A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que cerca de 650 milhões de pessoas em todo o mundo convivem com a obesidade, uma doença crônica e inflamatória caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal — capaz de comprometer a saúde e a qualidade de vida.
Por ser uma condição multifatorial, a obesidade é influenciada por diversos fatores que interagem entre si. Para entender como ela se desenvolve, conversamos com a endocrinologista Denise Orlandi. Confira!
Como o IMC classifica a obesidade?
O Índice de Massa Corporal (IMC) classifica a obesidade em adultos a partir do cálculo do peso dividido pela altura ao quadrado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade é definida por um IMC igual ou maior que 30 kg/m², sendo subdividida em graus conforme a gravidade:
- Sobrepeso: entre 25 e 29,9 kg/m²;
- Obesidade Grau I: entre 30 e 34,9 kg/m²;
- Obesidade Grau II (moderada): entre 35 e 39,9 kg/m²;
- Obesidade Grau III (grave ou mórbida): igual ou maior que 40 kg/m².
Apesar de ser um método simples e bastante usado, o IMC não avalia a distribuição da gordura corporal nem diferencia a massa muscular de gordura. Uma avaliação clínica completa costuma incluir outras medidas, histórico de saúde e análise individual.
Quais os fatores de risco da obesidade?
Na maioria das vezes, diversos fatores de risco se combinam e influenciam o acúmulo de gordura corporal ao longo do tempo, sendo eles:
1. Genética
A herança familiar pode influenciar o metabolismo, o controle da fome, a sensação de saciedade e a forma como o corpo armazena a gordura. Quando existe um histórico familiar de obesidade, a probabilidade de desenvolver a condição pode ser maior.
Ainda assim, mesmo com a influência genética, os hábitos de vida continuam tendo impacto importante na saúde.
2. Ambiente
O ambiente em que a pessoa vive favorece o ganho de peso em muitas situações, principalmente devido ao estilo de vida moderno. Segundo Denise, é o fator mais impactante hoje para o desenvolvimento de obesidade.
- O consumo frequente de alimentos ultraprocessados ricos em gorduras, açúcares e calorias;
- A rotina sedentária com pouca atividade física;
- O tempo prolongado diante de telas, como celular, computador ou televisão;
- A falta de tempo ou estrutura para preparar refeições equilibradas.
As pequenas escolhas do dia a dia podem influenciar o peso ao longo do tempo, muitas vezes sem a pessoa perceber. A praticidade dos alimentos prontos, a correria da rotina e a diminuição da atividade física acabam favorecendo o consumo maior de calorias e um gasto menor de energia pelo corpo.
3. Fatores emocionais
As emoções, preocupações e situações difíceis no dia a dia podem mudar o apetite, a relação com a comida e até a forma como o corpo responde ao estresse. Muitas vezes, a alimentação deixa de atender apenas à fome física e passa a ter um papel emocional.
Entre os principais fatores envolvidos, é possível destacar:
- Ansiedade: que pode aumentar a vontade de comer mesmo sem fome, principalmente alimentos mais calóricos e açucarados;
- Depressão: que pode alterar o apetite, a disposição e a motivação para cuidar da alimentação e da saúde;
- Estresse crônico: que favorece o chamado comer emocional, situação em que a comida funciona como alívio ou conforto;
- Busca por conforto na comida: comum em momentos difíceis, tristeza, frustração ou cansaço emocional.
O acompanhamento com um profissional ajuda a entender melhor as emoções, a relação com a comida e a forma como cada pessoa enxerga o próprio corpo, tornando o processo de cuidado com a saúde mais consciente.
4. Sono de má qualidade
Além de manter o organismo em equilíbrio, o sono também pode impactar no controle do peso corporal. A privação ou a má qualidade do descanso interferem nos hormônios que regulam a fome, o metabolismo e os níveis de energia. O desequilíbrio ocorre, principalmente, devido aos seguintes fatores:
- Privação de horas de descanso, quando a pessoa dorme menos do que o necessário de forma frequente;
- Má qualidade do sono, com despertares noturnos ou sono leve e pouco reparador;
- Alteração da grelina, hormônio que estimula a fome e pode aumentar quando o sono é insuficiente;
- Redução da leptina, hormônio responsável pela sensação de saciedade.
No geral, priorizar o descanso é uma parte importante do cuidado com a saúde e do equilíbrio do peso corporal. Se você é uma pessoa com dificuldade frequente para dormir ou apresenta sinais de insônia, vale procurar um profissional da saúde para iniciar o tratamento adequado.
5. Fatores sociais e econômicos
Os fatores sociais e econômicos interferem diretamente nos hábitos alimentares, na rotina e na qualidade de vida. A forma como cada pessoa vive, trabalha, se desloca e se alimenta pode influenciar bastante o peso corporal e a saúde ao longo do tempo.
- Acesso limitado a alimentos frescos e nutritivos, situação que pode ocorrer quando frutas, verduras e alimentos naturais têm custo elevado ou pouca disponibilidade na região;
- Ausência de espaços seguros para caminhar ou praticar exercícios, o que dificulta a prática regular de atividade física no dia a dia;
- Rotina marcada por estresse constante ou excesso de trabalho, que reduz o tempo e a energia para cozinhar, se exercitar ou cuidar melhor da saúde;
- Dificuldades financeiras, que muitas vezes levam à escolha de alimentos mais baratos, normalmente ultraprocessados e menos nutritivos.
A realidade social pode facilitar ou dificultar a adoção de hábitos mais saudáveis, e nem sempre isso depende só da vontade da pessoa.
Por isso, cuidar da saúde também significa olhar com compreensão para a rotina, as dificuldades e o contexto em que cada pessoa vive.
Fases da vida em que o corpo fica mais suscetível ao ganho de peso
Ao longo da vida, Denise explica que existem momentos em que o corpo fica mais suscetível ao ganho de peso, principalmente por causa de mudanças hormonais, emocionais e de estilo de vida. São eles:
- Infância e adolescência: são fases em que os hábitos alimentares e o estilo de vida começam a se formar. Uma alimentação pouco equilibrada nesse período pode facilitar o aumento da gordura corporal e tornar o controle do peso mais difícil na vida adulta;
- Gravidez: o ganho de peso faz parte de uma gestação saudável e é esperado. Porém, quando acontece acima do recomendado, pode ser mais difícil perder o peso depois do parto, aumentando o risco de obesidade para a mãe;
- Menopausa: nessa fase ocorrem mudanças hormonais importantes, como a queda do estrogênio. Isso, junto com a perda natural de massa muscular com a idade, pode deixar o metabolismo mais lento e favorecer o acúmulo de gordura, principalmente na região da barriga.
Quando o ganho de peso precisa de intervenção médica?
De acordo com Denise, o ganho de peso passa a ser uma preocupação para a saúde quando começa a afetar o bem-estar e aumenta o risco de outras doenças.
Além do IMC, a circunferência abdominal também é necessária para avaliar a quantidade de gordura na região da barriga, conhecida como gordura visceral, que está relacionada ao risco de problemas cardiovasculares e metabólicos.
- Níveis de alerta para aumento do risco cardiovascular e diabetes: circunferência abdominal a partir de 94 cm em homens e 80 cm em mulheres;
- Risco muito elevado (obesidade abdominal): circunferência acima de 102 cm em homens e 88 cm em mulheres.
A presença de doenças associadas, como pré-diabetes, hipertensão, colesterol alto ou dores articulares, também são sinais claros de que uma intervenção médica é necessária.
“O ideal é não esperar ‘passar do ponto’. Uma pessoa que sempre teve um peso estável e percebe um ganho de peso progressivo e não intencional — por exemplo, ganhar mais de 5% do seu peso em um período de 6 meses — já deve procurar orientação”, complementa Denise.
Quais os benefícios de uma intervenção mais cedo?
Ao intervir mais cedo, fica muito mais fácil ajustar pequenos hábitos agora do que tratar a obesidade e suas complicações mais adiante. Entre os principais benefícios, Denise aponta:
- Prevenção de doenças: ajuda a reduzir o risco de diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer;
- Mais facilidade no tratamento: pequenas mudanças de hábitos tendem a ser mais simples de manter ao longo do tempo;
- Melhora da qualidade de vida: contribui para mais disposição, melhor mobilidade e bem-estar emocional;
- Evita a adaptação do corpo ao peso mais alto: com o tempo, o organismo pode se adaptar ao peso elevado, tornando o emagrecimento mais difícil. A intervenção precoce pode evitar esse processo.
Como é feito o tratamento de obesidade?
O tratamento da obesidade costuma ser individualizado, adaptado à realidade, à saúde e às necessidades de cada pessoa. Normalmente, ele envolve mudanças no estilo de vida, acompanhamento profissional e, em alguns casos, medicamentos ou cirurgia:
- Alimentação equilibrada: ajustes na rotina alimentar, com preferência por alimentos mais naturais e orientação nutricional quando possível;
- Prática de atividade física: exercícios regulares, adaptados ao condicionamento físico e à rotina de cada pessoa;
- Qualidade do sono: dormir bem ajuda a regular hormônios ligados à fome, energia e metabolismo;
- Saúde emocional: acompanhamento psicológico pode ajudar na relação com a comida, no controle do estresse e no bem-estar geral;
- Acompanhamento médico: avaliação periódica para monitorar a saúde e orientar o tratamento;
- Uso de remédios: podem ser indicados para pessoas com IMC acima de 30 (ou 27 com comorbidades) que não respondem apenas às mudanças de estilo de vida, sempre com prescrição médica.
De acordo com Denise, a cirurgia bariátrica costuma ser indicada em casos de obesidade mais grave, geralmente quando o IMC está acima de 40 kg/m², ou acima de 35 kg/m² na presença de comorbidades importantes, como diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono ou outras condições associadas.
Antes da cirurgia, a pessoa passa por uma avaliação completa com uma equipe de saúde, que pode incluir médico, nutricionista, psicólogo e outros profissionais. Isso é importante para garantir que o procedimento seja seguro e que a pessoa esteja preparada para as mudanças que virão depois da cirurgia.
Após o procedimento, o acompanhamento contínuo, a adaptação alimentar, a prática de atividade física e o cuidado com a saúde emocional ajudam a manter os resultados e a preservar a saúde ao longo do tempo.
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Perguntas frequentes
1. Quais são as principais doenças associadas à obesidade?
Diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, apneia do sono, esteatose hepática (gordura no fígado) e problemas articulares.
2. A obesidade aumenta o risco de câncer?
Sim, a obesidade está associada a um risco aumentado de pelo menos 13 tipos de câncer, devido ao estado de inflamação crônica que o excesso de gordura causa no organismo.
3. O que é o efeito sanfona e por que ele ocorre?
É a recuperação rápida do peso após uma perda severa. Ocorre frequentemente em dietas muito restritivas, pois o corpo entende a restrição como uma “ameaça” e reduz o metabolismo para poupar energia.
4. É possível prevenir a obesidade?
Sim, a partir de medidas como alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado e cuidado com a saúde emocional.
5. Como funciona a cirurgia bariátrica?
É um procedimento que altera o sistema digestivo para limitar a quantidade de comida ingerida ou a absorção de nutrientes. É indicada para obesidade grau III ou grau II com doenças graves associadas, após falha do tratamento clínico.
6. O que é comer emocional?
É o hábito de usar a comida para aliviar sentimentos negativos (estresse, tristeza, tédio). Identificar os gatilhos é importante porque, nesses casos, a fome não é física, mas sim uma tentativa do cérebro de obter conforto imediato através da dopamina.
7. Por que é tão difícil manter o peso após emagrecer?
O corpo possui mecanismos de sobrevivência que tentam recuperar o peso perdido, aumentando a fome e reduzindo o gasto de energia. Por isso, o acompanhamento médico a longo prazo é essencial para “reprogramar” esses sinais.
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