Utilizada quando o organismo perde a capacidade de produzir células do sangue de maneira saudável, o transplante de medula óssea é uma alternativa para tratar doenças que comprometem o funcionamento da medula, como leucemias, mieloma múltiplo e falhas graves na produção celular.
Mas afinal, o que é medula óssea? Ela consiste em um tecido esponjoso localizado no interior dos ossos, conhecido como tutano, responsável por fabricar glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Segundo o oncologista Thiago Chadid, é ali que vivem as células-tronco hematopoéticas, capazes de dar origem a todas as células sanguíneas que garantem oxigenação adequada, defesa contra infecções e coagulação.
Quando acontece algum defeito na produção das células, o corpo perde a capacidade de manter as suas funções vitais. Com o transplante, é possível substituir células doentes por células saudáveis, permitindo que o corpo volte a fabricar glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas de forma equilibrada. Entenda mais, a seguir!
O que é o transplante de medula óssea e quando é indicado?
O transplante de medula óssea é um procedimento utilizado quando a medula perde a capacidade de produzir células do sangue de forma adequada. De acordo com o Ministério da Saúde, a proposta é substituir uma medula doente ou insuficiente por células saudáveis, capazes de restaurar a produção normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.
O tratamento pode ser feito de duas maneiras:
- No transplante autogênico, utilizam-se células saudáveis do próprio paciente, coletadas e preservadas antes da etapa de quimioterapia de alta intensidade;
- No transplante alogênico, as células vêm de um doador compatível, que pode ser um familiar ou alguém inscrito no registro nacional de doadores.
A indicação surge em doenças que comprometem de forma profunda o funcionamento da medula, como anemia aplástica grave, síndromes mielodisplásicas e diversos tipos de leucemias, nas quais há alteração da função e do ritmo de crescimento dos leucócitos.
De acordo com Thiago, o tratamento funciona como um “reset”, semelhante a reiniciar um computador, substituindo a medula comprometida por uma medula saudável.
Quanto o transplante de medula óssea é indicado?
O transplante de medula óssea é indicado quando a medula perde a capacidade de produzir células sanguíneas de forma adequada, seja por proliferação descontrolada, seja por falência progressiva. Segundo Thiago, ao lembrarmos que as células-tronco da medula dão origem a todos os tipos de células do sangue, é mais fácil compreender por que alterações nesse processo podem desencadear doenças graves.
Uma mutação que interfere na diferenciação celular pode gerar células defeituosas, incapazes de exercer suas funções. Em muitos casos, isso resulta no surgimento de cânceres que se originam na própria medula óssea.
Segundo o oncologista, em alguns casos, o transplante é feito com intenção curativa, buscando eliminar totalmente a doença. Em outros, o objetivo é controle dos sintomas, principalmente quando a medula está muito hiperprodutiva e provoca excesso de células doentes. Nessas situações, o transplante reduz a população de células malignas, melhora o bem-estar e prolonga a vida do paciente, mesmo que a cura definitiva não seja possível.
Entre algumas das principais indicações de transplante de medula óssea, destacamos:
Mieloma múltiplo
O mieloma múltiplo é um tumor originado nas células responsáveis pela produção de imunoglobulinas, como o IgG. Uma mutação faz com que as células deixem de produzir anticorpos funcionais e passem a fabricar proteínas defeituosas, que não têm utilidade e se acumulam na corrente sanguínea, segundo Thiago.
O excesso provoca sobrecarga nos rins e nos vasos, além de favorecer a proliferação desordenada dessas células dentro dos ossos, levando à corrosão óssea e a quadros de dor e fragilidade. É um processo resultante de uma diferenciação celular defeituosa, que gera uma proteína inútil e perda de função imunológica.
Leucemias
As leucemias são tumores que surgem quando há falha na diferenciação das células brancas: um neutrófilo, que deveria combater bactérias, ou um linfócito, que deveria combater vírus, passa a se desenvolver de forma anormal.
A célula perde completamente sua função de defesa e se torna uma célula maligna cuja única atividade é proliferar. A multiplicação excessiva causa danos ao organismo, como Thiago explica.
Existem dois tipos de leucemias, sendo elas:
- Leucemias crônicas: surgem quando a célula ainda preserva parte da função original e se multiplica de forma mais lenta e gradual. Por isso, muitos casos evoluem de maneira silenciosa no início, permitindo que o organismo se adapte temporariamente à presença das células alteradas;
- Leucemias agudas: ocorrem quando a célula perde completamente a capacidade funcional e passa a se multiplicar de forma acelerada e desordenada. A medula rapidamente se enche de células imaturas e inúteis, que impedem a produção normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.
As leucemias agudas, por evoluírem em ritmo muito rápido, são quadros mais graves, com sintomas intensos desde o início — e exigem intervenção imediata para evitar complicações graves.
Outras doenças da medula óssea
Nem todos os problemas da medula óssea estão ligados ao excesso de proliferação celular. Na verdade, em quadros como mielofibrose, síndromes mielodisplásicas e algumas doenças mieloproliferativas, o que ocorre é uma falência progressiva da medula.
É como se o tecido sofresse um envelhecimento precoce: as células-tronco deixam de se multiplicar como deveriam ou passam a morrer mais rapidamente, comprometendo a produção normal das séries sanguíneas.
Quando a medula falha, o organismo começa a sentir sinais claros de desequilíbrio, como:
- Anemia: queda da produção de glóbulos vermelhos, causando cansaço intenso, palidez, tonturas e falta de ar mesmo em esforços leves;
- Redução da imunidade: diminuição dos glóbulos brancos, deixando o corpo mais vulnerável a infecções frequentes, graves ou de evolução rápida;
- Problemas de coagulação: queda no número de plaquetas, levando a sangramentos fáceis, manchas roxas sem motivo aparente e maior risco de hemorragias.
Linfomas
Os linfomas são cânceres que surgem nos linfonodos e no sistema linfático, afetando células de defesa chamadas linfócitos. Eles podem ser classificados em linfoma de Hodgkin e linfoma não Hodgkin, cada um com comportamentos e respostas ao tratamento diferentes.
Em muitos casos, a primeira abordagem envolve quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia, dependendo do subtipo e do estágio da doença.
O transplante de medula óssea costuma ser indicado quando o linfoma não responde totalmente ao tratamento inicial ou apresenta recaída após a primeira remissão. Nesses cenários, o transplante (autólogo ou alogênico) ajuda a restaurar uma medula saudável e intensifica as chances de controle prolongado da doença.
Como é feito o transplante de medula óssea?
O transplante é realizado em diversas etapas, desde o preparo do organismo até o acompanhamento prolongado após a infusão das células. Primeiro, é necessário entender se o procedimento será alogênico ou autólogo:
Transplante alogênico
No transplante alogênico, as células utilizadas vêm de outra pessoa — um familiar compatível ou alguém cadastrado no REDOME (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), um banco de dados financiado pelo Ministério da Saúde com informações de possíveis doadores para quem precisa de transplante de medula óssea.
O processo começa com exames que verificam a compatibilidade entre o sangue do doador e do paciente. A ideia é encontrar a combinação mais segura possível para diminuir o risco de rejeição e evitar que as células do doador ataquem órgãos do paciente.
Quando a compatibilidade está confirmada, o doador passa por um procedimento no centro cirúrgico, sob anestesia, e a coleta dura cerca de duas horas. O médico faz várias punções com agulhas na parte posterior da bacia para aspirar a medula óssea. A retirada não causa problemas para a saúde do doador, de acordo com Thiago Chadid.
Transplante autólogo
No transplante autólogo, o paciente recebe de volta as próprias células saudáveis da medula. As células-tronco são coletadas da medula ou do sangue do próprio paciente e passam por aférese, um processo de filtragem que separa apenas as células saudáveis. Depois da coleta, o material é armazenado até o momento do transplante.
Fase de condicionamento
Na etapa seguinte, antes da infusão das células, o paciente é submetido a uma quimioterapia de alta intensidade, capaz de destruir a medula doente e eliminar células comprometidas.
O período é conhecido como aplasia e, uma vez que a medula não está produzindo células, a pessoa fica extremamente vulnerável e apresenta risco elevado de infecções. Por isso, ela deve adotar cuidados muito rigorosos, como:
- Não consumir alimentos crus;
- Manter higiene minuciosa das mãos, do corpo e do ambiente;
- Permitir visitas apenas com uso de máscara;
- Permanecer em um espaço altamente protegido e livre de contaminantes.
Como a imunidade fica praticamente zerada, qualquer pequena ferida pode se transformar em porta de entrada para infecções graves. Até situações simples do dia a dia exigem atenção redobrada, já que o organismo não consegue responder de forma adequada durante essa fase.
Infusão das células-tronco
Após o tratamento, as células previamente coletadas, sejam elas do doador ou do próprio paciente, são infundidas pela veia, de maneira semelhante a uma transfusão de sangue. Elas percorrem a circulação até alcançar o interior dos ossos, onde se instalam, se multiplicam e retomam a produção de células do sangue.
O procedimento é indolor e não requer sala cirúrgica, já que as células entram pela corrente sanguínea e migram espontaneamente até a medula óssea, onde começam o processo de enxertia.
Período de pega da medula
A pega é a fase em que as células infundidas começam a se estabelecer no interior dos ossos e retomar a produção de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. O processo costuma levar de 10 a 30 dias, dependendo do tipo de transplante.
Durante o intervalo, o risco de infecções e complicações é elevado, porque o sistema imunológico ainda não está funcional. Assim, o paciente permanece sob vigilância diária, com uso de antibióticos, antivirais e suporte transfusional quando necessário.
Cuidados pós-transplante de medula óssea
Depois da fase de pega, é iniciada uma fase prolongada de acompanhamento médico. Em casos de transplante alogênico, é necessário identificar sinais de doença do enxerto contra o receptor (quando as células do doador atacam o corpo do receptor), ajustar imunossupressores e monitorar rejeição.
Quando o transplante é autólogo, o acompanhamento é voltado para recaídas, toxicidade dos medicamentos e recuperação hematológica.
O paciente precisa manter consultas frequentes, evitar contato com agentes infecciosos, seguir rigorosamente a prescrição de remédios e adaptar alimentação, hidratação e rotina às orientações do médico.
A recuperação completa do sistema imunológico pode levar meses ou até anos — a velocidade varia muito de pessoa para pessoa e depende do tratamento específico e do estado geral de saúde do paciente.
Nesse período, vacinas são reorganizadas, exames são repetidos regularmente e qualquer sinal de infecção ou inflamação deve ser investigado. Com o tempo, o organismo volta a produzir células de defesa de forma adequada, restaurando o funcionamento saudável da medula óssea.
Quais os possíveis riscos para o paciente e para o doador?
No caso do paciente, os principais riscos surgem durante o período em que a medula deixa de funcionar após o preparo para o transplante. Com a queda da imunidade, a pessoa fica mais suscetível a infecções e precisa de monitoramento constante.
Além disso, após a infusão das novas células, pode ocorrer uma reação em que as novas células reconhecem alguns tecidos do receptor como estranhos. A complicação, conhecida como doença enxerto contra hospedeiro, varia de intensidade e costuma ser controlada com o uso de medicamentos específicos.
A rejeição do transplante é pouco frequente, mas pode acontecer. Por isso, a seleção cuidadosa do doador e o preparo adequado do paciente são etapas fundamentais.
Para o doador, os riscos são muito baixos. A medula retirada se regenera naturalmente em poucas semanas, sem problemas à saúde geral. Antes da coleta, a pessoa passa por uma avaliação clínica detalhada para garantir segurança durante a anestesia e o procedimento.
Após a doação, podem surgir desconfortos temporários, como dor na região da bacia, cansaço leve ou dor de cabeça, sintomas que costumam melhorar rapidamente com analgésicos simples.
É possível curar doenças com transplante de medula óssea?
A chance de cura varia conforme o tipo da doença, a compatibilidade do doador, a idade e o estado de saúde da pessoa. Em alguns casos, o transplante pode realmente levar à cura, e em outros, ajuda a controlar a doença por muitos anos, mantendo o quadro estável e permitindo boa qualidade de vida.
No mieloma múltiplo, por exemplo, muitos pacientes vivem por décadas realizando transplantes em momentos específicos do tratamento. Já certas leucemias têm maior chance de cura quando o transplante é feito cedo, antes que a doença avance.
A dificuldade está em eliminar totalmente todas as células doentes, porque mesmo após tratamentos intensos algumas podem permanecer no organismo, levando a recaídas em parte dos casos.
Como se tornar um doador de medula óssea?
Para se tornar doador de medula óssea, o caminho é simples, seguro e muito mais rápido do que você imagina. O cadastro é feito no REDOME, banco oficial brasileiro que reúne milhões de doadores em potencial. A partir do cadastro, os dados são cruzados sempre que um paciente precisa de um transplante e busca-se alguém compatível.
Mas quem pode ser doador? As principais recomendações incluem:
- Ter entre 18 e 35 anos (a idade limite para se cadastrar é 35 anos, porque doadores mais jovens oferecem melhor qualidade celular). Após o cadastro, o doador pode ser convocado para doação até completar 60 anos de idade;
- Estar em boa saúde, sem doenças infecciosas transmissíveis ou condições que impeçam a doação;
- Não ter histórico de câncer, doenças hematológicas, hepatites crônicas, HIV, entre outras contraindicações semelhantes às da doação de sangue.
Depois do cadastro, são retirados cerca de 5 a 10 ml de sangue, o suficiente para realizar a tipagem HLA, que identifica características genéticas usadas para comparar com possíveis receptores. Depois da análise, seus dados entram no banco de doadores. A partir desse momento, você pode ser chamado a qualquer momento caso apareça alguém compatível.
Quanto maior for o número de doadores cadastrados, maior será a possibilidade de alguém encontrar uma medula compatível e, com isso, ter acesso a um tratamento que realmente pode mudar o rumo de uma doença grave. Muitas vezes, o transplante é a única esperança de quem está lutando contra leucemias, mielomas e outras alterações que impedem o organismo de produzir células saudáveis.
Para muitas famílias, a ligação do REDOME confirmando um doador compatível significa alívio, esperança e a possibilidade real de continuar. Por isso, é muito importante informar, desmistificar medos e incentivar o cadastro. Quando mais pessoas se dispõem a participar, mais vidas podem ser salvas.
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Perguntas frequentes
Quais são os tipos de doação de medula óssea?
A doação pode ocorrer pela bacia, onde se encontram as maiores concentrações de células-tronco, ou pela circulação periférica, quando medicamentos estimulam a migração dessas células para o sangue. O método é escolhido pela equipe médica de acordo com as necessidades do transplante.
No caso da coleta por aférese, o doador recebe medicamento que estimula as células-tronco durante alguns dias. Depois, ele fica conectado a uma máquina de aférese que retira apenas as células desejadas e devolve o restante. É semelhante a uma doação de sangue prolongada. A recuperação é praticamente imediata.
Doar medula dói?
Quando a coleta ocorre pela bacia, o doador recebe anestesia e não sente dor durante o procedimento. Depois, pode surgir desconforto leve, semelhante a uma contusão, que melhora em poucos dias.
A coleta por aférese provoca sensação de pressão óssea por causa do medicamento que estimula a liberação das células-tronco, mas, novamente, é uma sensação temporária. A experiência costuma ser bastante tranquila.
Onde fazer o cadastro para se tornar doador de medula óssea?
O cadastro é realizado em hemocentros públicos e unidades credenciadas ao REDOME. O processo inclui preenchimento de ficha e coleta de pequena amostra de sangue para análise do perfil genético. Em menos de meia hora, a pessoa conclui tudo.
O que significa “aplasia” durante o transplante de medula óssea?
A aplasia corresponde ao período em que a medula fica totalmente inativa depois da quimioterapia preparatória. Durante alguns dias, o organismo não produz hemácias, plaquetas ou glóbulos brancos — então a pessoa fica extremamente vulnerável a infecções, sangramentos e cansaço intenso.
Todas as medidas de proteção são reforçadas: alimentação cozida, higiene rigorosa, ambiente controlado, uso de máscara, restrição de visitas e monitorização constante. É um período bem delicado, mas temporário, até que as novas células iniciem a regeneração.
O transplante sempre cura?
Não, o transplante pode curar quando a doença é controlada previamente, a carga tumoral está baixa e o organismo recebe células altamente compatíveis. Em outras situações, o transplante controla o avanço da doença, prolonga a sobrevida e melhora a qualidade de vida. Mesmo quando não existe cura completa, o transplante pode oferecer muitos anos de estabilidade e retorno às atividades.
O doador de medula óssea paga alguma coisa?
O doador de medula óssea não paga por nada! O sistema de saúde cobre exames, coleta, transporte e todo o processo. O compromisso do doador é apenas a disponibilidade.
Posso desistir depois de ser chamado?
Tecnicamente sim, mas é importante lembrar que, quando alguém é convocado, há uma pessoa do outro lado aguardando um transplante urgente. Em muitos casos, é a única chance de tratamento, então a decisão de se cadastrar deve ser consciente e responsável.
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