A medula espinhal é parte do sistema nervoso central e conecta o cérebro ao resto do corpo, levando, entre outros, os comandos de movimento e trazendo as informações de sensibilidade.
Quando ocorre alguma lesão nessa estrutura, como em acidentes automobilísticos ou ferimentos por arma de fogo ou branca etc, a comunicação entre o cérebro e as partes do corpo abaixo do nível da lesão pode ficar prejudicada ou até mesmo interrompida.
Afinal, o que é a lesão na medula espinhal?
Uma lesão na medula espinhal acontece quando existe algum dano no tecido nervoso que fica dentro da coluna vertebral e que funciona como a principal ponte de comunicação entre o cérebro e o corpo.
A medula espinhal é responsável por levar os comandos do cérebro para os músculos e outros órgãos, permitindo os movimentos, e também por trazer informações do corpo para o cérebro, como dor, temperatura, toque e posição do corpo.
Quando existe alguma lesão nessa estrutura, a comunicação pode falhar ou até parar completamente, afetando o movimento, a sensibilidade e várias funções autônomas do organismo.
Para se ter uma ideia, dependendo do local onde a lesão acontece, a pessoa pode apresentar fraqueza ou paralisia somente nas pernas, ou em ambos, além de perda parcial ou total da sensibilidade. Também podem surgir alterações no funcionamento da bexiga, do intestino, da função sexual e, nos casos mais altos da coluna, até dificuldades respiratórias.
Quanto mais acima a lesão acontece, maior tende a ser o impacto no corpo, porque mais áreas ficam abaixo do ponto lesionado.
Tipos de lesão medular
De acordo com a neurocirurgiã Ana Gandolfi, existem dois tipos de lesão na medula espinhal, sendo elas:
Lesão completa
Na lesão completa, não existe nenhuma função preservada abaixo do nível da lesão. Isso inclui ausência total de movimento, sensibilidade e controle esfincteriano — tanto anal quanto vesical.
A classificação é feita principalmente com base no exame neurológico, embora os exames de imagem também contribuam para a avaliação.
Lesão incompleta
Na lesão incompleta, ainda existe alguma preservação das funções abaixo do nível da lesão. Isso significa que a pessoa pode manter certo grau de movimento, sensibilidade ou controle de esfíncteres.
O quadro pode variar bastante: desde uma perda parcial de força apenas nas pernas até comprometimento tanto dos braços quanto das pernas. É muito raro ocorrer prejuízo somente nos braços sem afetar as pernas, porque a medula primeiro libera nervos para os membros superiores e, mais abaixo, libera nervos para os membros inferiores.
Por isso, quando a lesão acontece acima da saída dos nervos dos membros superiores, costuma haver repercussão tanto nos braços quanto nas pernas. Já quando a lesão ocorre abaixo da região, normalmente o impacto se limita aos membros inferiores. Além da localização, a intensidade da lesão também influencia diretamente o grau de comprometimento funcional.
De acordo com Ana Gandolfi, qualquer função preservada abaixo do nível da lesão, mesmo que mínima, já caracteriza uma lesão incompleta.
Quais são as causas mais comuns de lesão medular?
As causas mais comuns de lesão medular estão relacionadas principalmente a traumas, segundo Ana, que podem ocorrer em situações como:
- Acidentes automobilísticos;
- Quedas;
- Mergulho em águas rasas;
- Ferimentos por arma de fogo;
- Ferimentos por arma branca.
Além dos traumas, existem causas não traumáticas, que são menos frequentes, como tumores na coluna ou na própria medula, infecções, doenças inflamatórias, alterações degenerativas da coluna e problemas vasculares que comprometem a circulação da medula.
Quais os primeiros sintomas de lesão medular?
Os primeiros sintomas de uma lesão medular podem variar conforme o local e a gravidade do dano, mas geralmente envolvem alterações no movimento, na sensibilidade e em algumas funções do corpo. Se ela foi causada por um trauma, os sintomas imediatos podem ser:
- Fraqueza ou perda de força nos braços, nas pernas ou nos dois;
- Dormência, formigamento ou perda de sensibilidade em alguma parte do corpo;
- Dor intensa na coluna, no pescoço ou nas costas após trauma;
- Dificuldade para andar ou perda do equilíbrio;
- Paralisia parcial ou total abaixo do nível da lesão;
- Perda do controle da bexiga ou do intestino;
- Alterações na respiração (principalmente em lesões cervicais);
- Sensação de choque ou queimação ao longo da coluna ou dos membros.
Qualquer um dos sinais após um trauma deve ser avaliado com urgência, porque o atendimento rápido pode fazer diferença importante na evolução e na recuperação.
No entanto, se a causa da lesão não foi traumática, os sintomas tendem a surgir de forma gradual, sendo eles:
- Formigamento ou “choques”, com sensação de agulhadas que descem pela coluna ou irradiam para os braços e as pernas, podendo indicar compressão nervosa;
- Perda de coordenação, como tropeçar com frequência, deixar objetos caírem das mãos ou ter dificuldade para abotoar uma camisa;
- Alterações na bexiga e no intestino, incluindo urgência súbita para urinar, incontinência ou prisão de ventre persistente sem causa aparente;
- Fraqueza progressiva, com sensação de pernas “pesadas” ou cansaço excessivo ao subir escadas;
- Disfunção sexual, com mudanças repentinas na sensibilidade genital ou dificuldade de ereção.
Como é feito o diagnóstico?
Segundo a neurocirurgiã, o primeiro cuidado ao atender um paciente com suspeita de lesão medular é manter a coluna bem estabilizada, para evitar movimentos que possam agravar uma fratura ou piorar uma lesão que ainda não foi totalmente avaliada. Nesse momento, todo cuidado faz diferença para proteger a medula e reduzir possíveis complicações.
Depois de estabilizar a pessoa, é importante realizar um exame neurológico completo. Nessa avaliação, os profissionais analisam a força muscular, a sensibilidade e o controle de funções como a bexiga e o intestino, porque as informações ajudam a entender a gravidade da lesão e orientar os próximos passos.
Na sequência, são necessários exames de imagem, conforme Ana aponta:
- Tomografia computadorizada, utilizada principalmente para identificar fraturas e alterações ósseas com rapidez;
- Ressonância magnética, que avalia melhor as partes moles, como os ligamentos, a própria medula espinhal e as raízes nervosas.
A ressonância é especialmente importante quando existe possibilidade de cirurgia, porque ajuda no planejamento do procedimento.
Como é feito o tratamento da lesão medular?
O tratamento começa já no atendimento inicial, com a estabilização da coluna para evitar que a lesão piore ou cause novos danos. Em muitos casos, Ana explica que é necessária uma cirurgia para descomprimir a medula, ou seja, retirar estruturas como fragmentos ósseos, discos ou outras estruturas que quando deslocadas podem estar pressionando o tecido nervoso.
Em algumas situações, também é preciso estabilizar a coluna com parafusos e hastes, garantindo mais firmeza à estrutura e reduzindo o risco de novas lesões.
Quando existe indicação cirúrgica, o ideal é que o procedimento seja realizado o mais rápido possível, porque a rapidez no tratamento pode influenciar diretamente nas chances de recuperação e no início mais precoce da reabilitação.
Depois da fase inicial, são adotadas algumas medidas de tratamento, como:
Fisioterapia intensiva
A fisioterapia é uma das partes mais importantes do tratamento de lesão medular, e ajuda na recuperação da força muscular, na melhora da mobilidade e na prevenção de complicações, como rigidez das articulações, perda muscular e problemas respiratórios.
O trabalho é feito de forma gradual e contínua, respeitando os limites da pessoa e estimulando ao máximo o potencial de recuperação. Para que o tratamento fisioterápico seja instituído, no entanto, se houver instabilidade na coluna pelao trauma, a mesma coluna já deve ter sido estabilizada cirurgicamente.
Terapia ocupacional
A terapia ocupacional tem como foco a adaptação às atividades do dia a dia. Basicamente, o profissional ajuda o paciente a reaprender tarefas como se vestir, se alimentar e realizar a higiene pessoal, além de orientar sobre adaptações no ambiente doméstico ou profissional.
A terapia é importante para promover autonomia e independência, mesmo diante de limitações físicas.
Acompanhamento médico multidisciplinar
O tratamento da lesão medular envolve uma equipe de diferentes especialistas, e dependendo das necessidades, podem participar urologistas, fisiatras, psicólogos, entre outros profissionais.
O acompanhamento contribui para cuidar de questões como controle da bexiga e do intestino, saúde emocional, dor crônica e prevenção de complicações clínicas.
Reabilitação contínua
A reabilitação precisa acontecer de forma contínua, principalmente durante o primeiro ano após a lesão, que costuma ser o período em que ocorre a maior parte da recuperação. É um processo que exige tempo, paciência e constância, tanto da equipe de saúde quanto da própria pessoa em tratamento.
O acompanhamento regular e o envolvimento ativo no processo fazem muita diferença, porque ajudam a aproveitar ao máximo o potencial de recuperação e a melhorar a qualidade de vida no dia a dia.
É possível recuperar?
A recuperação é possível, exceto nos casos de secção completa da medula, quando há interrupção total do tecido medular.
Mesmo nos casos mais graves, Ana explica que o paciente deve ser tratado com a perspectiva de recuperação. Isso implica realizar a cirurgia o mais cedo possível, estabilizar a coluna quando necessário e iniciar a reabilitação intensiva o quanto antes.
O tempo até a cirurgia e o início precoce da reabilitação influenciam diretamente no grau de recuperação.
Lesão na medula tem cura?
Atualmente, ainda não existe uma cura definitiva que regenere completamente os nervos da medula espinhal para devolver todas as funções perdidas. Diferente da pele ou dos ossos, as células do sistema nervoso central (neurônios) têm uma capacidade de regeneração extremamente limitada.
Atualmente, um dos estudos mais promissores e recentes no Brasil para a reversão da lesão medular é o desenvolvimento da polilaminina, um medicamento experimental brasileiro que parece ter demonstrado potencial para regenerar conexões neurais e restaurar alguns movimentos. No entanto, ele ainda está em fases iniciais dos testes clínicos e serão necessários mais estudos para avaliar se realmente pode ajudar nesses casos.
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Perguntas frequentes
1. Toda lesão na medula causa paralisia total?
Não. Isso depende se a lesão é completa (interrupção total de sinais) ou incompleta (onde restam algumas vias nervosas). Em lesões incompletas, a pessoa pode manter parte dos movimentos e da sensibilidade
2. Qual a diferença entre paraplegia e tetraplegia?
A tetraplegia ocorre quando a lesão é na região cervical (pescoço), afetando braços, tronco e pernas. A paraplegia ocorre em lesões torácicas ou lombares, afetando apenas as pernas e a parte inferior do tronco.
3. O que é o choque medular?
É um estado temporário logo após o trauma, onde todas as funções abaixo da lesão param de funcionar (reflexos, sensibilidade e movimentos), como se houvesse uma desligamento da função medular Só após o fim do choque medular (horas ou dias) é que o médico consegue determinar a gravidade real da lesão.
4. O que causa os espasmos nas pernas de quem não se move?
Sem o controle do cérebro, os reflexos da medula ficam “exagerados”, fazendo com que os músculos se contraiam sozinhos diante de qualquer estímulo ou até por mudança de temperatura.
5. Existe cirurgia para consertar a medula?
As cirurgias atuais servem para estabilizar a coluna (com pinos e placas) ou descomprimir a medula. Ainda não existe uma cirurgia que “costure” os nervos rompidos para que voltem a funcionar.
6. Como a lesão medular afeta a temperatura do corpo?
A lesão pode interromper o controle do sistema nervoso sobre o suor e a dilatação dos vasos. Isso faz com que a pessoa tenha dificuldade em se resfriar no calor ou se aquecer no frio, ficando muito dependente da temperatura externa.
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