Uma das alergias alimentares mais comuns da infância, a APLV (Alergia à Proteína do Leite de Vaca) afeta cerca de 350 mil crianças no Brasil, principalmente bebês e crianças nos primeiros anos de vida.
Apesar de frequentemente confundida com a intolerância à lactose, ela não tem relação com a digestão do açúcar do leite, mas sim com uma reação do sistema imunológico às proteínas presentes no leite de vaca.
Quando a criança com APLV consome leite de vaca ou alimentos que contêm derivados do leite, o organismo identifica aquelas proteínas como uma ameaça e reage contra elas. Como resultado, podem surgir diferentes sintomas, que variam de leves a mais intensos e afetam a pele, o sistema digestivo e até o sistema respiratório.
O que é a APLV?
A APLC é uma reação específica do sistema imunológico às proteínas presentes no leite de vaca, como a caseína, a alfa-lactoalbumina e a beta-lactoglobulina. Na presença da alergia, o organismo da criança reconhece aquelas proteínas como se fossem uma ameaça e inicia uma resposta de defesa, o que provoca diferentes sintomas no corpo.
De acordo com a nutricionista Mariana del Bosco, a condição ocorre principalmente em bebês e crianças pequenas, porque está relacionada a uma imaturidade tanto do trato gastrointestinal quanto do sistema imunológico.
A reação pode atingir diversos órgãos, sendo mais comum no sistema digestivo, na pele e nas vias respiratórias, causando sintomas que podem variar de acordo com o tipo de reação imunológica envolvida.
Quais os sintomas do APLV?
A alergia alimentar pode ocorrer por três mecanismos imunológicos diferentes, de acordo com Mariana. Cada um apresenta características próprias, incluindo o tipo de reação do organismo e o momento em que os sintomas aparecem depois do consumo do alimento.
Alergia não mediada por IgE
Na alergia não mediada por IgE, não existe participação direta do anticorpo IgE. Por isso, muitas vezes a alergia não aparece nos exames de sangue, já que o organismo não produz níveis detectáveis do anticorpo.
Nesse tipo de reação, o processo acontece por meio da liberação de citocinas inflamatórias, substâncias que provocam inflamação no organismo. Os sintomas costumam surgir de forma tardia, podendo aparecer muitas horas ou até alguns dias depois do consumo de leite de vaca ou de alimentos que contêm proteína do leite.
Os sintomas costumam atingir principalmente o sistema digestivo, como:
- Cólicas frequentes;
- Diarreia;
- Presença de sangue ou muco nas fezes;
- Refluxo ou vômitos;
- Distensão abdominal;
- Irritabilidade após as mamadas.
Alergia mediada por IgE
Na alergia mediada por IgE, o anticorpo imunoglobulina E (IgE) participa diretamente da reação alérgica. Na maior parte dos casos, a presença do anticorpo pode ser identificada em exames laboratoriais.
Uma exceção pode ocorrer em bebês muito pequenos, pois a quantidade do anticorpo no sangue ainda pode ser baixa e difícil de detectar.
Nesse tipo de alergia, os sintomas aparecem de forma imediata, normalmente poucos minutos após o contato com o alimento, sendo eles:
- Urticária (placas vermelhas na pele);
- Coceira intensa;
- Inchaço nos lábios, pálpebras ou rosto;
- Vômitos logo após a ingestão;
- Chiado no peito ou dificuldade para respirar.
Nos casos mais graves, pode ocorrer anafilaxia, uma reação alérgica grave que envolve mais de um sistema do organismo e pode causar:
- Dificuldade respiratória;
- Queda da pressão arterial;
- Tontura ou mal-estar;
- Alterações cardiovasculares;
- Risco de choque
De acordo com Mariana, a APLV também pode se manifestar apenas com sintomas de pele, como a dermatite atópica. No entanto, ela também pode estar associada a outros alérgenos, inclusive não alimentares, como alérgenos de contato.
Os sintomas respiratórios isolados normalmente não são típicos da alergia à proteína do leite de vaca. O sistema respiratório pode reagir a proteínas alimentares, mas quando os sintomas respiratórios aparecem sozinhos, é mais provável que estejam relacionados a outro tipo de alérgeno, como os aeroalérgenos.
Alergia mista
Na alergia mista, ocorre a participação de dois mecanismos imunológicos ao mesmo tempo: o anticorpo IgE e as citocinas inflamatórias. Como consequência, os sintomas podem apresentar características tanto das reações imediatas quanto das tardias.
Nesse tipo de alergia, podem surgir manifestações como:
- Dermatite atópica;
- Coceira e lesões na pele;
- Inflamação crônica no trato digestivo;
- Refluxo persistente;
- Dificuldade para ganhar peso;
- Irritabilidade frequente em bebês.
Importante apontar que o diagnóstico e o acompanhamento devem sempre ser feitos por um pediatra ou alergista. O profissional avalia os sintomas, orienta quais alimentos precisam ser retirados da alimentação e acompanha a criança ao longo do crescimento para verificar como a alergia evolui.
Qual a diferença entre APLV e intolerância à lactose?
Apesar de muitas vezes serem confundidas, a APLV e a intolerância à lactose são condições diferentes. A APLV acontece quando o sistema imunológico reage contra as proteínas presentes no leite, como se fossem uma ameaça.
Já na intolerância à lactose, o organismo não produz quantidade suficiente de lactase, a enzima responsável por digerir o açúcar do leite. Quando a lactose não é digerida corretamente, ela fermenta no intestino e provoca sintomas como enjoo, dor abdominal, diarreia e gases.
Ou seja, na APLV existe uma reação imunológica, enquanto na intolerância à lactose existe uma dificuldade de digestão.
Em quem cada condição é mais comum?
A intolerância à lactose é mais comum em crianças mais velhas, adolescentes, adultos e idosos, segundo Mariana, porque muitas pessoas têm uma predisposição genética chamada não persistência da lactase, condição em que a produção da enzima diminui ao longo da vida.
A intolerância também pode surgir de forma secundária, quando aparece como consequência de outra condição de saúde, como doença inflamatória intestinal ou doença celíaca. Nesses casos, o intestino inflamado reduz temporariamente a produção da lactase. Quando a inflamação é tratada, a produção da enzima pode voltar ao normal.
A APLV, por outro lado, é mais comum em bebês e crianças pequenas, principalmente nos primeiros anos de vida, período em que o sistema imunológico e o sistema digestivo ainda estão em desenvolvimento.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da alergia à proteína do leite de vaca é feito por um pediatra ou alergista, a partir de uma avaliação clínica completa, em que o profissional analisa os sintomas do bebê, a história alimentar e também o histórico de alergias na família.
Quando existe suspeita de APLV, o profissional normalmente orienta uma dieta de exclusão, que consiste em retirar o leite de vaca e todos os derivados da alimentação por um período de duas a seis semanas:
- Se o bebê usa fórmula infantil, o leite é substituído por fórmulas especiais;
- Se o bebê é amamentado, a mãe precisa retirar leite e derivados da própria alimentação.
Durante o período, Mariana aponta que é observado se os sintomas desaparecem. Caso haja melhora, o próximo passo é realizar o teste de provocação oral, que consiste em reintroduzir o leite na alimentação.
O objetivo do teste é verificar se os sintomas voltam após o consumo do leite. Se os sintomas reaparecerem, o diagnóstico de APLV é confirmado e o leite precisa ser novamente retirado da dieta.
O diagnóstico pode ser mais desafiador em bebês muito pequenos, porque alguns sintomas da alergia podem se confundir com manifestações comuns da fase inicial da vida, como cólicas e fezes mais líquidas. A presença de sangue nas fezes, por exemplo, costuma ser um sinal mais sugestivo de alergia.
Como tratar a APLV?
O tratamento da APLV consiste principalmente na retirada completa das proteínas do leite de vaca da alimentação da criança. Isso significa evitar leite de vaca e todos os alimentos que contêm derivados do leite.
A forma de conduzir o tratamento depende da alimentação do bebê:
- Quando o bebê usa fórmula infantil, o pediatra pode indicar fórmulas especiais, desenvolvidas para crianças com alergia alimentar. Entre as opções estão as fórmulas extensamente hidrolisadas ou as fórmulas à base de aminoácidos, que reduzem o risco de reação alérgica;
- Quando o bebê é amamentado, a mãe precisa retirar da própria alimentação o leite de vaca e todos os derivados, como queijo, manteiga, iogurte e outros produtos que contenham proteína do leite. Isso acontece porque pequenas quantidades das proteínas podem passar para o leite materno.
Durante o tratamento, também é importante ler os rótulos dos alimentos, já que muitos produtos industrializados podem conter ingredientes derivados do leite.
Alimentos que podem conter derivados do leite
A proteína do leite de vaca pode estar presente em muitos alimentos além do leite líquido, como:
- Leite em pó;
- Leite condensado;
- Leite evaporado;
- Creme de leite;
- Manteiga;
- Margarina com leite;
- Iogurte;
- Queijos (de todos os tipos);
- Requeijão;
- Coalhada.
Também é comum encontrar derivados do leite em diversos alimentos industrializados, como:
- Bolos e misturas prontas para bolo;
- Pães e pães de forma;
- Biscoitos e cookies;
- Chocolates e bombons;
- Sorvetes;
- Sobremesas lácteas;
- Cereais matinais;
- Purê de batata instantâneo;
- Molhos prontos;
- Sopas industrializadas;
- Alimentos empanados;
- Alguns embutidos, como salsicha e presunto.
Como ler rótulos e evitar o “leite oculto”?
A legislação brasileira exige que todos os ingredientes estejam listados no rótulo do alimento. Na presença de APLV, é importante observar se aparecem termos relacionados às proteínas do leite, como:
- Caseína;
- Caseinato de sódio ou de cálcio;
- Soro de leite;
- Proteína do soro do leite (whey);
- Lactoalbumina;
- Lactoglobulina;
- Leite em pó;
- Leite condensado;
- Creme de leite.
No Brasil, os rótulos também precisam trazer um aviso sobre os principais alergênicos alimentares. Normalmente, a informação aparece logo abaixo da lista de ingredientes, como “contém leite” e “contém derivados de leite”.
O que a criança com APLV pode comer?
Mesmo com a restrição do leite de vaca e todos os alimentos que contêm proteína do leite, é possível manter uma alimentação variada e saudável, adequada para o crescimento da criança. Diversos alimentos naturais não contêm proteína do leite e podem fazer parte da rotina alimentar da criança, como:
- Frutas;
- Verduras e legumes;
- Arroz;
- Feijão e outras leguminosas, como lentilha e grão-de-bico;
- Carnes, frango e peixe;
- Ovos;
- Batata, mandioca e inhame;
- Macarrão sem leite na composição;
- Pães e bolos preparados sem leite ou derivados.
Também existem bebidas vegetais que podem ser utilizadas em preparações, como arroz, aveia, coco e amêndoas.
No caso de bebês que utilizam fórmula infantil, o pediatra pode indicar fórmulas especiais, como as extensamente hidrolisadas ou as fórmulas à base de aminoácidos, desenvolvidas para crianças com alergia alimentar.
Crianças com APLV podem continuar mamando?
Bebês com APLV podem e devem continuar mamando. O leite materno é o melhor alimento para a saúde e desenvolvimento do pequeno, e o diagnóstico não exige o desmame.
A mãe deve apenas realizar uma dieta de exclusão total de leite e derivados, evitando alimentos que contenham proteínas do leite, sob orientação de um pediatra ou nutricionista.
APLV tem cura?
Na maioria das situações, a APLV é uma condição passageira. Com o acompanhamento médico adequado, muitas crianças passam a tolerar novamente a proteína do leite de vaca com o passar do tempo.
Algumas começam a apresentar tolerância por volta do primeiro ano de vida. Outras desenvolvem essa tolerância apenas mais tarde, até cerca dos cinco anos. No entanto, vale reforçar que cada caso é único e o tempo e a evolução da APLV variam de criança para criança.
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Perguntas frequentes
1. Bebê que mama apenas no peito pode tener APLV?
Sim, as proteínas do leite de vaca consumidas pela mãe podem passar para o bebê através do leite materno. Nesses casos, a mãe precisa fazer uma dieta de exclusão rigorosa.
2. Leite sem lactose serve para quem tem APLV?
Não, o leite sem lactose apenas retira o açúcar (carboidrato), mas mantém as proteínas intactas. Para quem tem APLV, o leite zero lactose causa a mesma reação alérgica que o leite comum.
3. Quanto tempo demora para os sintomas sumirem após tirar o leite?
Normalmente, os sintomas começam a melhorar em 3 a 5 dias, mas a inflamação intestinal total pode levar até 2 a 4 semanas para desaparecer completamente após a exclusão total da proteína.
4. APLV pode causar baixo peso e dificuldade de crescimento?
Sim, a inflamação constante no intestino impede a absorção correta de nutrientes, o que pode levar ao déficit de ganho de peso e estatura se não for tratada.
5. Criança com APLV pode tomar vacina da gripe ou tríplice viral?
Sim, pois algumas vacinas utilizam proteína do ovo, não do leite. No entanto, é importante avisar ao posto de saúde, pois raríssimas vacinas podem conter traços de gelatina ou lactose, embora raramente causem reações em alérgicos à proteína.
6. O leite de soja é seguro para bebês com APLV?
Para bebês menores de 6 meses, a soja não é recomendada como substituto principal, pois é um forte alérgeno e pode causar reações cruzadas. Após os 6 meses, o uso deve ser avaliado pelo alergista
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