Autor: Dra. Fernanda Tasso Borges Fernandes

  • Tratamento para emagrecer: quando procurar ajuda médica?

    Tratamento para emagrecer: quando procurar ajuda médica?

    Um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, distúrbios metabólicos e diabetes tipo 2, o excesso de peso é uma realidade no cotidiano de 60% da população adulta no Brasil — um número que ultrapassa 96 milhões de pessoas.

    O quadro costuma se instalar de forma lenta, influenciado por sedentarismo, alimentação inadequada, padrões de sono irregulares, estresse contínuo e ambientes que dificultam escolhas saudáveis. Em meio a uma rotina agitada e frequentemente sem tempo para o autocuidado, o problema pode passar despercebido por muito tempo.

    Contudo, quando o peso começa a afetar qualidade de vida, saúde física ou bem-estar emocional, pode ser momento de procurar ajuda médica para emagrecer. É normal ter medo ou receio de ouvir diagnósticos indesejados, mas profissionais de saúde trabalham diariamente com cuidado, acolhimento e estratégias realistas, focadas na qualidade de vida.

    “O papel do médico é oferecer um cuidado seguro, humano e sem julgamentos, construindo junto com o paciente estratégias que realmente funcionem na vida real”, esclarece a médica de família e comunidade Fernanda Tasso Borges Fernandes.

    Quando procurar ajuda médica para emagrecer?

    De acordo com Fernanda, é indicado procurar ajuda de um profissional sempre que o peso interfere na saúde, no bem-estar ou na relação com o próprio corpo. Isso vale para situações como:

    • Ganho de peso contínuo;
    • Dificuldade para reduzir ou manter o peso;
    • Presença de doenças associadas, como hipertensão, colesterol elevado, apneia do sono ou diabetes;
    • Sofrimento emocional, queda da autoestima ou impacto na vida social e profissional.

    Também é importante buscar avaliação médica antes de iniciar dietas restritivas, uso de medicamentos por conta própria ou mesmo tendências passageiras das redes sociais. O tratamento da obesidade precisa ser individualizado, seguro e baseado em evidências científicas, respeitando a realidade de cada pessoa.

    A obesidade é uma doença crônica multifatorial, e qualquer médico que tenha formação e capacitação adequada, como médicos de família e comunidade, clínicos gerais ou nutrólogos, pode diagnosticar, acompanhar e tratar pessoas com sobrepeso ou obesidade, segundo Fernanda.

    “Esses médicos podem avaliar o estado metabólico, orientar mudanças de estilo de vida, prescrever medicamentos quando indicados e coordenar o cuidado com outros profissionais da equipe multiprofissional. Mais do que tratar números, o objetivo é cuidar da pessoa como um todo, considerando os aspectos biológicos, emocionais e sociais que influenciam o peso e a saúde”, esclarece.

    O que avaliar antes de indicar o tratamento para emagrecimento?

    Antes de indicar qualquer tratamento para emagrecimento, o médico faz uma avaliação completa para entender como o organismo funciona e quais fatores podem estar dificultando a perda de peso. Segundo Fernanda, isso envolve:

    • Histórico clínico e familiar (doenças associadas, uso de medicamentos, variações de peso);
    • Hábitos de vida, incluindo padrão alimentar, sono, rotina e nível de estresse;
    • Avaliação física detalhada, com medidas corporais, cálculo do IMC e análise da composição corporal;
    • Exames laboratoriais e físicos, para identificar causas secundárias de ganho de peso;
    • Avaliação comportamental e emocional, entendendo a relação do paciente com a comida e com o corpo.

    Com todas as informações, o médico consegue definir quais estratégias são mais adequadas: mudanças no estilo de vida, acompanhamento nutricional, atividade física, medicações ou uma combinação entre elas. O tratamento sempre é individualizado e alinhado à realidade de cada pessoa.

    Como funciona o tratamento para emagrecer?

    O tratamento para emagrecer é feito a partir de uma série de medidas que se complementam e levam em conta saúde física, rotina e limitações individuais. Ele não é focado apenas na perda de peso, mas em melhorar a qualidade de vida, reduzir riscos e criar hábitos que podem ser mantidos ao longo do tempo.

    Entre as principais estratégias utilizadas hoje, Fernanda destaca:

    • Mudança do estilo de vida: envolve alimentação equilibrada e possível de manter, sono de qualidade, manejo do estresse e prática regular de atividade física;
    • Terapias comportamentais: apoio psicológico e educação alimentar para fortalecer a relação com a comida;
    • Tratamento farmacológico: indicado quando há dificuldade em perder ou manter o peso apenas com mudanças de hábitos;
    • Cirurgia bariátrica: indicada em situações específicas, sempre com acompanhamento médico e multiprofissional.

    “Cada plano terapêutico deve equilibrar benefícios, riscos e preferências individuais, com acompanhamento regular para garantir resultados duradouros e preservar a saúde global”, explica a especialista.

    Alimentação e exercício físico podem não ser suficientes para emagrecer?

    A obesidade é uma doença influenciada por diversos fatores, como genética, hormônios, metabolismo, uso de medicamentos, ambiente e saúde emocional. Por isso, apesar de fundamentais, a alimentação equilibrada e o exercício físico nem sempre são suficientes para promover perda de peso consistente.

    Segundo Fernanda, o corpo costuma defender o próprio peso máximo e, quando começa a emagrecer, pode reduzir o gasto energético e aumentar a fome como forma de proteção biológica. Nessas situações, pode ser necessário incluir medicações ou outras estratégias no tratamento.

    “Isso não significa falta de esforço nem escolher o caminho mais fácil, mas sim o reconhecimento de que há componentes fisiológicos que exigem suporte clínico contínuo”, complementa.

    Já perdi peso, preciso continuar indo ao médico?

    Mesmo depois de alcançar uma boa perda de peso, continuar o acompanhamento médico é fundamental para manter os hábitos a longo prazo, ajustar os cuidados conforme o corpo muda e prevenir o reganho de peso.

    “O acompanhamento médico ajuda a monitorar a composição corporal e a orientar ajustes no tratamento em conjunto com o nutricionista e o profissional da educação física”, explica Fernanda.

    Por que tentar emagrecer sem orientação pode ser arriscado?

    Dietas muito restritivas, exercícios acima do limite e uso de medicamentos sem prescrição podem desorganizar o metabolismo, causar queda de massa muscular e provocar alterações importantes em pressão, humor e funcionamento hormonal.

    “O cuidado médico evita esses riscos, assegurando que o emagrecimento ocorra de forma segura, progressiva e sustentável, com atenção à saúde integral”, finaliza Fernanda.

    Leia também: Canetas emagrecedoras: ficar sem comer faz emagrecer mais rápido?

    Perguntas frequentes

    O que realmente faz uma pessoa emagrecer?

    O emagrecimento acontece quando o corpo gasta mais energia do que recebe ao longo do tempo, criando um déficit calórico.

    Dietas muito restritivas funcionam?

    Podem levar a perda rápida, mas costumam ser insustentáveis e provocam efeito rebote.

    Por que algumas pessoas têm mais dificuldade para emagrecer?

    Genética, hormônios, histórico de peso, medicamentos, sono e estresse influenciam diretamente o metabolismo.

    O que é efeito sanfona?

    É o ciclo de emagrecer e recuperar peso repetidamente, geralmente após dietas muito restritivas.

    Por que perder gordura abdominal é mais difícil?

    A gordura abdominal é influenciada por hormônios como o cortisol e fatores genéticos e hormonais.

    O que fazer quando o emagrecimento trava?

    É necessário reavaliar alimentação, exercícios, sono, estresse e fatores metabólicos com ajuda profissional.

    Veja também: Comer muito tarde pode causar diabetes? Saiba os riscos de comer perto da hora de dormir

  • Obesidade: por que é considerada uma doença crônica?

    Obesidade: por que é considerada uma doença crônica?

    Em um ritmo acelerado, o Brasil caminha para se tornar um país em que o excesso de peso será a realidade da maior parte da população. Em vinte anos, se a tendência permanecer, dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que 48% dos brasileiros serão obesos e outros 27% estarão com sobrepeso.

    Hoje, o Ministério da Saúde indica que um em cada três brasileiros vive com obesidade — e que mais da metade dos moradores das capitais apresenta excesso de peso. Apesar dos números elevados, ainda há grande dificuldade em entender o problema com a seriedade necessária.

    “Durante décadas, o excesso de peso foi explicado apenas como um problema de escolhas pessoais, ignorando a biologia e o ambiente. Essa visão simplista reforça o estigma e faz com que muitas pessoas com obesidade sofram culpa e discriminação, inclusive no sistema de saúde”, aponta a médica de família e comunidade, Fernanda Tasso Borges Fernandes.

    Segundo a especialista, existem evidências sólidas de que, isoladamente, a força de vontade não é capaz de superar os mecanismos biológicos que tendem a levar o corpo de volta ao peso anterior. A obesidade é uma doença em que fatores hormonais, genéticos e ambientais trabalham para manter o organismo em um patamar elevado de peso, mesmo quando a pessoa tenta mudar hábitos. É o que nós vamos entender mais, a seguir.

    Por que a obesidade é considerada uma doença crônica?

    A obesidade, que passou a ser considerada uma doença crônica pela American Medical Association em 2013, envolve alterações biológicas, genéticas, hormonais, ambientais e comportamentais que fazem o corpo defender um peso mais alto, mesmo quando a pessoa tenta emagrecer.

    Para se ter uma ideia, dados da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, mostram que cerca de 90% das pessoas que perdem peso acabam recuperando grande parte do que foi eliminado. O organismo passa a funcionar em um padrão que favorece acúmulo de gordura e torna o tratamento contínuo, assim como acontece em casos de hipertensão ou diabetes.

    “O excesso de peso não é apenas resultado de ‘comer demais’: há mudanças na regulação do apetite, no gasto energético e nos hormônios que controlam fome e saciedade. Assim como a hipertensão ou o diabetes, a obesidade não tem cura definitiva, mas pode ser controlada com acompanhamento médico, hábitos saudáveis e, em alguns casos, medicações”, explica Fernanda.

    Segundo o Ministério da Saúde, a obesidade é um importante fator de risco para diversas doenças, porque o acúmulo excessivo de gordura altera o funcionamento do organismo e favorece processos inflamatórios, resistência à insulina, aumento da pressão arterial e desequilíbrios hormonais.

    Isso aumenta a probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, apneia do sono, alguns tipos de câncer e problemas articulares. Quanto maior o tempo de exposição ao excesso de peso, maior tende a ser o impacto sobre a saúde, o que reforça a necessidade de acompanhamento contínuo e intervenções precoces.

    Quais fatores influenciam na obesidade?

    Existem diversos fatores que influenciam o desenvolvimento da obesidade, e a maioria deles atua de forma combinada ao longo do tempo.

    Segundo Fernanda, o peso corporal é regulado por um sistema biológico complexo que envolve o cérebro, principalmente estruturas como o hipotálamo, e uma rede de hormônios responsável por informar ao corpo quando há energia suficiente ou quando é necessário comer. A médica cita alguns exemplos:

    • Leptina: produzida pelo tecido adiposo, normalmente reduz o apetite, mas em pessoas com obesidade o organismo pode se tornar resistente à sua ação;
    • Grelina: conhecida como o “hormônio da fome”, aumenta antes das refeições e diminui após comer, porém, em quem emagrece, tende a permanecer elevada, estimulando o apetite;
    • Insulina: além de controlar a glicose, exerce papel importante no armazenamento de gordura;
    • Cortisol e hormônios sexuais: modulam a distribuição e o acúmulo de gordura no corpo.

    Em pessoas com tendência à obesidade, esses sinais podem funcionar de modo alterado, dificultando o controle natural do apetite e do gasto energético. Ao mesmo tempo, os fatores externos têm influência tão importante quanto a genética — e acabam definindo se uma predisposição biológica vai, de fato, se tornar uma doença.

    “Pesquisas indicam que fatores genéticos podem explicar até 70% da tendência individual ao ganho de peso, influenciando desde o apetite e o gasto calórico até a forma como o corpo armazena gordura. No entanto, essa predisposição só se transforma em doença quando o corpo é exposto a um ambiente que favorece o ganho de peso — com alimentos ultraprocessados, sono insuficiente, estresse crônico e pouca atividade física”, aponta Fernanda.

    E qual o papel do cérebro?

    O cérebro participa de maneira direta na regulação do peso corporal, controlando fome, saciedade e prazer relacionado à comida. O hipotálamo funciona como centro de comando, ajustando apetite e gasto energético a partir de sinais enviados por hormônios como leptina e grelina — que, como já explicado, informam se há energia suficiente ou se é hora de buscar alimento.

    Além disso, as áreas ligadas ao sistema de recompensa influenciam o prazer e a motivação para comer, principalmente quando o ambiente oferece alimentos ricos em gordura, açúcar e sal.

    Por esse motivo, o tratamento da obesidade também envolve estratégias que ajudam o cérebro a desenvolver novas respostas — percebendo melhor os sinais de saciedade, reconhecendo os gatilhos emocionais e reduzindo a busca automática por comida.

    Obesidade tem cura?

    A obesidade é uma doença crônica, então não tem uma cura definitiva, mas pode ser controlada a partir de acompanhamento contínuo. O tratamento, além de reduzir o peso, também visa manter os resultados a longo prazo.

    Quando o peso diminui, o corpo reduz o gasto energético e aumenta o apetite para tentar recuperar o que perdeu. Por isso, Fernanda ressalta que interromper o tratamento pode levar à recidiva em grande parte dos casos.

    “Com seguimento médico, alimentação adequada, atividade física e, quando indicado, uso de medicamentos, é possível controlar a doença, reduzir riscos e melhorar a qualidade de vida de forma sustentável”, finaliza a médica de família.

    Confira: Canetas emagrecedoras: como evitar deficiências nutricionais?

    Perguntas frequentes sobre obesidade

    Qual é a diferença entre obesidade e sobrepeso?

    A diferença entre obesidade e sobrepeso está principalmente na quantidade de gordura acumulada e no impacto que isso causa na saúde.

    Sobrepeso é quando a pessoa apresenta acúmulo de gordura maior do que o considerado ideal, mas ainda sem ultrapassar limites que elevem de forma marcante o risco de doenças. Para o sobrepeso, o IMC fica entre 25 e 29,99;

    Obesidade corresponde a um aumento mais significativo desse acúmulo, a ponto de alterar o funcionamento do organismo, favorecer inflamação crônica, desequilibrar hormônios ligados ao apetite e elevar de maneira importante a probabilidade de desenvolver problemas de saúde. Para a obesidade, o IMC é a partir de 30.

    Apesar do IMC ser uma ferramenta bastante usada para distinguir ambas as condições, outros fatores (como composição corporal, distribuição de gordura e histórico clínico) também entram no diagnóstico. A diferença fundamental é que obesidade é considerada uma doença crônica que exige acompanhamento contínuo, enquanto sobrepeso é um estágio que pode evoluir ou ser revertido com tratamento adequado.

    Quais doenças podem estar associadas à obesidade?

    A obesidade aumenta o risco de várias condições, especialmente quando o corpo permanece por anos em estado de inflamação crônica causada pelo excesso de gordura. Entre elas, é possível destacar:

    • Diabetes tipo 2;
    • Hipertensão;
    • Doenças cardiovasculares;
    • Apneia do sono;
    • Gordura no fígado;
    • Refluxo;
    • Problemas articulares;
    • Infertilidade;
    • Irregularidade menstrual;
    • Determinados tipos de câncer.

    Por que é tão difícil manter o peso perdido?

    Quando alguém emagrece, o corpo interpreta o processo como ameaça à sobrevivência e aciona mecanismos de defesa. Então, o gasto energético diminui, a fome aumenta, a grelina permanece elevada e a leptina perde eficiência.

    Além disso, os músculos passam a usar energia de forma mais econômica, dificultando a manutenção do novo peso. Tudo isso faz com que a pessoa precise de acompanhamento contínuo para manter resultados.

    O que causa o efeito sanfona em quem tem obesidade?

    O efeito sanfona ocorre quando a pessoa perde peso rapidamente e recupera logo em seguida, repetindo esse ciclo várias vezes. Isso acontece porque dietas rígidas e de baixa caloria fazem o corpo interpretar a perda de peso como ameaça, reduzindo metabolismo, aumentando fome e estimulando mecanismos naturais de economia de energia.

    Quando a alimentação volta ao normal, o corpo repõe o peso perdido com rapidez, muitas vezes ultrapassando o valor inicial. Em pessoas com obesidade, o efeito sanfona é ainda mais intenso porque o organismo já opera com hormônios desregulados e maior tendência ao acúmulo de gordura. O ciclo repetido compromete o metabolismo, aumenta inflamação e dificulta a manutenção do peso no longo prazo.

    Obesidade pode causar problemas no coração?

    Sim, pois o acúmulo de gordura aumenta a inflamação, eleva pressão arterial e o colesterol, favorece resistência à insulina e sobrecarrega o sistema cardiovascular. O coração precisa trabalhar mais para bombear sangue, o que contribui para insuficiência cardíaca, arritmias e doença arterial coronariana.

    Confira: Obesidade infantil: o que é, causas e como prevenir