O diabetes gestacional é o aumento do nível de açúcar (glicose) no sangue diagnosticado pela primeira vez durante a gravidez. O quadro acontece porque os hormônios produzidos durante a gestação podem diminuir a ação da insulina, hormônio responsável por ajudar a glicose a entrar nas células e ser utilizada como fonte de energia.
No Brasil e em outros países, o diabetes gestacional é comum e pode afetar cerca de 14% a 18% das gestações. A frequência pode variar de acordo com os critérios usados para o diagnóstico e com as características de cada população.
Como a alteração nem sempre provoca sintomas, a triagem para o diabetes gestacional faz parte do acompanhamento pré-natal e ajuda a identificar o problema mesmo quando a gestante não apresenta sintomas.
O que é a triagem para diabetes gestacional?
A triagem para o diabetes gestacional consiste em exames de sangue feitos durante o pré-natal para verificar se a quantidade de açúcar, chamada glicose, no sangue da gestante está acima do recomendado.
Durante a gravidez, o organismo passa por várias mudanças hormonais para ajudar no desenvolvimento do bebê. Segundo Andreia, a placenta produz hormônios que aumentam naturalmente a resistência do organismo materno à insulina, principalmente o hormônio lactogênio placentário, fazendo com que a glicose tenha mais dificuldade para entrar nas células e fique em maior quantidade no sangue.
Para compensar a mudança, o pâncreas aumenta a produção de insulina, mas, em algumas gestantes, a quantidade produzida não é suficiente para manter a glicose dentro dos níveis adequados. Quando isso acontece, o açúcar começa a se acumular no sangue e pode levar ao desenvolvimento do quadro.
Por que a triagem precisa ser feita?
A triagem para diabetes gestacional precisa ser feita porque, na maioria das vezes, a alteração da glicose não causa sintomas. A gestante pode estar se sentindo bem e, ainda assim, apresentar os níveis de açúcar no sangue acima do recomendado.
Quando a glicose da mãe fica muito alta, parte do açúcar atravessa a placenta e chega ao bebê. Para lidar com a quantidade maior, o organismo dele produz mais insulina, o que pode favorecer o ganho excessivo de peso.
Quando o bebê cresce mais do que o esperado, pode ocorrer a macrossomia fetal, uma condição que aumenta o risco de dificuldades durante o parto vaginal.
A falta de controle da glicose também pode aumentar o risco de algumas complicações, como:
- Pressão alta durante a gravidez: o diabetes gestacional aumenta o risco de pressão alta e pré-eclâmpsia, uma complicação que pode afetar órgãos, como os rins e o fígado, e precisa de acompanhamento durante o pré-natal;
- Parto prematuro: o bebê pode nascer antes das 37 semanas de forma espontânea ou o parto pode precisar ser antecipado pelo médico diante de complicações, como a pré-eclâmpsia ou alterações na saúde da mãe ou do bebê;
- Hipoglicemia no recém-nascido: quando há muita glicose no sangue da mãe, o bebê produz mais insulina para controlar o açúcar que recebe pela placenta. Após o nascimento, a oferta de glicose diminui rapidamente, mas a insulina pode continuar alta, fazendo o açúcar no sangue do bebê cair;
- Problemas para o bebê: o excesso de glicose pode fazer o bebê crescer e ganhar peso acima do esperado, aumentando o risco de dificuldades durante o parto. Também pode favorecer problemas respiratórios e outras complicações após o nascimento.
Quais exames são feitos na triagem?
A investigação do diabetes gestacional é feita principalmente por exames de sangue que já fazem parte da rotina do pré-natal, como:
- Glicemia de jejum: costuma ser um dos primeiros exames solicitados. A coleta é realizada após um período de jejum, geralmente de 8 a 12 horas, e mede a quantidade de glicose presente no sangue naquele momento;
- Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG) ou curva glicêmica: permite observar como o organismo reage após receber uma quantidade concentrada de glicose. Primeiro, é feita uma coleta de sangue em jejum. Depois, a gestante bebe uma solução contendo 75 gramas de glicose. Novas amostras de sangue são coletadas após 1 hora e 2 horas.
Durante o TOTG, a orientação é permanecer em repouso no laboratório e evitar fazer esforço físico, caminhar pelo local ou sair durante o período das coletas, já que a atividade física pode interferir na forma como o organismo utiliza a glicose e, consequentemente, no resultado do exame.
Como a bebida é bastante doce, algumas mulheres podem sentir enjoo ou náusea. Caso a gestante vomite durante o procedimento, Andreia explica que o resultado pode perder a validade e o exame poderá precisar ser realizado novamente em outra data.
Quando é feita a triagem?
A investigação do diabetes gestacional acontece em diferentes momentos da gravidez, já que as alterações da glicose podem aparecer conforme a gestação avança.
A primeira avaliação costuma acontecer ainda no primeiro trimestre, junto com os exames iniciais do pré-natal. Um dos exames solicitados é a glicemia de jejum, que ajuda a identificar mulheres que já começaram a gravidez com alterações da glicose ou que desenvolveram o problema logo no início da gestação.
Já entre a 24ª e a 28ª semana de gestação, costuma ser realizado o Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG).
Segundo Andreia, o período merece atenção porque a produção do hormônio lactogênio placentário está elevada e a resistência à insulina aumenta. Por isso, alterações que não apareceram nos primeiros meses podem se manifestar durante a segunda metade da gravidez.
Valores de referência do exame
Na gravidez, os limites de glicose usados para diagnosticar o diabetes gestacional são diferentes dos adotados fora da gestação. Conforme explica Andreia, não há uma faixa de pré-diabetes durante a gravidez. Quando os valores atingem os critérios definidos para o diabetes gestacional, a condição já pode ser diagnosticada.
Os valores de referência utilizados são:
Glicemia de jejum
- Abaixo de 92 mg/dL: resultado dentro do esperado.
- Igual ou superior a 92 mg/dL: valor compatível com diabetes gestacional.
Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG 75 g)
- Em jejum: até 91 mg/dL é considerado dentro do esperado; valores iguais ou superiores a 92 mg/dL são considerados alterados;
- Após 1 hora: até 179 mg/dL é considerado dentro do esperado; valores iguais ou superiores a 180 mg/dL são considerados alterados;
- Após 2 horas: até 152 mg/dL é considerado dentro do esperado; valores iguais ou superiores a 153 mg/dL são considerados alterados.
Andreia destaca que apenas um dos três valores alterados no TOTG já pode ser suficiente para o diagnóstico de diabetes gestacional.
O que fazer se o resultado der alterado?
Quando o diabetes gestacional é diagnosticado, a gestante recebe orientações para manter os níveis de glicose dentro das metas recomendadas até o nascimento do bebê, como:
- Alimentação: pode ser orientada pelo nutricionista ou pela equipe responsável pelo pré-natal, priorizando refeições equilibradas e fontes de carboidratos que favoreçam um aumento mais gradual da glicose no sangue;
- Escolha dos alimentos: grãos integrais, vegetais e legumes podem fazer parte da alimentação, de acordo com as necessidades de cada gestante;
- Atividade física: caminhadas e hidroginástica são algumas possibilidades, desde que não exista contraindicação e que a prática seja liberada pelo médico responsável pelo pré-natal;
- Monitoramento da glicemia capilar: pode ser necessário acompanhar a glicose em casa com o teste de ponta de dedo, normalmente algumas vezes ao dia, como em jejum e após as principais refeições, conforme orientação médica.
Segundo Andreia, quando as mudanças na alimentação e na rotina de exercícios não são suficientes e mais de 25% a 30% das medições semanais continuam acima das metas estabelecidas, pode ser necessário iniciar um tratamento com medicamentos, como a insulina ou determinados antidiabéticos considerados adequados durante a gravidez.
A escolha do tratamento deve ser individualizada e feita pelo médico responsável pelo acompanhamento da gestante.
Quando ir ao médico?
As consultas de pré-natal devem continuar regularmente durante toda a gravidez, mas algumas situações merecem uma avaliação médica mais rápida, principalmente quando a gestante já recebeu o diagnóstico de diabetes gestacional:
- Valores frequentemente alterados no monitoramento: se você estiver fazendo o teste de ponta de dedo em casa e perceber que a glicose ultrapassa com frequência os limites indicados pela equipe médica, como valores acima de 95 mg/dL em jejum ou 140 mg/dL uma hora após a refeição;
- Sintomas de hipoglicemia: se você estiver usando insulina ou outro medicamento e apresentar tontura, tremores, suor frio, palpitações ou visão embaçada;
- Sinais de glicose muito elevada: sede intensa, boca seca, cansaço fora do habitual ou aumento importante da vontade de urinar;
- Mudanças na movimentação do bebê: caso você perceba uma redução importante nos chutes ou nos movimentos do bebê, procure orientação médica.
A realização dos exames, o acompanhamento dos níveis de glicose quando houver indicação e as consultas regulares com a equipe de saúde ajudam a manter os cuidados com a saúde da mãe e do bebê durante toda a gestação.
Leia mais: Primeiro trimestre de gravidez: sintomas, exames e cuidados
Perguntas frequentes
1. Quem não tem sintomas precisa fazer a triagem?
Sim. O diabetes gestacional é uma condição silenciosa na imensa maioria das mulheres, sendo detectado quase exclusivamente por exames de rotina.
2. Água pode ser consumida durante o jejum ou ao longo do exame TOTG?
Pequenos goles de água pura são permitidos durante o jejum e no intervalo das coletas do teste, sem exageros.
3. Mulheres sem histórico de diabetes na família podem ter a doença?
Sim. Embora o histórico familiar seja um fator de risco, qualquer gestante pode desenvolver a condição devido às alterações hormonais da gravidez.
4. Quem já tinha diabetes antes de engravidar precisa fazer a triagem?
Não. Pacientes com diagnóstico prévio de diabetes tipo 1 ou tipo 2 não fazem a triagem, mas sim o acompanhamento especializado desde o início da gestação.
5. O diabetes gestacional exige obrigatoriamente a realização de parto cesárea?
Não. Se a glicemia estiver bem controlada e o bebê estiver com crescimento normal, o parto vaginal é perfeitamente seguro e indicado.
6. A atividade física é segura para todas as gestantes com diabetes gestacional?
Apenas para aquelas sem contraindicações obstétricas (como risco de parto prematuro ou sangramentos). A liberação do médico é indispensável.
7. O diabetes gestacional desaparece imediatamente após o parto?
Na maioria das vezes a glicemia normaliza após a saída da placenta, mas a confirmação só é feita por novo exame cerca de 6 semanas pós-parto.
8. Ter tido diabetes gestacional aumenta o risco de ter na próxima gravidez?
Sim, mulheres que desenvolveram a condição em uma gestação anterior têm uma probabilidade significativamente maior de apresentá-la novamente.
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