As doenças cardiovasculares (DCVs) são significativamente mais comuns em idosos, sendo a principal causa de mortalidade, com mais de 80% dos óbitos por doenças cardíacas ocorrendo em pessoas com mais de 65 anos.
Com o avanço da idade, o corpo passa por mudanças naturais que aumentam o risco das doenças cardiovasculares, como o enrijecimento das artérias e o acúmulo de gordura nos vasos sanguíneos, o que pode dificultar a circulação do sangue, aumentar a pressão arterial e sobrecarregar o coração ao longo do tempo.
Para idosos que convivem com doenças cardíacas, além do acompanhamento médico, um dos principais cuidados é manter a carteirinha vacinal atualizada. Infecções como a gripe ou a pneumonia, por exemplo, colocam um estresse imenso sobre o sistema cardiovascular, podendo desencadear descompensações, arritmias ou até infartos.
O que a vacinação tem a ver com a saúde cardíaca?
A vacinação é considerada uma das principais medidas de prevenção cardiovascular em pessoas com doenças do coração.
Quando o corpo é exposto a uma infecção, ocorre uma resposta inflamatória que pode sobrecarregar o sistema cardiovascular, aumentando a frequência cardíaca, a pressão arterial e a demanda de oxigênio pelo coração.
Em pessoas com doenças cardíacas, o processo pode favorecer descompensações, arritmias ou até situações mais graves, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Para você ter uma ideia, estudos apontam que nas semanas seguintes a uma infecção viral a chance de um ataque cardíaco pode ser até seis vezes maior, principalmente em adultos mais velhos.
As vacinas, nesse cenário, contribuem para prevenir as infecções ou reduzir a gravidade dos quadros, diminuindo o estresse sobre o coração e contribuindo para manter o coração protegido.
Quais as vacinas necessárias para idosos com doenças cardíacas?
As vacinas principais e prioritárias, de acordo com as diretrizes da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e Sociedade Europeia de Cardiologia, são:
1. Gripe (Influenza)
A vacinação contra a gripe é recomendada anualmente para idosos, pois o vírus Influenza sofre mutações frequentes. A dose deve ser aplicada todos os anos, de preferência antes do período de maior circulação viral. A imunização contribui para complicações respiratórias, hospitalizações e problemas cardiovasculares associados à infecção, como infarto do miocárdio.
2. Pneumocócicas (Pneumonia)
As vacinas pneumocócicas protegem contra infecções graves causadas pela bactéria Streptococcus pneumoniae, como pneumonia, meningite, otite e sepse.
Para idosos, é recomendado uma dose da vacina VPC20 (disponível nas redes públicas) ou um esquema sequencial com VPC15 (ou VPC13) seguida de VPP23 após seis a 12 meses, com possível reforço depois de cinco anos.
3. COVID-19
Pacientes cardíacos fazem parte do grupo de alto risco para complicações graves da COVID-19, infecção provocada pelo vírus SARS-CoV-2. Atualmente, a recomendação do Ministério da Saúde e da SBIm é que idosos com 60 anos ou mais recebam uma dose de reforço a cada seis meses.
O intervalo é menor porque, com o tempo, a imunidade dos idosos tende a cair mais rápido, e como o vírus continua circulando com novas variantes, o reforço semestral contribui para manter níveis adequados de proteção, reduzindo o risco de formas graves da doença.
4. Herpes zóster
O herpes zóster é causado pela reativação do vírus da varicela, o mesmo vírus que provoca a catapora. A infecção, que pode se manifestar na vida adulta, causa uma inflamação intensa que pode comprometer vasos sanguíneos e o coração.
A vacina é indicada a partir dos 50 anos, mesmo para quem já teve a doença. O esquema atual consiste em duas doses, com intervalo de dois meses entre elas, reduzindo o risco de novos episódios e de complicações dolorosas.
5. Tríplice bacteriana (dTpa)
A vacina dTpa protege contra três doenças bacterianas:
- Difteria, que pode causar infecção grave na garganta e dificuldade respiratória;
- Tétano, associado a ferimentos e capaz de provocar rigidez muscular intensa;
- Coqueluche, infecção respiratória altamente contagiosa que pode ser especialmente perigosa em idosos e pessoas com doenças crônicas.
Para idosos com esquema básico completo, recomenda-se uma dose de reforço a cada dez anos. Caso o histórico vacinal seja incompleto ou desconhecido, é importante atualizar a vacinação conforme orientação médica.
6. Vírus Sincicial Respiratório (VSR)
O VSR é um vírus respiratório que pode causar quadros semelhantes a um resfriado, mas que, em crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas, pode evoluir para bronquite, pneumonia e insuficiência respiratória. A infecção também pode descompensar doenças cardíacas e pulmonares já existentes.
A vacina é indicada principalmente a partir dos 60 anos, especialmente para quem apresenta comorbidades, e passa a ser recomendada de rotina após os 70 anos. Normalmente, ela é administrada em dose única, contribuindo para reduzir hospitalizações e agravamentos respiratórios.
7. Hepatite B
A hepatite B é uma infecção viral que atinge o fígado e pode evoluir de forma silenciosa, tornando-se crônica ao longo dos anos. A inflamação crônica causada pelo vírus pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, incluindo aterosclerose e doença coronariana.
Segundo a SBIm, a vacina é recomendada para idosos que ainda não foram imunizados. O esquema habitual é composto por três doses, aplicadas nos intervalos de 0, 1 e 6 meses, oferecendo proteção eficaz contra a infecção e suas complicações a longo prazo.
Onde se vacinar?
A vacinação pode ser realizada nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) do SUS, onde várias vacinas são oferecidas gratuitamente, especialmente para idosos e pessoas com doenças crônicas. Também é possível se vacinar em clínicas privadas de vacinação, que costumam disponibilizar um portfólio mais amplo de imunizantes.
Quem precisa ter atenção redobrada com a vacinação e o coração?
Todas as pessoas devem manter a carteira de vacinação atualizada, mas alguns grupos precisam ter mais atenção, como:
- Pessoas com insuficiência cardíaca, pois infecções podem descompensar o quadro e causar falta de ar importante;
- Pessoas com múltiplas comorbidades, especialmente quando a doença cardíaca está associada a diabetes, hipertensão ou doença renal crônica;
- Pacientes que já tiveram infarto ou passaram por cirurgia cardíaca, já que o coração pode ficar mais sensível a processos inflamatórios;
- Indivíduos com doença arterial coronariana, com artérias estreitadas ou presença de stents, pois inflamações aumentam o risco de trombose;
- Idosos, gestantes e profissionais de saúde, que costumam ser priorizados nas campanhas por apresentarem maior risco de complicações infecciosas.
Em todos os casos, vale conversar regularmente com o médico e manter o acompanhamento, o que ajuda a evitar complicações maiores e traz mais segurança para a saúde no dia a dia.
Confira: Como as vacinas ajudam a proteger o coração? Cardiologista explica
Perguntas frequentes
1. Posso tomar a vacina da gripe e da COVID-19 no mesmo dia?
Sim, a recomendação atual é que não há necessidade de intervalo. Elas podem ser aplicadas juntas, preferencialmente em braços diferentes para monitorar reações locais.
2. As vacinas podem causar miocardite (inflamação no coração)?
É um evento raríssimo que foi observado em algumas vacinas de tecnologia RNAm, principalmente em jovens. Para idosos cardiopatas, o risco de ter uma inflamação no coração causada pela doença (COVID-19) é infinitamente maior do que o risco da vacina.
3. Existe idade máxima para parar de se vacinar?
Não. Enquanto houver vida e risco de exposição, a vacinação é indicada. Idosos com mais de 80 ou 90 anos são justamente os que mais se beneficiam da proteção indireta ao coração.
4. Pacientes com marcapasso ou stents podem tomar vacinas?
Sim! O marcapasso é um dispositivo eletrônico e o stent é uma estrutura metálica, e nenhum dos dois sofre interferência das vacinas. A imunização é, na verdade, uma proteção para esses dispositivos, pois evita infecções graves que poderiam causar inflamação ao redor deles.
5. Vacinas podem interagir com remédios para pressão ou colesterol?
Não há evidências de que as vacinas cortem o efeito de estatinas, betabloqueadores ou remédios para pressão. Você deve manter sua medicação cardíaca normalmente no dia da vacinação.
A vacina de febre amarela é segura para idosos cardiopatas? A vacinação contra febre amarela para idosos, incluindo aqueles com doenças cardíacas, deve ser avaliada individualmente por um médico. Por ser uma vacina de vírus vivo atenuado, ela exige uma avaliação rigorosa do cardiologista e do infectologista.
6. Quais são as reações mais frequentes das vacinas em idosos cardiopatas?
As reações costumam ser leves e duram, em geral, de 24 a 48 horas. Elas indicam que o organismo está respondendo à vacina. As mais comuns incluem dor, vermelhidão ou leve inchaço no local da aplicação, além de cansaço, dor de cabeça, dores musculares e febre baixa.
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