrimento fetal: acontece quando exames de vitalidade param que o bebê não está recebendo oxigênio ou nutrientes suficientes dentro do útero, situação que pode ocorrer, por exemplo, em casos de restrição de crescimento fetal;
- Descolamento de placenta: é uma emergência obstétrica em que a placenta se desprende parcialmente ou totalmente do útero antes do nascimento do bebê, aumentando o risco de hemorragias graves e comprometimento da oxigenação fetal.
Quando a decisão do parto prematuro é tomada?
A decisão de realizar um parto prematuro é tomada quando os riscos de manter a gestação se tornam maiores do que os riscos da prematuridade para o bebê.
Andreia explica que são feitos exames de vitalidade fetal e avaliações clínicas para identificar o momento em que permanecer dentro do útero passa a representar mais riscos para o bebê do que nascer prematuramente.
Os principais exames incluem:
- Ultrassom obstétrico, que avalia o crescimento do bebê, os movimentos fetais e a quantidade de líquido amniótico;
- Doppler fetal, que analisa o fluxo sanguíneo entre a placenta e o bebê, ajudando a identificar sinais de sofrimento fetal;
- Cardiotocografia, capaz de monitorar os batimentos cardíacos do bebê e possíveis contrações uterinas;
- Avaliação do líquido amniótico, que verifica se a quantidade de líquido está adequada para a idade gestacional;
- Exames laboratoriais maternos, que ajudam a identificar alterações como infecções, pré-eclâmpsia e outros problemas que podem colocar a gestação em risco.
Os exames ajudam a equipe médica a entender se o bebê está recebendo oxigênio e nutrientes adequadamente, se continua crescendo de forma saudável e se a mãe apresenta sinais de complicações que possam colocar a gestação em risco.
A decisão é extremamente delicada e precisa ser tomada com muita responsabilidade, porque a prematuridade também traz riscos importantes para o recém-nascido.
Sinais de alerta: quando suspeitar de trabalho de parto prematuro?
Segundo Andreia, alguns sinais podem indicar risco de trabalho de parto prematuro e nunca devem ser ignorados durante a gestação, como:
- Cólicas;
- Contrações dolorosas e frequentes;
- Dor lombar persistente;
- Perda de líquido pela vagina;
- Sangramento vaginal;
- Sensação de pressão na pelve;
- Sintomas infecciosos, como febre alta, calafrios, fadiga intensa e dores musculares.
Em muitos casos, o trabalho de parto prematuro pode começar de forma discreta, com sintomas parecidos com desconfortos comuns da gravidez. Assim, qualquer alteração diferente do habitual deve ser avaliada rapidamente.
Riscos e complicações para o bebê prematuro
Os riscos para o bebê prematuro variam de acordo com a idade gestacional. De acordo com Andreia, quanto mais cedo acontece o nascimento, maiores são as chances de complicações, já que muitos órgãos ainda não estão completamente desenvolvidos.
- Síndrome do desconforto respiratório, em que os pulmões ainda são imaturos, dificultando a respiração do bebê;
- Hemorragia intracraniana, pois sangramentos no cérebro podem acontecer principalmente nos prematuros extremos;
- Enterocolite necrosante, uma condição grave causada pela imaturidade intestinal, que pode levar à inflamação e necrose de partes do intestino;
- Maior risco de infecções, pois como o sistema imunológico ainda é imaturo, o bebê fica mais vulnerável;
- Retinopatia da prematuridade, que é uma alteração nos vasos sanguíneos dos olhos que pode comprometer a visão;
- Alterações neurológicas do desenvolvimento, como dificuldades motoras, cognitivas e até paralisia cerebral.
Além disso, muitos prematuros precisam de internação em UTI neonatal, auxílio para respirar e suporte alimentar até que consigam completar parte do desenvolvimento fora do útero.
Como prevenir o parto prematuro?
Nem todos os casos de parto prematuro podem ser evitados, mas alguns cuidados ajudam a reduzir os riscos durante a gravidez, como:
- Controlar doenças crônicas, como hipertensão e diabetes;
- Tratar infecções rapidamente, especialmente infecção urinária;
- Manter hábitos saudáveis, com alimentação equilibrada, prática de exercícios orientados e evitar cigarro e álcool;
- Realizar todas as consultas e exames do pré-natal;
- Investigar sintomas como cólicas, sangramento, perda de líquido ou dor lombar;
- Fazer avaliação odontológica, já que infecções na gengiva também podem aumentar o risco de prematuridade;
- Identificar precocemente casos de insuficiência cervical por meio do ultrassom do colo do útero.
Nos casos de insuficiência cervical, pode ser indicada a cerclagem, procedimento em que o médico faz um ponto no colo do útero para ajudá-lo a permanecer fechado durante a gestação.
Perguntas frequentes
1. A partir de quantas semanas o bebê tem chance de sobreviver?
Normalmente, a viabilidade fetal é considerada a partir das 24 semanas, mas isso depende muito da tecnologia e dos recursos da UTI neonatal do hospital.
2. Posso ter infecção urinária sem sentir dor?
Sim, é a chamada bacteriúria assintomática. Por isso, exames de urina são rotina no pré-natal mesmo sem sintomas.
3. Como diferenciar contração de treinamento de parto prematuro?
As de treinamento são irregulares e sem dor. As de parto prematuro têm ritmo (ex: a cada 10 min), são dolorosas e não passam com repouso.
4. Uma gripe forte pode causar parto prematuro?
Qualquer processo inflamatório ou infeccioso importante, inclusive gripe, pneumonia ou infecção na gengiva, pode aumentar o risco.
5. É verdade que o bebê de 7 meses é mais forte que o de 8?
Não, isso é um mito. Cada dia e semana a mais dentro do útero é melhor para o desenvolvimento dos órgãos do bebê.
6. O que é a alimentação parenteral para o prematuro?
É a nutrição feita diretamente pela veia. Como o sistema digestivo do bebê muito prematuro ainda não está pronto para processar o leite, ele recebe os nutrientes necessários de forma endovenosa até que possa começar a mamar.
7. Por que alguns partos prematuros são feitos por cesárea?
A cesárea é indicada quando a interrupção é decidida pelo médico para salvar a vida da mãe ou do bebê (como em casos de pré-eclâmpsia grave) ou quando o bebê prematuro não suportaria o esforço de um parto normal.
Veja também: Segundo trimestre de gravidez: quando começa, sintomas e exames
