Qualquer procedimento cirúrgico precisa de avaliação médica prévia para garantir segurança — mesmo aqueles com finalidade estética. Durante uma cirurgia plástica, o organismo passa por anestesia, mudanças na circulação e estresse físico, fatores que exigem uma atenção especial à saúde do coração.
Mas afinal, quais exames são necessários fazer antes de entrar no bisturi? Conversamos com a cardiologista Edilza Câmara Nóbrega para entender como deve ser o acompanhamento.
Por que fazer avaliação cardiológica antes da cirurgia plástica
Durante uma cirurgia plástica, o corpo passa por adaptações para lidar com a anestesia, o estresse cirúrgico e a cicatrização. A anestesia pode alterar pressão, batimentos e respiração, enquanto o organismo libera hormônios para manter o funcionamento dos órgãos.
Após o procedimento, ocorre um processo inflamatório natural para reparar os tecidos, com inchaço e sensibilidade temporários até a recuperação completa.
Por isso, mesmo em pessoas jovens e consideradas saudáveis, a avaliação cardiológica ajuda a identificar condições que muitas vezes não apresentam sintomas, como algumas cardiomiopatias ou arritmias congênitas. Elas podem se manifestar durante o estresse do procedimento cirúrgico e da anestesia.
Além disso, ela permite definir o chamado risco basal, isto é, entender como o coração e o organismo tendem a reagir ao trauma cirúrgico, de acordo com Edilza. As informações ajudam a equipe médica e de anestesia a planejar o procedimento com mais segurança, reduzindo riscos e garantindo uma melhor recuperação no pós-operatório.
Quais exames são necessários antes de uma cirurgia plástica?
Para pacientes considerados de baixo risco e em cirurgias de pequeno porte, a avaliação pré-operatória costuma seguir um protocolo básico. Segundo Edilza, ela envolve:
- Anamnese e exame físico: considerados fundamentais para avaliar o risco cirúrgico, pois permitem analisar histórico de saúde, uso de medicamentos, hábitos de vida e possíveis sintomas.
- Eletrocardiograma (ECG): avalia o ritmo do coração e identifica possíveis alterações ou sinais de sobrecarga cardíaca;
- Exames de sangue: normalmente incluem hemograma, dosagem de eletrólitos como sódio e potássio, avaliação da função renal e coagulograma, que verifica a capacidade de coagulação do sangue;
“Cirurgias plásticas, embora muitas vezes eletivas, são procedimentos cirúrgicos reais que exigem o mesmo rigor de segurança que qualquer outra intervenção”, complementa a cardiologista.
O porte da cirurgia influencia os exames?
A necessidade de exames depende tanto das condições de saúde da pessoa quanto do tipo de cirurgia que será realizada. Procedimentos maiores, como abdominoplastia ou cirurgias combinadas, por exemplo, exigem mais preparo do organismo e uma avaliação mais cuidadosa do coração.
Quanto maior o tempo da cirurgia e a área operada, maior é o esforço do organismo. Por isso, nesses casos, a avaliação costuma ser mais completa para garantir mais segurança durante a cirurgia e na recuperação.
Quando solicitar exames avançados?
Alguns exames cardiológicos mais detalhados, como ecocardiograma, teste ergométrico ou cintilografia, costumam ser solicitados quando existe suspeita de maior risco cardiovascular. A decisão depende da avaliação médica e das características de cada pessoa.
Normalmente, os exames são indicados quando:
- Há sintomas cardíacos, como falta de ar, dor no peito, tontura ou perda de consciência;
- Existe baixa capacidade funcional, quando a pessoa se cansa com facilidade em atividades simples, como subir escadas;
- Há doenças ou fatores de risco importantes, como diabetes, obesidade grau III, tabagismo ou outras condições que aumentam o risco cardiovascular.
Quando a cirurgia plástica pode ser contraindicada?
Algumas condições de saúde aumentam o risco de complicações durante e após a cirurgia plástica. Quando identificadas na avaliação pré-operatória, podem levar ao adiamento do procedimento até que a situação esteja controlada. Entre as principais, Edilza aponta:
- Isquemia miocárdica recente ou aguda: indica sofrimento do músculo cardíaco e exige avaliação e tratamento antes de qualquer cirurgia;
- Insuficiência cardíaca descompensada: quando o coração não está funcionando de forma adequada, o risco cirúrgico aumenta;
- Anemia severa: reduz a oxigenação do organismo, incluindo o coração, o que pode comprometer a segurança do procedimento;
- Arritmias cardíacas: algumas alterações no ritmo do coração precisam de controle ou tratamento antes da cirurgia;
- Pressão arterial sem controle: níveis elevados aumentam o risco de complicações durante a anestesia e no pós-operatório;
- Alterações importantes nos eletrólitos: desequilíbrios como sódio ou potássio fora do normal podem provocar complicações cardíacas graves.
E quando pode ser adiada?
Condições como arritmias, hipertensão e doenças das válvulas cardíacas podem exigir o adiamento da cirurgia até que estejam controladas. No caso da hipertensão, valores acima de 180/110 mmHg geralmente indicam a necessidade de controle antes do procedimento.
Arritmias e doenças das válvulas cardíacas também precisam estar estabilizadas, o que pode envolver uso de medicamentos, anticoagulantes ou outros tratamentos.
Como a cirurgia plástica é um procedimento não urgente, qualquer condição que aumente o risco de complicações durante ou após a cirurgia deve ser tratada previamente para garantir mais segurança ao paciente.
Cuidados antes da cirurgia plástica
Além dos exames cardiológicos, alguns cuidados também são importantes antes da cirurgia plástica, como:
- Evitar cigarro e álcool: o tabagismo prejudica a cicatrização e aumenta o risco de complicações, enquanto o álcool pode interferir na anestesia e na recuperação;
- Seguir orientação sobre medicamentos: alguns remédios, como anticoagulantes e hormônios, podem precisar de ajuste ou suspensão temporária;
- Manter alimentação equilibrada e boa hidratação: contribuem para melhor cicatrização e recuperação do organismo;
- Organizar o pós-operatório: planejar repouso, ajuda em casa e retorno às atividades facilita a recuperação.
Edilza ainda complementa que substâncias hormonais, como anticoncepcionais, terapias de reposição e implantes hormonais estéticos, podem aumentar o risco de formação de coágulos que podem se deslocar pela circulação e causar complicações.
Por isso, muitas diretrizes médicas recomendam avaliar a suspensão temporária dessas terapias algumas semanas antes da cirurgia, para reduzir o risco de trombose e embolia, especialmente em procedimentos eletivos, como as cirurgias plásticas. A decisão deve sempre ser individualizada e orientada pelo médico responsável.
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Perguntas frequentes
1. Com quanto tempo de antecedência devo fazer os exames?
Os exames laboratoriais e cardiológicos normalmente têm validade de 3 a 6 meses. Se houver mudança no seu estado de saúde nesse intervalo, uma reavaliação é necessária.
2. Preciso parar de tomar remédio para pressão antes da cirurgia?
Nunca suspenda por conta própria. Normalmente, é orientado tomar o remédio inclusive no dia da cirurgia, com apenas um gole de água, para evitar picos de pressão durante o procedimento. Em todo o caso, siga as orientações do médico.
3. Existe risco de infarto durante uma cirurgia plástica?
O risco existe em qualquer cirurgia, mas em pacientes com exames normais e risco cirúrgico baixo, ele é mínimo. A avaliação prévia serve justamente para filtrar quem tem essa predisposição.
4. O teste de esforço (esteira) é obrigatório para todas as idades?
Não, ele costuma ser solicitado para pacientes acima de 40-50 anos, fumantes ou pessoas com histórico familiar de doença coronariana. Para jovens saudáveis, o ECG simples costuma ser suficiente.
5. O uso de álcool nos dias anteriores afeta o coração na cirurgia?
O álcool é um depressor do sistema nervoso e pode afetar a contratilidade do coração. O ideal é abstinência total por, no mínimo, 7 dias antes da bateria de exames e da cirurgia.
6. Como o coração é monitorado durante a cirurgia plástica?
Durante a cirurgia, a pessoa fica conectada a um monitor multiparamétrico. Ele exibe em tempo real o eletrocardiograma, a frequência cardíaca, a saturação de oxigênio e a pressão arterial, permitindo que o anestesista reaja a qualquer oscilação em segundos.
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