Autor: Dr. Thiago Chadid

  • ‘Tinha 34 anos e descobri num exame de rotina’: uma jornada contra o câncer de mama

    ‘Tinha 34 anos e descobri num exame de rotina’: uma jornada contra o câncer de mama

    O diagnóstico de câncer de mama em mulheres com menos de 40 anos ainda é considerado raro, correspondendo a cerca de 10% dos casos registrados no Brasil. Por isso, muitas vezes o susto é ainda maior — afinal, é uma fase da vida em que a rotina, os planos e o corpo estão em plena atividade.

    Foi nesse cenário que Rebeca Torres, aos 34 anos, descobriu o câncer de mama durante um exame de rotina, algo que ela sempre manteve por precaução, já que sua avó também havia enfrentado a doença.

    Ela fazia acompanhamentos regulares com o ginecologista e, em uma consulta de rotina, a médica identificou uma alteração no ultrassom. O pedido de uma mamografia imediata revelou um tumor de apenas um centímetro, imperceptível ao toque.

    “Isso é algo que eu sempre falo para as mulheres que eu conheço, as minhas amigas, da importância do exame e de ir ao médico — e não só do autoexame. Porque, no meu caso, mesmo diagnosticada, não dava para saber. Então o exame foi essencial”, conta Rebeca.

    O autoexame das mamas é uma prática simples em que a mulher observa e toca os próprios seios para conhecer melhor o corpo e perceber possíveis alterações, como nódulos, retrações ou secreções. Apesar de ser importante para o autoconhecimento, ele não substitui os exames de rastreamento, como a mamografia, já que nem sempre um tumor é palpável, especialmente nos estágios iniciais.

    O tratamento de câncer de mama e o recomeço

    A partir do diagnóstico, Rebeca iniciou um plano de tratamento completo. Foi submetida a uma cirurgia conservadora, na qual retirou o quadrante da mama afetada, seguida por quatro sessões de quimioterapia e 25 sessões de radioterapia.

    A quimioterapia é um tratamento realizado com medicamentos que circulam pelo sangue e ajudam a eliminar possíveis células cancerígenas remanescentes após a cirurgia. Já a radioterapia utiliza radiação em doses controladas para destruir células doentes que ainda possam estar presentes na região da mama, reduzindo o risco de recidiva.

    O processo foi desgastante, mas Rebeca encontrou formas de lidar com os efeitos colaterais, como a queda de cabelo.

    “Eu não perdi 100% do cabelo porque fiz a crioterapia, aquela touca geladinha. Dói muito, é um processo bem desgastante, mas foi tudo bem”, relata.

    A crioterapia consiste em resfriar o couro cabeludo durante a quimioterapia. O frio provoca contração dos vasos sanguíneos, reduzindo a quantidade de medicamento que chega aos folículos capilares e diminuindo a queda de cabelo.

    Entendendo o tipo de câncer

    Rebeca foi diagnosticada com o tipo Luminal A — um subtipo considerado menos agressivo, por ser hormonalmente dependente. Isso significa que o crescimento do tumor estava relacionado aos hormônios femininos, como estrogênio e progesterona.

    É um tipo que costuma responder bem aos tratamentos hormonais, especialmente quando descoberto precocemente.

    Ela iniciou o uso de medicamentos como o Zoladex já no primeiro dia da quimioterapia. O fármaco bloqueia a ação dos hormônios e impede que substâncias do próprio corpo estimulem o crescimento das células tumorais. Aos 34 anos, entrou em menopausa induzida.

    “Os médicos falam: se você entrar na menopausa por conta da quimioterapia, não retorna mais [o ciclo menstrual], mesmo depois que parar o tratamento. Se você ficar menopausada por conta da medicação, há uma chance de voltar depois”, conta.

    Antes de iniciar o tratamento, Rebeca congelou os óvulos como medida de preservação da fertilidade.

    “Eu não queria ter filhos antes, mas eles recomendaram, é importante. A gente não sabe o dia de amanhã”, diz.

    Um grande milagre (e vitória) na vida de Rebeca

    Depois de concluir o tratamento e seguir com medicação contínua, Rebeca se casou e, com orientação médica, fez uma pausa temporária para tentar engravidar.

    “Eu parei a medicação por um tempo de pelo menos 6 meses, sem o tamoxifeno, para poder tirar do corpo e começar o processo para engravidar. Acabou que eu não precisei fazer fertilização, e engravidei naturalmente. Foi uma super vitória para mim”, relata.

    A gestação foi saudável, acompanhada de perto pelos médicos. Rebeca deu à luz um menino, que hoje tem dois anos. Ela conseguiu amamentar por seis meses com a mama que não foi operada.

    Após esse período, retomou o tratamento com tamoxifeno e Zoladex, agora associado a um inibidor de aromatase.

    Os desafios da menopausa precoce (e do tratamento)

    No tratamento de câncer de mama, a combinação de medicamentos pode levar o corpo a um estado semelhante à menopausa. Sintomas como ondas de calor, insônia, irritabilidade e alterações de humor tornam-se frequentes.

    “A mulher que teve tumor ginecológico, que tem a menopausa precoce, passa por uma série de desafios. Nada é mais desafiador que o câncer, mas a qualidade de vida muda — o sono, a vida, o humor, a disposição, tudo”, explica Rebeca.

    Durante a quimioterapia, ela enfrentou dores ósseas e fraqueza. Com o tempo, retomou gradualmente suas atividades.

    “Ficar um ano em tratamento, para mim, foi bem desafiador. Tinha dias bons, tinha ruins, tinha dias sem sintomas, dias com sintoma. É muito comum você ouvir um paciente de câncer falar que a vida é outra”, conta.

    Por fim, a vontade de viver e aproveitar cada momento

    Rebeca afirma que o diagnóstico mudou sua forma de enxergar a vida. Passou a valorizar mais o tempo, a família e as experiências.

    “Cada paciente pode ver de uma forma, mas me trouxe muito mais alegria em viver e muito mais disposição para aproveitar tudo o que ainda tenho”, relata.

    Durante o tratamento, fez uma lista de sonhos e experiências que gostaria de viver. Muitos já foram realizados — e novos continuam sendo adicionados.

    Leia também: Câncer de mama: o que é, sintomas, causa e como identificar

    Quando o rastreamento de câncer de mama deve começar?

    A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda mamografia anual a partir dos 40 anos. Já o Ministério da Saúde orienta:

    • 40 a 49 anos: exame disponível mediante solicitação médica;
    • 50 a 74 anos: mamografia a cada dois anos, mesmo sem sintomas;
    • Acima de 74 anos: decisão individualizada.

    Quando há alterações suspeitas (como BI-RADS 3), pode ser indicada repetição do exame em seis meses para acompanhamento.

    Mulheres com histórico familiar de primeiro grau devem iniciar o rastreamento dez anos antes da idade em que o familiar recebeu o diagnóstico.

    Quanto tempo deve durar o acompanhamento?

    Após o tratamento, o tempo de acompanhamento depende do subtipo do tumor.

    Casos HER2 positivo ou triplo negativo costumam ser monitorados por cerca de cinco anos. Já tumores com receptores hormonais positivos podem exigir acompanhamento prolongado, pois o risco de recidiva pode existir mesmo após 10 ou 20 anos.

    Consultas regulares e exames periódicos são fundamentais para garantir controle e qualidade de vida.

    Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos

  • Transplante de medula óssea: como é feito e quando é indicado

    Transplante de medula óssea: como é feito e quando é indicado

    Utilizada quando o organismo perde a capacidade de produzir células do sangue de maneira saudável, o transplante de medula óssea é uma alternativa para tratar doenças que comprometem o funcionamento da medula, como leucemias, mieloma múltiplo e falhas graves na produção celular.

    Mas afinal, o que é medula óssea? Ela consiste em um tecido esponjoso localizado no interior dos ossos, conhecido como tutano, responsável por fabricar glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Segundo o oncologista Thiago Chadid, é ali que vivem as células-tronco hematopoéticas, capazes de dar origem a todas as células sanguíneas que garantem oxigenação adequada, defesa contra infecções e coagulação.

    Quando acontece algum defeito na produção das células, o corpo perde a capacidade de manter as suas funções vitais. Com o transplante, é possível substituir células doentes por células saudáveis, permitindo que o corpo volte a fabricar glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas de forma equilibrada. Entenda mais, a seguir!

    O que é o transplante de medula óssea e quando é indicado?

    O transplante de medula óssea é um procedimento utilizado quando a medula perde a capacidade de produzir células do sangue de forma adequada. De acordo com o Ministério da Saúde, a proposta é substituir uma medula doente ou insuficiente por células saudáveis, capazes de restaurar a produção normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

    O tratamento pode ser feito de duas maneiras:

    • No transplante autogênico, utilizam-se células saudáveis do próprio paciente, coletadas e preservadas antes da etapa de quimioterapia de alta intensidade;
    • No transplante alogênico, as células vêm de um doador compatível, que pode ser um familiar ou alguém inscrito no registro nacional de doadores.

    A indicação surge em doenças que comprometem de forma profunda o funcionamento da medula, como anemia aplástica grave, síndromes mielodisplásicas e diversos tipos de leucemias, nas quais há alteração da função e do ritmo de crescimento dos leucócitos.

    De acordo com Thiago, o tratamento funciona como um “reset”, semelhante a reiniciar um computador, substituindo a medula comprometida por uma medula saudável.

    Quanto o transplante de medula óssea é indicado?

    O transplante de medula óssea é indicado quando a medula perde a capacidade de produzir células sanguíneas de forma adequada, seja por proliferação descontrolada, seja por falência progressiva. Segundo Thiago, ao lembrarmos que as células-tronco da medula dão origem a todos os tipos de células do sangue, é mais fácil compreender por que alterações nesse processo podem desencadear doenças graves.

    Uma mutação que interfere na diferenciação celular pode gerar células defeituosas, incapazes de exercer suas funções. Em muitos casos, isso resulta no surgimento de cânceres que se originam na própria medula óssea.

    Segundo o oncologista, em alguns casos, o transplante é feito com intenção curativa, buscando eliminar totalmente a doença. Em outros, o objetivo é controle dos sintomas, principalmente quando a medula está muito hiperprodutiva e provoca excesso de células doentes. Nessas situações, o transplante reduz a população de células malignas, melhora o bem-estar e prolonga a vida do paciente, mesmo que a cura definitiva não seja possível.

    Entre algumas das principais indicações de transplante de medula óssea, destacamos:

    Mieloma múltiplo

    O mieloma múltiplo é um tumor originado nas células responsáveis pela produção de imunoglobulinas, como o IgG. Uma mutação faz com que as células deixem de produzir anticorpos funcionais e passem a fabricar proteínas defeituosas, que não têm utilidade e se acumulam na corrente sanguínea, segundo Thiago.

    O excesso provoca sobrecarga nos rins e nos vasos, além de favorecer a proliferação desordenada dessas células dentro dos ossos, levando à corrosão óssea e a quadros de dor e fragilidade. É um processo resultante de uma diferenciação celular defeituosa, que gera uma proteína inútil e perda de função imunológica.

    Leucemias

    As leucemias são tumores que surgem quando há falha na diferenciação das células brancas: um neutrófilo, que deveria combater bactérias, ou um linfócito, que deveria combater vírus, passa a se desenvolver de forma anormal.

    A célula perde completamente sua função de defesa e se torna uma célula maligna cuja única atividade é proliferar. A multiplicação excessiva causa danos ao organismo, como Thiago explica.

    Existem dois tipos de leucemias, sendo elas:

    • Leucemias crônicas: surgem quando a célula ainda preserva parte da função original e se multiplica de forma mais lenta e gradual. Por isso, muitos casos evoluem de maneira silenciosa no início, permitindo que o organismo se adapte temporariamente à presença das células alteradas;
    • Leucemias agudas: ocorrem quando a célula perde completamente a capacidade funcional e passa a se multiplicar de forma acelerada e desordenada. A medula rapidamente se enche de células imaturas e inúteis, que impedem a produção normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

    As leucemias agudas, por evoluírem em ritmo muito rápido, são quadros mais graves, com sintomas intensos desde o início — e exigem intervenção imediata para evitar complicações graves.

    Outras doenças da medula óssea

    Nem todos os problemas da medula óssea estão ligados ao excesso de proliferação celular. Na verdade, em quadros como mielofibrose, síndromes mielodisplásicas e algumas doenças mieloproliferativas, o que ocorre é uma falência progressiva da medula.

    É como se o tecido sofresse um envelhecimento precoce: as células-tronco deixam de se multiplicar como deveriam ou passam a morrer mais rapidamente, comprometendo a produção normal das séries sanguíneas.

    Quando a medula falha, o organismo começa a sentir sinais claros de desequilíbrio, como:

    • Anemia: queda da produção de glóbulos vermelhos, causando cansaço intenso, palidez, tonturas e falta de ar mesmo em esforços leves;
    • Redução da imunidade: diminuição dos glóbulos brancos, deixando o corpo mais vulnerável a infecções frequentes, graves ou de evolução rápida;
    • Problemas de coagulação: queda no número de plaquetas, levando a sangramentos fáceis, manchas roxas sem motivo aparente e maior risco de hemorragias.

    Linfomas

    Os linfomas são cânceres que surgem nos linfonodos e no sistema linfático, afetando células de defesa chamadas linfócitos. Eles podem ser classificados em linfoma de Hodgkin e linfoma não Hodgkin, cada um com comportamentos e respostas ao tratamento diferentes.

    Em muitos casos, a primeira abordagem envolve quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia, dependendo do subtipo e do estágio da doença.

    O transplante de medula óssea costuma ser indicado quando o linfoma não responde totalmente ao tratamento inicial ou apresenta recaída após a primeira remissão. Nesses cenários, o transplante (autólogo ou alogênico) ajuda a restaurar uma medula saudável e intensifica as chances de controle prolongado da doença.

    Como é feito o transplante de medula óssea?

    O transplante é realizado em diversas etapas, desde o preparo do organismo até o acompanhamento prolongado após a infusão das células. Primeiro, é necessário entender se o procedimento será alogênico ou autólogo:

    Transplante alogênico

    No transplante alogênico, as células utilizadas vêm de outra pessoa — um familiar compatível ou alguém cadastrado no REDOME (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), um banco de dados financiado pelo Ministério da Saúde com informações de possíveis doadores para quem precisa de transplante de medula óssea.

    O processo começa com exames que verificam a compatibilidade entre o sangue do doador e do paciente. A ideia é encontrar a combinação mais segura possível para diminuir o risco de rejeição e evitar que as células do doador ataquem órgãos do paciente.

    Quando a compatibilidade está confirmada, o doador passa por um procedimento no centro cirúrgico, sob anestesia, e a coleta dura cerca de duas horas. O médico faz várias punções com agulhas na parte posterior da bacia para aspirar a medula óssea. A retirada não causa problemas para a saúde do doador, de acordo com Thiago Chadid.

    Transplante autólogo

    No transplante autólogo, o paciente recebe de volta as próprias células saudáveis da medula. As células-tronco são coletadas da medula ou do sangue do próprio paciente e passam por aférese, um processo de filtragem que separa apenas as células saudáveis. Depois da coleta, o material é armazenado até o momento do transplante.

    Fase de condicionamento

    Na etapa seguinte, antes da infusão das células, o paciente é submetido a uma quimioterapia de alta intensidade, capaz de destruir a medula doente e eliminar células comprometidas.

    O período é conhecido como aplasia e, uma vez que a medula não está produzindo células, a pessoa fica extremamente vulnerável e apresenta risco elevado de infecções. Por isso, ela deve adotar cuidados muito rigorosos, como:

    • Não consumir alimentos crus;
    • Manter higiene minuciosa das mãos, do corpo e do ambiente;
    • Permitir visitas apenas com uso de máscara;
    • Permanecer em um espaço altamente protegido e livre de contaminantes.

    Como a imunidade fica praticamente zerada, qualquer pequena ferida pode se transformar em porta de entrada para infecções graves. Até situações simples do dia a dia exigem atenção redobrada, já que o organismo não consegue responder de forma adequada durante essa fase.

    Infusão das células-tronco

    Após o tratamento, as células previamente coletadas, sejam elas do doador ou do próprio paciente, são infundidas pela veia, de maneira semelhante a uma transfusão de sangue. Elas percorrem a circulação até alcançar o interior dos ossos, onde se instalam, se multiplicam e retomam a produção de células do sangue.

    O procedimento é indolor e não requer sala cirúrgica, já que as células entram pela corrente sanguínea e migram espontaneamente até a medula óssea, onde começam o processo de enxertia.

    Período de pega da medula

    A pega é a fase em que as células infundidas começam a se estabelecer no interior dos ossos e retomar a produção de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. O processo costuma levar de 10 a 30 dias, dependendo do tipo de transplante.

    Durante o intervalo, o risco de infecções e complicações é elevado, porque o sistema imunológico ainda não está funcional. Assim, o paciente permanece sob vigilância diária, com uso de antibióticos, antivirais e suporte transfusional quando necessário.

    Cuidados pós-transplante de medula óssea

    Depois da fase de pega, é iniciada uma fase prolongada de acompanhamento médico. Em casos de transplante alogênico, é necessário identificar sinais de doença do enxerto contra o receptor (quando as células do doador atacam o corpo do receptor), ajustar imunossupressores e monitorar rejeição.

    Quando o transplante é autólogo, o acompanhamento é voltado para recaídas, toxicidade dos medicamentos e recuperação hematológica.

    O paciente precisa manter consultas frequentes, evitar contato com agentes infecciosos, seguir rigorosamente a prescrição de remédios e adaptar alimentação, hidratação e rotina às orientações do médico.

    A recuperação completa do sistema imunológico pode levar meses ou até anos — a velocidade varia muito de pessoa para pessoa e depende do tratamento específico e do estado geral de saúde do paciente.

    Nesse período, vacinas são reorganizadas, exames são repetidos regularmente e qualquer sinal de infecção ou inflamação deve ser investigado. Com o tempo, o organismo volta a produzir células de defesa de forma adequada, restaurando o funcionamento saudável da medula óssea.

    Quais os possíveis riscos para o paciente e para o doador?

    No caso do paciente, os principais riscos surgem durante o período em que a medula deixa de funcionar após o preparo para o transplante. Com a queda da imunidade, a pessoa fica mais suscetível a infecções e precisa de monitoramento constante.

    Além disso, após a infusão das novas células, pode ocorrer uma reação em que as novas células reconhecem alguns tecidos do receptor como estranhos. A complicação, conhecida como doença enxerto contra hospedeiro, varia de intensidade e costuma ser controlada com o uso de medicamentos específicos.

    A rejeição do transplante é pouco frequente, mas pode acontecer. Por isso, a seleção cuidadosa do doador e o preparo adequado do paciente são etapas fundamentais.

    Para o doador, os riscos são muito baixos. A medula retirada se regenera naturalmente em poucas semanas, sem problemas à saúde geral. Antes da coleta, a pessoa passa por uma avaliação clínica detalhada para garantir segurança durante a anestesia e o procedimento.

    Após a doação, podem surgir desconfortos temporários, como dor na região da bacia, cansaço leve ou dor de cabeça, sintomas que costumam melhorar rapidamente com analgésicos simples.

    É possível curar doenças com transplante de medula óssea?

    A chance de cura varia conforme o tipo da doença, a compatibilidade do doador, a idade e o estado de saúde da pessoa. Em alguns casos, o transplante pode realmente levar à cura, e em outros, ajuda a controlar a doença por muitos anos, mantendo o quadro estável e permitindo boa qualidade de vida.

    No mieloma múltiplo, por exemplo, muitos pacientes vivem por décadas realizando transplantes em momentos específicos do tratamento. Já certas leucemias têm maior chance de cura quando o transplante é feito cedo, antes que a doença avance.

    A dificuldade está em eliminar totalmente todas as células doentes, porque mesmo após tratamentos intensos algumas podem permanecer no organismo, levando a recaídas em parte dos casos.

    Como se tornar um doador de medula óssea?

    Para se tornar doador de medula óssea, o caminho é simples, seguro e muito mais rápido do que você imagina. O cadastro é feito no REDOME, banco oficial brasileiro que reúne milhões de doadores em potencial. A partir do cadastro, os dados são cruzados sempre que um paciente precisa de um transplante e busca-se alguém compatível.

    Mas quem pode ser doador? As principais recomendações incluem:

    • Ter entre 18 e 35 anos (a idade limite para se cadastrar é 35 anos, porque doadores mais jovens oferecem melhor qualidade celular). Após o cadastro, o doador pode ser convocado para doação até completar 60 anos de idade;
    • Estar em boa saúde, sem doenças infecciosas transmissíveis ou condições que impeçam a doação;
    • Não ter histórico de câncer, doenças hematológicas, hepatites crônicas, HIV, entre outras contraindicações semelhantes às da doação de sangue.

    Depois do cadastro, são retirados cerca de 5 a 10 ml de sangue, o suficiente para realizar a tipagem HLA, que identifica características genéticas usadas para comparar com possíveis receptores. Depois da análise, seus dados entram no banco de doadores. A partir desse momento, você pode ser chamado a qualquer momento caso apareça alguém compatível.

    Quanto maior for o número de doadores cadastrados, maior será a possibilidade de alguém encontrar uma medula compatível e, com isso, ter acesso a um tratamento que realmente pode mudar o rumo de uma doença grave. Muitas vezes, o transplante é a única esperança de quem está lutando contra leucemias, mielomas e outras alterações que impedem o organismo de produzir células saudáveis.

    Para muitas famílias, a ligação do REDOME confirmando um doador compatível significa alívio, esperança e a possibilidade real de continuar. Por isso, é muito importante informar, desmistificar medos e incentivar o cadastro. Quando mais pessoas se dispõem a participar, mais vidas podem ser salvas.

    Leia também: Entenda mais sobre a leucemia

    Perguntas frequentes

    Quais são os tipos de doação de medula óssea?

    A doação pode ocorrer pela bacia, onde se encontram as maiores concentrações de células-tronco, ou pela circulação periférica, quando medicamentos estimulam a migração dessas células para o sangue. O método é escolhido pela equipe médica de acordo com as necessidades do transplante.

    No caso da coleta por aférese, o doador recebe medicamento que estimula as células-tronco durante alguns dias. Depois, ele fica conectado a uma máquina de aférese que retira apenas as células desejadas e devolve o restante. É semelhante a uma doação de sangue prolongada. A recuperação é praticamente imediata.

    Doar medula dói?

    Quando a coleta ocorre pela bacia, o doador recebe anestesia e não sente dor durante o procedimento. Depois, pode surgir desconforto leve, semelhante a uma contusão, que melhora em poucos dias.

    A coleta por aférese provoca sensação de pressão óssea por causa do medicamento que estimula a liberação das células-tronco, mas, novamente, é uma sensação temporária. A experiência costuma ser bastante tranquila.

    Onde fazer o cadastro para se tornar doador de medula óssea?

    O cadastro é realizado em hemocentros públicos e unidades credenciadas ao REDOME. O processo inclui preenchimento de ficha e coleta de pequena amostra de sangue para análise do perfil genético. Em menos de meia hora, a pessoa conclui tudo.

    O que significa “aplasia” durante o transplante de medula óssea?

    A aplasia corresponde ao período em que a medula fica totalmente inativa depois da quimioterapia preparatória. Durante alguns dias, o organismo não produz hemácias, plaquetas ou glóbulos brancos — então a pessoa fica extremamente vulnerável a infecções, sangramentos e cansaço intenso.

    Todas as medidas de proteção são reforçadas: alimentação cozida, higiene rigorosa, ambiente controlado, uso de máscara, restrição de visitas e monitorização constante. É um período bem delicado, mas temporário, até que as novas células iniciem a regeneração.

    O transplante sempre cura?

    Não, o transplante pode curar quando a doença é controlada previamente, a carga tumoral está baixa e o organismo recebe células altamente compatíveis. Em outras situações, o transplante controla o avanço da doença, prolonga a sobrevida e melhora a qualidade de vida. Mesmo quando não existe cura completa, o transplante pode oferecer muitos anos de estabilidade e retorno às atividades.

    O doador de medula óssea paga alguma coisa?

    O doador de medula óssea não paga por nada! O sistema de saúde cobre exames, coleta, transporte e todo o processo. O compromisso do doador é apenas a disponibilidade.

    Posso desistir depois de ser chamado?

    Tecnicamente sim, mas é importante lembrar que, quando alguém é convocado, há uma pessoa do outro lado aguardando um transplante urgente. Em muitos casos, é a única chance de tratamento, então a decisão de se cadastrar deve ser consciente e responsável.

    Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos

  • Está em tratamento contra o câncer? Saiba como lidar com os efeitos colaterais

    Está em tratamento contra o câncer? Saiba como lidar com os efeitos colaterais

    A experiência do tratamento oncológico costuma provocar mudanças físicas e emocionais que afetam o cotidiano, a rotina de trabalho, a relação com o corpo e até mesmo a forma como a pessoa lida com emoções internas e expectativas.

    Os efeitos colaterais, tanto da quimioterapia quanto da radioterapia, podem surgir de formas diferentes para cada paciente, porque cada tratamento age no organismo de um jeito próprio. Ainda assim, existem alguns cuidados que podem ajudar a reduzir o desconforto, acolher as necessidades do corpo e tornar o processo mais leve — oferecendo mais qualidade de vida para uma fase tão delicada.

    Conversamos com o oncologista Thiago Chadid para entender quais os principais efeitos colaterais que podem surgir nas principais terapias oncológicas e como é possível amenizá-las.

    Quais são os efeitos colaterais mais comuns no tratamento contra o câncer?

    Os efeitos colaterais podem variar de acordo com o método utilizado, já que cada modalidade de tratamento oncológico interfere no organismo de um jeito particular.

    Quimioterapia

    A quimioterapia utiliza medicamentos capazes de destruir células tumorais ou impedir que continuem se multiplicando. Eles circulam pelo sangue e alcançam diferentes partes do corpo, o que permite atuar tanto no local do tumor quanto em áreas onde possam existir células malignas microscópicas.

    Como a quimioterapia atua em células que se multiplicam rapidamente, ela pode atingir também estruturas saudáveis de renovação acelerada, como folículos capilares, intestino e medula óssea, o que explica diversos efeitos colaterais, como aponta Thiago Chadid:

    • Náuseas e vômitos;
    • Queda de cabelo;
    • Sensação de fraqueza;
    • Perda de massa muscular;
    • Diarreia ou prisão de ventre.

    Segundo o especialista, a sarcopenia (perda de massa muscular) é um dos grandes problemas associados à quimioterapia convencional, contribuindo para indisposição, fraqueza, cansaço e até comprometimento da imunidade e da sobrevida.

    Radioterapia

    A radioterapia aplica radiação em doses controladas para eliminar células tumorais ou bloquear sua capacidade de continuar se multiplicando. A radiação é direcionada de forma precisa para a área afetada, preservando ao máximo os tecidos saudáveis ao redor.

    Basicamente, as células cancerígenas têm maior dificuldade de reparar danos no DNA. Quando recebem a radiação, elas acumulam lesões que levam à morte celular. Já as células normais conseguem se recuperar mais facilmente, o que torna o tratamento possível.

    Os efeitos colaterais da radioterapia variam conforme a região tratada, a dose utilizada e as características individuais de cada paciente. Mas, segundo o Ministério da Saúde, o paciente pode apresentar:

    • Descamação, escurecimento e vermelhidão da pele na área tratada, principalmente em dobras como pescoço e virilha;
    • Queda de pelos na região irradiada;
    • Náuseas;
    • Diarreia ou prisão de ventre;
    • Mucosite (inflamação de mucosas);
    • Dificuldade para engolir;
    • Alterações de fertilidade, conforme a região tratada.

    Imunoterapia

    A imunoterapia é um tipo de tratamento que estimula o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais. Em vez de atacar diretamente o câncer, como ocorre na quimioterapia, a imunoterapia fortalece ou direciona as defesas naturais do organismo para que identifiquem o tumor como uma ameaça e passem a combatê-lo de maneira mais eficaz.

    Existem diferentes formas de imunoterapia, como anticorpos monoclonais, inibidores de checkpoint imunológico, vacinas terapêuticas e células modificadas em laboratório.

    Por estimular respostas inflamatórias, a imunoterapia pode provocar efeitos colaterais específicos em órgãos como intestino, pele, pulmões, rins e tireoide. Por isso, de acordo com Chadid, é necessário monitorar o risco de insuficiência renal por inflamação dos rins, alterações intestinais inflamatórias, tireoidite (que pode evoluir para hipotireoidismo), inflamação pancreática que pode levar ao diabetes e perda de proteína na urina.

    Não existe uma medida específica capaz de prevenir esses efeitos, além de orientações gerais como hidratação adequada e prática regular de atividade física.

    Hormonioterapia

    A hormonioterapia é utilizada para combater tumores que dependem de hormônios para crescer, como alguns cânceres de mama e próstata, que têm células que se alimentam de estímulos hormonais — como estrogênio, progesterona ou testosterona, por exemplo. O tratamento atua justamente bloqueando a produção desses hormônios ou impedindo que eles se liguem às células tumorais.

    Como ele interfere nos níveis hormonais, os efeitos colaterais lembram os do climatério ou da menopausa, como ondas de calor, ressecamento, alterações de humor, cansaço e mudanças metabólicas.

    Terapias-alvo

    As terapias-alvo são medicamentos desenvolvidos para agir de forma precisa em alterações específicas presentes nas células tumorais. Em vez de atacar todas as células que se multiplicam rapidamente, as terapias-alvo miram estruturas, proteínas ou vias de crescimento que estão alteradas no câncer, poupando mais tecidos saudáveis.

    Elas podem bloquear receptores usados pelo tumor para crescer, impedir a formação de vasos sanguíneos que alimentam a massa tumoral, interromper sinais internos da célula cancerígena ou marcar células doentes para que o sistema imune as elimine. Para que funcionem, é necessário identificar a alteração genética ou molecular do tumor por meio de exames específicos.

    Os efeitos colaterais costumam ser mais brandos que os da quimioterapia, mas podem incluir fadiga, alterações de pele, diarreia, pressão alta e alterações no fígado, dependendo do alvo terapêutico. É uma das áreas que mais evoluiu na oncologia nos últimos anos.

    Como lidar com os efeitos colaterais do tratamento de câncer?

    Já ficou claro que os sintomas podem variar de acordo com o tipo de terapia, mas existem medidas gerais que melhoram o bem-estar e reduzem desconfortos. Thiago Chadid e o Ministério da Saúde apontam algumas das principais:

    Atividade física leve a moderada

    Quando é possível, a prática de atividades físicas leves a moderadas é recomendada para aliviar diversos efeitos colaterais do tratamento de câncer. O hábito de movimentar o corpo ajuda a reduzir fadiga, melhora a circulação, preserva a força muscular e contribui para regular o humor.

    Além de melhorar o condicionamento geral, a atividade física libera endorfinas, substâncias que promovem sensação de bem-estar e ajudam a controlar ansiedade e estresse, comuns durante o tratamento. A prática também favorece o sono, reduz dores musculares e facilita a recuperação após sessões de quimioterapia ou radioterapia.

    Quando existem limitações físicas ou a pessoa tem sintomas mais intensos, o treino deve ser adaptado por um profissional capacitado.

    Alimentação saudável

    Uma alimentação leve, rica em fibras e com boa ingestão de proteínas favorece a manutenção da energia, reduz o risco de sarcopenia e auxilia no funcionamento intestinal, diminuindo desconfortos como prisão de ventre ou diarreia.

    O ideal é dar preferência a alimentos com boa densidade proteica, como carnes magras, ovos, leguminosas, oleaginosas, leite e derivados, que ajudam a preservar massa muscular — além de frutas, verduras, água e preparações pouco gordurosas. Uma rotina alimentar equilibrada também contribui para melhorar o apetite, estabilizar o humor e manter o corpo hidratado, fatores importantes durante o tratamento.

    Para pacientes com náuseas frequentes ou perda de apetite, uma dica é fracionar refeições ao longo do dia, o que facilita a ingestão alimentar, evita longos períodos em jejum e reduz a irritação gástrica. Também pode ajudar manter líquidos entre as refeições, preferir chás suaves, optar por refeições mais secas quando há enjoo e evitar odores fortes.

    Vale lembrar que ter a supervisão de um nutricionista é sempre recomendado, principalmente quando há perda de peso, dificuldade para mastigar ou alterações intensas no paladar.

    Cuidados com o sono

    A qualidade do sono influencia diretamente o bem-estar físico e emocional, e é indispensável que ele seja restaurador durante o tratamento de câncer. O recomendado é estabelecer uma rotina regular de horários, manter o quarto silencioso e escuro, evitar telas antes de dormir e adotar hábitos calmantes, como banho morno ou leitura, que favorecem um descanso mais profundo.

    Quando o paciente apresenta um quadro de insônia persistente, o médico pode indicar remédios temporários para reorganizar o ciclo do sono. A melhora do repouso impacta positivamente o humor, a imunidade e a tolerância ao tratamento.

    Técnicas de meditação

    As técnicas de meditação e respiração guiada funcionam como práticas organizadas que ajudam a regular o corpo e as emoções, diminuindo o estresse e facilitando o controle dos sintomas.

    Elas podem ser realizadas em sessões curtas em casa, de cinco a quinze minutos, antes de dormir ou durante momentos de estresse. Além de auxiliarem no equilíbrio mental, técnicas como mindfulness colaboram para melhorar o sono, reduzir a tensão muscular e favorecer a adaptação às etapas do tratamento oncológico.

    Fitoterapia

    A fitoterapia pode ser integrada ao tratamento como medida complementar, sempre com avaliação médica ou de profissional habilitado. O uso de plantas medicinais e extratos padronizados pode ajudar no controle da ansiedade, no estímulo ao apetite, na qualidade do sono e no equilíbrio digestivo.

    O uso deve ser criterioso, já que podem acontecer interações com medicamentos oncológicos. Por isso, toda indicação precisa ser alinhada com a equipe responsável. Não se automedique!

    Outras medidas para aliviar os efeitos colaterais

    Além das indicações mais comuns, Thiago Chadid explica que, quanto aos tratamentos mais avançados, há diversas novidades que vêm sendo incorporadas para tornar os efeitos colaterais menos agressivos, reunindo tanto medicações que causam menos sintomas quanto protocolos que reduzem efeitos adversos.

    Além dos antieméticos tradicionais, como ondansetrona, proclorperazina e Plasil, hoje existem remédios que antes eram muito caros (como aprepitanto e fosaprepitanto) e que agora estão mais acessíveis, ajudando no controle das náuseas persistentes. Também há derivados de cannabis, como o cannabidiol, que podem ajudar a aumentar o apetite, reduzir náuseas e melhorar a sensação de dor.

    O oncologista também conta que existem medicações voltadas para reduzir efeitos colaterais da hormonioterapia. Na American Society of Clinical Oncology (ASCO), foram apresentados dois medicamentos utilizados nos Estados Unidos capazes de reduzir ondas de calor e mal-estar associados à menopausa induzida por tratamentos hormonais no câncer de mama.

    Apesar de ainda terem custo elevado, a expectativa é que se tornem mais acessíveis com o tempo, aumentando as possibilidades de condução do tratamento.

    Sinais que exigem atenção médica

    De acordo com Thiago, existem alguns sinais mais graves que devem ser comunicados ao médico imediatamente, como:

    • Febre ou sinais de infecção após a quimioterapia (mal-estar forte, cansaço extremo, secreção, diarreia com sangue);
    • Suspeita de trombose, com sintomas como inchaço repentino em peito, rosto, braço ou perna, com vermelhidão, dor ou endurecimento;
    • Sangramentos importantes, como urina com sangue, evacuação com sangue, sangramento nasal intenso, tosse ou vômito com sangue;
    • Sintomas de anemia forte, como fraqueza intensa, palidez, tontura, queda de pressão ou desmaio;
    • Diarreia intensa, mais de cinco episódios por dia, com muita perda de água, boca seca ou sangue em grande quantidade.

    Qualquer alteração que fuja do padrão explicado pelo médico na consulta deve ser comunicada rapidamente, pois muitos desses quadros podem evoluir com rapidez, sobretudo em períodos de baixa imunidade.

    Confira: Cura milagrosa do câncer? Veja por que você deve ter cuidado com fake news

    Perguntas frequentes

    A fadiga é normal durante o tratamento de câncer?

    Sim, a fadiga é um dos efeitos mais frequentes e pode ser física, mental ou emocional. Ela ocorre pela combinação de fatores como anemia, inflamação, alterações do sono, estresse psicológico e impacto direto dos tratamentos no metabolismo do corpo.

    Mesmo sendo comum, é importante contar aos profissionais, que podem orientar ajustes na rotina, pausas programadas, exercício leve e suporte nutricional para amenizar o cansaço.

    Por que o cabelo cai durante a quimioterapia?

    A queda de cabelo acontece porque as drogas quimioterápicas afetam células de crescimento rápido, incluindo as que formam os fios. A perda costuma começar de duas a três semanas após o início do tratamento e pode incluir sobrancelhas e pelos corporais.

    Apesar de causar impacto emocional significativo, a queda é temporária, e o cabelo costuma crescer novamente alguns meses após o fim das sessões. Em alguns casos, a crioterapia no couro cabeludo ajuda a reduzir o problema.

    A radioterapia sempre causa queimadura ou vermelhidão na pele?

    Nem sempre, mas é comum a pele pode ficar vermelha, sensível, ressecada ou escurecida na área irradiada, especialmente em regiões de dobra, como pescoço ou virilha. Os efeitos são limitados ao campo de radiação e costumam melhorar dentro de semanas após o término do tratamento.

    Algumas medidas podem ajudar a aliviar o desconforto, como cremes hidratantes, higiene adequada e orientações específicas da equipe de enfermagem.

    Os efeitos colaterais sempre aparecem logo no início do tratamento?

    Depende, pois enquanto alguns efeitos surgem nas primeiras horas ou dias, como náuseas e cansaço, outros aparecem após semanas de tratamento, como alterações de pele na radioterapia ou queda de cabelo na quimioterapia.

    Há ainda efeitos tardios, que podem surgir meses ou anos depois, dependendo do tipo de terapia.

    É possível evitar a queda de cabelo durante o tratamento?

    Em alguns casos, sim. O uso de crioterapia, que é o resfriamento do couro cabeludo durante a quimioterapia, pode reduzir a queda dos fios ao diminuir o fluxo de sangue na região. Entretanto, o método não funciona para todos os tipos de quimioterapia, de modo que o oncologista pode orientar sobre a aplicabilidade conforme o protocolo usado.

    O tratamento de câncer causa perda de peso?

    Sim, a perda de peso pode acontecer devido à redução do apetite, náuseas, alterações no paladar e aumento do gasto energético causado pela doença. A perda pode prejudicar a imunidade, a energia e os resultados do tratamento.

    Por isso, é importante ter a orientação de nutricionistas especializados em oncologia, que ajudam a montar planos alimentares de reposição calórica e proteica para prevenir agravamento do quadro.

    Veja mais: Radioterapia: o que é, como funciona e efeitos colaterais

  • Radioterapia: o que é, como funciona e efeitos colaterais

    Radioterapia: o que é, como funciona e efeitos colaterais

    Um dos métodos mais utilizados (e mais antigos) no tratamento do câncer, a radioterapia utiliza radiações ionizantes para destruir células tumorais ou impedir que elas continuem se multiplicando.

    Ela pode ser aplicada em diferentes fases do tratamento, antes ou depois da cirurgia — e também pode ser usada com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da pessoa. Entenda os principais detalhes sobre a terapia, a seguir.

    O que é radioterapia e como funciona?

    A radioterapia é um tipo de tratamento contra o câncer que utiliza radiação em doses controladas para destruir ou impedir o crescimento das células tumorais, atuando diretamente no DNA delas. Ela pode ser indicada sozinha ou em combinação com outras terapias, como cirurgia e quimioterapia, dependendo do tipo e do estágio do tumor.

    A aplicação da radioterapia é feita de forma direcionada, para atingir o tumor com máxima precisão e preservar ao máximo os tecidos saudáveis ao redor.

    De acordo com o oncologista Thiago Chadid, são aplicados vários feixes mais fracos, de diversos ângulos, apontando para o tumor. Esse é o princípio da radioterapia: criar um alvo 3D, onde os feixes se cruzam e concentram a radiação exatamente no tumor. Com o tempo, o próprio organismo elimina as células alteradas e o tumor reduz ou deixa de crescer.

    As sessões são programadas conforme a necessidade de cada caso e podem acontecer diariamente, ao longo de algumas semanas, seguindo a orientação do médico.

    Para que serve a radioterapia?

    A radioterapia pode ter objetivos diferentes no tratamento, conforme o tipo de tumor, o estágio da doença e o plano definido pelo médico. Ela pode ser usada de várias formas:

    • Curativa: quando a intenção é eliminar completamente as células cancerígenas e buscar a cura;
    • Adjuvante: aplicada depois da cirurgia, para destruir possíveis células que tenham ficado no local e diminuir a chance de recidiva;
    • Neoadjuvante: utilizada antes da cirurgia, para reduzir o tamanho do tumor e facilitar a remoção cirúrgica;
    • Paliativa: indicada quando o foco é aliviar sintomas causados pelo tumor, como dor, sangramento ou compressão de órgãos, melhorando a qualidade de vida da pessoa.

    Benefícios da radioterapia

    • Destrói as células tumorais diretamente na região afetada;
    • Ajuda a controlar o crescimento do tumor ao longo do tratamento;
    • Pode eliminar completamente o tumor em alguns casos específicos;
    • Reduz o risco de o câncer voltar após a cirurgia;
    • Pode diminuir o tamanho do tumor antes da cirurgia, facilitando a remoção;
    • Pode ser aplicada junto com outros tratamentos, como quimioterapia;
    • Alivia sintomas como dor, sangramento e compressão de órgãos em casos avançados.

    Como é feita a radiação?

    De acordo com a localização do tumor, a radioterapia pode ser feita de duas formas:

    Radioterapia externa

    A radioterapia externa é feita com um aparelho que fica fora do corpo, direcionando o feixe de radiação ao local do tumor. O paciente fica deitado na maca enquanto o equipamento é posicionado exatamente na área a ser tratada.

    Quando a radioterapia é na cabeça e no pescoço, uma máscara rígida é usada para manter a cabeça na mesma posição todos os dias. Em outras regiões, são feitas pequenas marcações na pele com tinta especial para garantir o posicionamento correto ao longo do tratamento.

    As etapas costumam incluir:

    • Consulta médica para definição do plano terapêutico;
    • Simulação e planejamento com exames de imagem;
    • Cálculos de física médica para ajuste da dose;
    • Aplicações diárias conforme o planejamento.

    Durante a aplicação, o paciente permanece sozinho na sala, mas é monitorado pela equipe por meio de câmeras e sistemas de comunicação.

    Braquiterapia

    A braquiterapia é uma forma de radioterapia em que a fonte de radiação é colocada dentro do corpo, próxima ao tumor, por meio de cateteres ou aplicadores. Em alguns casos, é necessária sedação.

    A radiação é aplicada por alguns minutos e, ao final, a fonte retorna ao aparelho. O paciente não permanece radioativo após a sessão e não há risco para outras pessoas.

    As etapas incluem avaliação médica, orientação de enfermagem, possível consulta com anestesista e planejamento no dia do procedimento.

    Quantas sessões de radioterapia são feitas?

    A quantidade de sessões varia conforme o tipo de câncer e a região tratada. O tratamento é fracionado em várias aplicações para reduzir a toxicidade e proteger os tecidos saudáveis.

    Radioterapia pode ser usada junto com quimioterapia?

    Sim. Em muitos casos, a combinação aumenta a eficácia do tratamento, pois a quimioterapia age de forma sistêmica e a radioterapia atua diretamente no tumor.

    Todos os pacientes com câncer fazem radioterapia?

    Não. A indicação depende do tipo de tumor, da localização e da estratégia terapêutica. Alguns tecidos respondem melhor à radiação do que outros, e há regiões do corpo em que a aplicação não é viável.

    Quais os efeitos colaterais da radioterapia?

    • Cansaço;
    • Vermelhidão e irritação da pele;
    • Ressecamento e descamação;
    • Alterações no paladar;
    • Boca seca e dor ao engolir;
    • Náuseas;
    • Alterações intestinais;
    • Desconforto urinário.

    Radioterapia causa queda de cabelo?

    A queda de cabelo depende da área irradiada. Ela ocorre apenas quando o couro cabeludo recebe radiação.

    Como cuidar da pele durante a radioterapia?

    • Aparar pelos com tesoura ou barbeador elétrico;
    • Chegar às sessões com a pele limpa e seca;
    • Usar hidratantes indicados pela equipe;
    • Manter boa hidratação;
    • Evitar fitas adesivas na pele tratada;
    • Tomar banho com água morna e sabonete neutro;
    • Evitar sol, mar e piscina durante o tratamento;
    • Usar roupas confortáveis e folgadas.

    O que acontece depois que o tratamento termina?

    Após o término, o corpo passa por um período de recuperação. Alguns efeitos colaterais podem persistir por semanas, e o acompanhamento médico é essencial para avaliar a resposta ao tratamento e identificar possíveis efeitos tardios.

    Leia mais: Câncer de pulmão: sintomas, tipos e como é feito o tratamento

    Perguntas frequentes

    A radioterapia substitui a cirurgia?

    Em alguns casos, sim, mas o planejamento depende do tipo, localização e estágio do tumor.

    A radioterapia enfraquece o corpo?

    Pode causar cansaço, mas a intensidade varia entre os pacientes.

    A radioterapia deixa a pele queimada?

    A pele pode ficar avermelhada e sensível, mas isso costuma melhorar após o tratamento.

    A radioterapia começa a fazer efeito depois de quantos dias?

    Os efeitos começam nas primeiras sessões, mas o resultado completo é progressivo.

    A radioterapia funciona em metástase?

    Sim. Pode ser usada para controle do tumor, alívio de sintomas e melhora da qualidade de vida.

    Confira: Câncer colorretal: entenda mais sobre o terceiro tipo de tumor mais frequente no Brasil

  • Cura milagrosa do câncer? Veja por que você deve ter cuidado com fake news

    Cura milagrosa do câncer? Veja por que você deve ter cuidado com fake news

    Segundo dados do Ministério da Saúde, o câncer lidera o ranking de notícias falsas. Em tempos de redes sociais e informações instantâneas, notícias sobre curas milagrosas costumam se espalhar rapidamente — como promessas de pílulas revolucionárias, dietas restritivas ou chás “milagrosos”, que circulam com facilidade e podem despertar esperança em pessoas que estão vulneráveis.

    No entanto, a maioria das informações não possui qualquer comprovação científica e, em alguns casos, seguir orientações erradas pode atrasar o tratamento e comprometer a saúde. Entenda mais, a seguir!

    Por que surgem tantas notícias falsas sobre curas milagrosas?

    As fake news, de modo geral, são notícias falsas criadas para enganar ou manipular a opinião pública. No caso do câncer, elas costumam prometer curas rápidas, simples e naturais, como pílulas, chás ou dietas específicas.

    No entanto, a promessa de “cura natural” leva muitas pessoas a abandonarem tratamentos comprovadamente eficazes, como quimioterapia, radioterapia ou cirurgias — o que pode ser muito perigoso.

    Mas afinal, por que surgem tantas notícias falsas sobre a cura do câncer? O oncologista Thiago Chadid explica que, por ser uma doença que causa um impacto emocional forte, ela cria um ambiente fértil para o surgimento de promessas milagrosas. Diante do medo, da angústia e da incerteza, é natural que muitos se sintam atraídos por soluções aparentemente simples ou alternativas que prometem cura rápida.

    Ele complementa que muitas dessas fake news se apoiam em uma compreensão errada do que é o câncer. “Existe um entendimento muito errado da doença, de achar que ela é causada por uma causa única. Ou que todos os cânceres são iguais. Só que câncer é um nome dado a um conjunto de doenças. Cada câncer tem natureza, comportamento e motivos diferentes para surgir”, explica o oncologista.

    Além disso, o desejo de encontrar uma explicação lógica faz com que as pessoas busquem respostas simples para algo extremamente complexo. “Quando alguém chega com um discurso convincente sobre algum procedimento, alguma droga ou alguma formulação, isso pode convencer. Alimenta um desejo interno de curar e fugir do medo de ter câncer”, complementa Chadid.

    O perigo dos tratamentos milagrosos para câncer

    Normalmente, as promessas de cura milagrosa quase sempre vêm acompanhadas de frases como “a indústria não quer que você saiba disso” ou “médicos escondem a verdade”. Essa narrativa de conspiração cria uma falsa sensação de descoberta.

    Contudo, muitos desses “tratamentos” não apenas são ineficazes, como também podem representar sérios riscos à saúde. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) alerta que dietas restritivas, produtos sem registro e terapias alternativas sem respaldo científico podem comprometer o processo de recuperação, especialmente em pacientes fragilizados pelos efeitos da quimioterapia, radioterapia ou cirurgias.

    Um exemplo conhecido é o da fosfoetanolamina, popularmente chamada de “pílula do câncer”. Divulgada como uma possível cura para diferentes tipos de tumores, a substância nunca teve eficácia comprovada em estudos clínicos com seres humanos e não é reconhecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como medicamento para o tratamento do câncer.

    Quais são as fake news mais comuns sobre câncer?

    “Carboidratos alimentam o tumor”

    Os carboidratos fornecem energia, na forma de glicose, para todas as células do corpo — inclusive as saudáveis. Cortá-los totalmente leva o organismo a quebrar proteínas dos músculos para gerar energia, causando perda de massa magra e piora da saúde geral.

    Apesar de as células tumorais também utilizarem glicose, isso não significa que retirar carboidratos impeça o crescimento do câncer. Pelo contrário, a restrição pode prejudicar a recuperação, reduzir a imunidade e agravar a desnutrição.

    O ideal é priorizar carboidratos saudáveis, presentes em frutas, legumes, cereais integrais e grãos, e evitar ultraprocessados.

    “Proteínas de origem animal alimentam o tumor”

    As proteínas são essenciais para manutenção muscular, produção de hormônios e regeneração dos tecidos. Durante o tratamento do câncer, manter ingestão adequada de proteínas ajuda o organismo a tolerar melhor os efeitos da quimioterapia.

    Elas podem vir tanto de fontes vegetais quanto animais. Carnes vermelhas podem ser consumidas com moderação, evitando as versões processadas.

    “Cogumelo do sol, graviola ou chá verde curam o câncer”

    Nenhum alimento cura o câncer. Uma alimentação equilibrada ajuda a fortalecer o sistema imunológico e melhora a tolerância ao tratamento, mas não substitui terapias médicas.

    “Bicarbonato de sódio cura o câncer”

    A ideia se baseia na falsa crença de que o câncer se desenvolve em ambientes ácidos. O pH do sangue é rigidamente controlado pelo organismo, e tentar alterá-lo artificialmente pode causar desequilíbrios graves e intoxicação.

    Como identificar uma fake news sobre câncer?

    • Promete cura rápida e sem esforço;
    • Afirma que médicos ou a indústria escondem a verdade;
    • Cita especialistas sem nomes ou instituições;
    • Usa apenas relatos pessoais como prova;
    • Tenta vender produtos ou serviços;
    • Não apresenta estudos científicos confiáveis.

    O INCA e o Ministério da Saúde reforçam que tratamentos eficazes passam por testes rigorosos antes de serem aprovados.

    O que o paciente pode fazer para se fortalecer?

    A recuperação no câncer depende de hábitos sustentados por evidências científicas:

    • Manter alimentação equilibrada e variada;
    • Praticar atividade física com orientação médica;
    • Evitar álcool, cigarro e ultraprocessados;
    • Garantir sono adequado;
    • Cuidar da saúde mental e buscar apoio emocional.

    Antes de usar suplementos, chás ou terapias complementares, converse sempre com o oncologista ou nutricionista, pois produtos naturais também podem interferir no tratamento.

    Leia também: Leucemia: saiba mais sobre a doença

    Perguntas frequentes

    Posso parar a quimioterapia se fizer um tratamento natural?

    Não. Abandonar o tratamento convencional aumenta significativamente o risco de progressão da doença. Métodos naturais podem ser apenas complementares, nunca substitutos.

    É possível usar terapias alternativas junto com o tratamento?

    Sim, desde que com supervisão médica. Práticas como meditação ou acupuntura podem ajudar no bem-estar, mas não substituem o tratamento.

    O jejum intermitente ajuda a combater o câncer?

    Não há evidências suficientes. Em pacientes oncológicos, pode causar desnutrição e comprometer o tratamento.

    Por que a desinformação é tão perigosa?

    Porque leva pessoas a abandonarem terapias eficazes, atrasarem diagnósticos e se exporem a riscos graves à saúde.

    O que fazer ao receber mensagens prometendo cura?

    Não compartilhe. Verifique a informação em fontes oficiais, como Ministério da Saúde, INCA ou OMS, e denuncie conteúdos enganosos.

    Veja mais: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença

  • Transplante de medula óssea: como é feito, indicação e como se tornar um doador 

    Transplante de medula óssea: como é feito, indicação e como se tornar um doador 

    Utilizada quando o organismo perde a capacidade de produzir células do sangue de maneira saudável, o transplante de medula óssea é uma alternativa para tratar doenças que comprometem o funcionamento da medula, como leucemias, mieloma múltiplo e falhas graves na produção celular.

    Mas afinal, o que é medula óssea? Ela consiste em um tecido esponjoso localizado no interior dos ossos, conhecido como tutano, responsável por fabricar glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Segundo o oncologista Thiago Chadid, é ali que vivem as células-tronco hematopoéticas, capazes de dar origem a todas as células sanguíneas que garantem oxigenação adequada, defesa contra infecções e coagulação.

    Quando acontece algum defeito na produção das células, o corpo perde a capacidade de manter as suas funções vitais. Com o transplante, é possível substituir células doentes por células saudáveis, permitindo que o corpo volte a fabricar glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas de forma equilibrada. Entenda mais, a seguir!

    O que é o transplante de medula óssea e quando é indicado?

    O transplante de medula óssea é um procedimento utilizado quando a medula perde a capacidade de produzir células do sangue de forma adequada. De acordo com o Ministério da Saúde, a proposta é substituir uma medula doente ou insuficiente por células saudáveis, capazes de restaurar a produção normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

    O tratamento pode ser feito de duas maneiras:

    • No transplante autogênico (autólogo), utilizam-se células saudáveis do próprio paciente, coletadas e preservadas antes da etapa de quimioterapia de alta intensidade;
    • No transplante alogênico, as células vêm de um doador compatível, que pode ser um familiar ou alguém inscrito no registro nacional de doadores.

    A indicação surge em doenças que comprometem de forma profunda o funcionamento da medula, como anemia aplástica grave, síndromes mielodisplásicas e diversos tipos de leucemias, nas quais há alteração da função e do ritmo de crescimento dos leucócitos.

    De acordo com Thiago, o tratamento funciona como um "reset", semelhante a reiniciar um computador, substituindo a medula comprometida por uma medula saudável.

    Quanto o transplante de medula óssea é indicado?

    O transplante de medula óssea é indicado quando a medula perde a capacidade de produzir células sanguíneas de forma adequada, seja por proliferação descontrolada, seja por falência progressiva. Segundo Thiago, ao lembrarmos que as células-tronco da medula dão origem a todos os tipos de células do sangue, é mais fácil compreender por que alterações nesse processo podem desencadear doenças graves.

    Uma mutação que interfere na diferenciação celular pode gerar células defeituosas, incapazes de exercer suas funções. Em muitos casos, isso resulta no surgimento de cânceres que se originam na própria medula óssea.

    Segundo o oncologista, em alguns casos, o transplante é feito com intenção curativa, buscando eliminar totalmente a doença. Em outros, o objetivo é controle dos sintomas, principalmente quando a medula está muito hiperprodutiva e provoca excesso de células doentes. Nessas situações, o transplante reduz a população de células malignas, melhora o bem-estar e prolonga a vida do paciente, mesmo que a cura definitiva não seja possível.

    Entre algumas das principais indicações de transplante de medula óssea, destacamos:

    Mieloma múltiplo

    O mieloma múltiplo é um tumor originado nas células responsáveis pela produção de imunoglobulinas, como o IgG. Uma mutação faz com que as células deixem de produzir anticorpos funcionais e passem a fabricar proteínas defeituosas, que não têm utilidade e se acumulam na corrente sanguínea, segundo Thiago.

    O excesso provoca sobrecarga nos rins e nos vasos, além de favorecer a proliferação desordenada dessas células dentro dos ossos, levando à corrosão óssea e a quadros de dor e fragilidade. É um processo resultante de uma diferenciação celular defeituosa, que gera uma proteína inútil e perda de função imunológica.

    Leucemias

    As leucemias são tumores que surgem quando há falha na diferenciação das células brancas: um neutrófilo, que deveria combater bactérias, ou um linfócito, que deveria combater vírus, passa a se desenvolver de forma anormal.

    A célula perde completamente sua função de defesa e se torna uma célula maligna cuja única atividade é proliferar. A multiplicação excessiva causa danos ao organismo, como Thiago explica.

    Existem dois tipos de leucemias, sendo elas:

    • Leucemias crônicas: surgem quando a célula ainda preserva parte da função original e se multiplica de forma mais lenta e gradual. Por isso, muitos casos evoluem de maneira silenciosa no início, permitindo que o organismo se adapte temporariamente à presença das células alteradas;
    • Leucemias agudas: ocorrem quando a célula perde completamente a capacidade funcional e passa a se multiplicar de forma acelerada e desordenada. A medula rapidamente se enche de células imaturas e inúteis, que impedem a produção normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

    As leucemias agudas, por evoluírem em ritmo muito rápido, são quadros mais graves, com sintomas intensos desde o início — e exigem intervenção imediata para evitar complicações graves.

    Outras doenças da medula óssea

    Nem todos os problemas da medula óssea estão ligados ao excesso de proliferação celular. Na verdade, em quadros como mielofibrose, síndromes mielodisplásicas e algumas doenças mieloproliferativas, o que ocorre é uma falência progressiva da medula.

    É como se o tecido sofresse um envelhecimento precoce: as células-tronco deixam de se multiplicar como deveriam ou passam a morrer mais rapidamente, comprometendo a produção normal das séries sanguíneas.

    Quando a medula falha, o organismo começa a sentir sinais claros de desequilíbrio, como:

    • Anemia: queda da produção de glóbulos vermelhos, causando cansaço intenso, palidez, tonturas e falta de ar mesmo em esforços leves;
    • Redução da imunidade: diminuição dos glóbulos brancos, deixando o corpo mais vulnerável a infecções frequentes, graves ou de evolução rápida;
    • Problemas de coagulação: queda no número de plaquetas, levando a sangramentos fáceis, manchas roxas sem motivo aparente e maior risco de hemorragias.

    Linfomas

    Os linfomas são cânceres que surgem nos linfonodos e no sistema linfático, afetando células de defesa chamadas linfócitos. Eles podem ser classificados em linfoma de Hodgkin e linfoma não Hodgkin, cada um com comportamentos e respostas ao tratamento diferentes.

    Em muitos casos, a primeira abordagem envolve quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia, dependendo do subtipo e do estágio da doença.

    O transplante de medula óssea costuma ser indicado quando o linfoma não responde totalmente ao tratamento inicial ou apresenta recaída após a primeira remissão. Nesses cenários, o transplante (autólogo ou alogênico) ajuda a restaurar uma medula saudável e intensifica as chances de controle prolongado da doença.

    Como é feito o transplante de medula óssea?

    O transplante é realizado em diversas etapas, desde o preparo do organismo até o acompanhamento prolongado após a infusão das células. Primeiro, é necessário entender se o procedimento será alogênico ou autólogo:

    Transplante alogênico

    No transplante alogênico, as células utilizadas vêm de outra pessoa — um familiar compatível ou alguém cadastrado no REDOME (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), um banco de dados financiado pelo Ministério da Saúde com informações de possíveis doadores para quem precisa de transplante de medula óssea.

    O processo começa com exames que verificam a compatibilidade entre o sangue do doador e do paciente. A ideia é encontrar a combinação mais segura possível para diminuir o risco de rejeição e evitar que as células do doador ataquem órgãos do paciente.

    Quando a compatibilidade está confirmada, o doador passa por um procedimento no centro cirúrgico, sob anestesia, e a coleta dura cerca de duas horas. O médico faz várias punções com agulhas na parte posterior da bacia para aspirar a medula óssea. A retirada não causa problemas para a saúde do doador, de acordo com Thiago Chadid.

    Transplante autólogo

    No transplante autólogo, o paciente recebe de volta as próprias células saudáveis da medula. As células-tronco são coletadas da medula ou do sangue do próprio paciente e passam por aférese, um processo de filtragem que separa apenas as células saudáveis. Depois da coleta, o material é armazenado até o momento do transplante.

    Fase de condicionamento

    Na etapa seguinte, antes da infusão das células, o paciente é submetido a uma quimioterapia de alta intensidade, capaz de destruir a medula doente e eliminar células comprometidas.

    O período é conhecido como aplasia e, uma vez que a medula não está produzindo células, a pessoa fica extremamente vulnerável e apresenta risco elevado de infecções. Por isso, ela deve adotar cuidados muito rigorosos, como:

    • Não consumir alimentos crus;
    • Manter higiene minuciosa das mãos, do corpo e do ambiente;
    • Permitir visitas apenas com uso de máscara;
    • Permanecer em um espaço altamente protegido e livre de contaminantes.

    Como a imunidade fica praticamente zerada, qualquer pequena ferida pode se transformar em porta de entrada para infecções graves. Até situações simples do dia a dia exigem atenção redobrada, já que o organismo não consegue responder de forma adequada durante essa fase.

    Infusão das células-tronco

    Após o tratamento, as células previamente coletadas, sejam elas do doador ou do próprio paciente, são infundidas pela veia, de maneira semelhante a uma transfusão de sangue. Elas percorrem a circulação até alcançar o interior dos ossos, onde se instalam, se multiplicam e retomam a produção de células do sangue.

    O procedimento é indolor e não requer sala cirúrgica, já que as células entram pela corrente sanguínea e migram espontaneamente até a medula óssea, onde começam o processo de enxertia.

    Período de pega da medula

    A pega é a fase em que as células infundidas começam a se estabelecer no interior dos ossos e retomar a produção de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. O processo costuma levar de 10 a 30 dias, dependendo do tipo de transplante.

    Durante o intervalo, o risco de infecções e complicações é elevado, porque o sistema imunológico ainda não está funcional. Assim, o paciente permanece sob vigilância diária, com uso de antibióticos, antivirais e suporte transfusional quando necessário.

    Cuidados pós-transplante de medula óssea

    Depois da fase de pega, é iniciada uma fase prolongada de acompanhamento médico. Em casos de transplante alogênico, é necessário identificar sinais de doença do enxerto contra o receptor (quando as células do doador atacam o corpo do receptor), ajustar imunossupressores e monitorar rejeição.

    Quando o transplante é autólogo, o acompanhamento é voltado para recaídas, toxicidade dos medicamentos e recuperação hematológica.

    O paciente precisa manter consultas frequentes, evitar contato com agentes infecciosos, seguir rigorosamente a prescrição de remédios e adaptar alimentação, hidratação e rotina às orientações do médico.

    A recuperação completa do sistema imunológico pode levar meses ou até anos — a velocidade varia muito de pessoa para pessoa e depende do tratamento específico e do estado geral de saúde do paciente.

    Nesse período, vacinas são reorganizadas, exames são repetidos regularmente e qualquer sinal de infecção ou inflamação deve ser investigado. Com o tempo, o organismo volta a produzir células de defesa de forma adequada, restaurando o funcionamento saudável da medula óssea.

    Quais os possíveis riscos para o paciente e para o doador?

    No caso do paciente, os principais riscos surgem durante o período em que a medula deixa de funcionar após o preparo para o transplante. Com a queda da imunidade, a pessoa fica mais suscetível a infecções e precisa de monitoramento constante.

    Além disso, após a infusão das novas células, pode ocorrer uma reação em que as novas células reconhecem alguns tecidos do receptor como estranhos. A complicação, conhecida como doença enxerto contra hospedeiro, varia de intensidade e costuma ser controlada com o uso de medicamentos específicos.

    A rejeição do transplante é pouco frequente, mas pode acontecer. Por isso, a seleção cuidadosa do doador e o preparo adequado do paciente são etapas fundamentais.

    Para o doador, os riscos são muito baixos. A medula retirada se regenera naturalmente em poucas semanas, sem problemas à saúde geral. Antes da coleta, a pessoa passa por uma avaliação clínica detalhada para garantir segurança durante a anestesia e o procedimento.

    Após a doação, podem surgir desconfortos temporários, como dor na região da bacia, cansaço leve ou dor de cabeça, sintomas que costumam melhorar rapidamente com analgésicos simples.

    É possível curar doenças com transplante de medula óssea?

    A chance de cura varia conforme o tipo da doença, a compatibilidade do doador, a idade e o estado de saúde da pessoa. Em alguns casos, o transplante pode realmente levar à cura, e em outros, ajuda a controlar a doença por muitos anos, mantendo o quadro estável e permitindo boa qualidade de vida.

    No mieloma múltiplo, por exemplo, muitos pacientes vivem por décadas realizando transplantes em momentos específicos do tratamento. Já certas leucemias têm maior chance de cura quando o transplante é feito cedo, antes que a doença avance.

    A dificuldade está em eliminar totalmente todas as células doentes, porque mesmo após tratamentos intensos algumas podem permanecer no organismo, levando a recaídas em parte dos casos.

    Como se tornar um doador de medula óssea?

    Para se tornar doador de medula óssea, o caminho é simples, seguro e muito mais rápido do que você imagina. O cadastro é feito no REDOME, banco oficial brasileiro que reúne milhões de doadores em potencial. A partir do cadastro, os dados são cruzados sempre que um paciente precisa de um transplante e busca-se alguém compatível.

    Mas quem pode ser doador? As principais recomendações incluem:

    • Ter entre 18 e 35 anos (a idade limite para se cadastrar é 35 anos, porque doadores mais jovens oferecem melhor qualidade celular). Após o cadastro, o doador pode ser convocado para doação até completar 60 anos de idade;
    • Estar em boa saúde, sem doenças infecciosas transmissíveis ou condições que impeçam a doação;
    • Não ter histórico de câncer, doenças hematológicas, hepatites crônicas, HIV, entre outras contraindicações semelhantes às da doação de sangue.

    Depois do cadastro, são retirados cerca de 5 a 10 ml de sangue, o suficiente para realizar a tipagem HLA, que identifica características genéticas usadas para comparar com possíveis receptores. Depois da análise, seus dados entram no banco de doadores. A partir desse momento, você pode ser chamado a qualquer momento caso apareça alguém compatível.

    Quanto maior for o número de doadores cadastrados, maior será a possibilidade de alguém encontrar uma medula compatível e, com isso, ter acesso a um tratamento que realmente pode mudar o rumo de uma doença grave. Muitas vezes, o transplante é a única esperança de quem está lutando contra leucemias, mielomas e outras alterações que impedem o organismo de produzir células saudáveis.

    Para muitas famílias, a ligação do REDOME confirmando um doador compatível significa alívio, esperança e a possibilidade real de continuar. Por isso, é muito importante informar, desmistificar medos e incentivar o cadastro. Quando mais pessoas se dispõem a participar, mais vidas podem ser salvas.

    Confira: Carcinoma basocelular: entenda mais sobre o tipo de câncer de pele que mais afeta os brasileiros

    Perguntas frequentes

    Quais são os tipos de doação de medula óssea?

    A doação pode ocorrer pela bacia, onde se encontram as maiores concentrações de células-tronco, ou pela circulação periférica, quando medicamentos estimulam a migração dessas células para o sangue. O método é escolhido pela equipe médica de acordo com as necessidades do transplante.

    No caso da coleta por aférese, o doador recebe medicamento que estimula as células-tronco durante alguns dias. Depois, ele fica conectado a uma máquina de aférese que retira apenas as células desejadas e devolve o restante. É semelhante a uma doação de sangue prolongada. A recuperação é praticamente imediata.

    Doar medula dói?

    Quando a coleta ocorre pela bacia, o doador recebe anestesia e não sente dor durante o procedimento. Depois, pode surgir desconforto leve, semelhante a uma contusão, que melhora em poucos dias.

    A coleta por aférese provoca sensação de pressão óssea por causa do medicamento que estimula a liberação das células-tronco, mas, novamente, é uma sensação temporária. A experiência costuma ser bastante tranquila.

    Onde fazer o cadastro para se tornar doador de medula óssea?

    O cadastro é realizado em hemocentros públicos e unidades credenciadas ao REDOME. O processo inclui preenchimento de ficha e coleta de pequena amostra de sangue para análise do perfil genético. Em menos de meia hora, a pessoa conclui tudo.

    O que significa “aplasia” durante o transplante de medula óssea?

    A aplasia corresponde ao período em que a medula fica totalmente inativa depois da quimioterapia preparatória. Durante alguns dias, o organismo não produz hemácias, plaquetas ou glóbulos brancos — então a pessoa fica extremamente vulnerável a infecções, sangramentos e cansaço intenso.

    Todas as medidas de proteção são reforçadas: alimentação cozida, higiene rigorosa, ambiente controlado, uso de máscara, restrição de visitas e monitorização constante. É um período bem delicado, mas temporário, até que as novas células iniciem a regeneração.

    O transplante sempre cura?

    Não, o transplante pode curar quando a doença é controlada previamente, a carga tumoral está baixa e o organismo recebe células altamente compatíveis. Em outras situações, o transplante controla o avanço da doença, prolonga a sobrevida e melhora a qualidade de vida. Mesmo quando não existe cura completa, o transplante pode oferecer muitos anos de estabilidade e retorno às atividades.

    O doador de medula óssea paga alguma coisa?

    O doador de medula óssea não paga por nada! O sistema de saúde cobre exames, coleta, transporte e todo o processo. O compromisso do doador é apenas a disponibilidade.

    Posso desistir depois de ser chamado?

    Tecnicamente sim, mas é importante lembrar que, quando alguém é convocado, há uma pessoa do outro lado aguardando um transplante urgente. Em muitos casos, é a única chance de tratamento, então a decisão de se cadastrar deve ser consciente e responsável.

    Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos

  • Fevereiro laranja: saiba mais sobre a leucemia

    Fevereiro laranja: saiba mais sobre a leucemia

    No Brasil, aproximadamente 10 mil novos casos de leucemia surgem todos os anos, de acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer.

    A doença pode se manifestar em qualquer idade, mas é o tipo de câncer mais frequente entre crianças e adolescentes, representando cerca de 30% de todos os casos de câncer infantil.

    Conversamos com o oncologista Thiago Chadid para esclarecer como a leucemia se desenvolve, quais são os principais sinais de alerta, os fatores de risco envolvidos e como funcionam os tratamentos disponíveis atualmente.

    O que é leucemia?

    A leucemia é um tipo de câncer que se origina nas células do sangue, mais especificamente na medula óssea, local onde são produzidas as células sanguíneas.

    Ela ocorre quando uma célula precursora sofre uma mutação genética e passa a se multiplicar de forma desordenada, originando células anormais que não cumprem adequadamente suas funções.

    As células defeituosas, normalmente da série branca, se acumulam na medula óssea e na corrente sanguínea, prejudicando a produção das células normais, como os glóbulos vermelhos, as plaquetas e os leucócitos saudáveis. Como resultado, o organismo passa a apresentar alterações na imunidade, maior risco de infecções, anemia e sangramentos.

    Vale apontar que, diferente de outros tipos de câncer, a leucemia não forma uma massa ou tumor sólido, pois se desenvolve nas células do sangue e da medula óssea, espalhando-se pela corrente sanguínea.

    Como surgem as leucemias na medula óssea

    Na medula óssea existem células precursoras, também chamadas de células-tronco hematopoéticas. Elas são responsáveis por produzir todas as células do sangue e dão origem a três grandes grupos, conforme aponta Thiago Chadid:

    • Série branca, que atua na defesa do organismo;
    • Série vermelha, que forma os glóbulos vermelhos, responsáveis por levar oxigênio para todo o corpo;
    • Série plaquetária, que produz as plaquetas, importantes para a coagulação do sangue.

    A série branca está diretamente ligada ao sistema imunológico. A partir dessas células precursoras surgem vários tipos de células de defesa, entre elas os linfócitos, que se dividem principalmente em linfócitos T e linfócitos B.

    Os linfócitos T atuam de forma direta no combate a tumores, bactérias e outros agentes estranhos ao organismo. Já os linfócitos B são responsáveis pela produção de anticorpos, que ajudam a neutralizar infecções.

    Além dos linfócitos, existem outras células da série branca que participam de processos inflamlórios e reações alérgicas, formando um sistema de defesa bastante complexo.

    A leucemia surge quando ocorre uma mutação nas células precursoras da série branca. A partir dessa alteração, as células passam a se multiplicar de forma descontrolada e deixam de exercer corretamente a função de defesa.

    Quais os tipos de leucemia?

    As leucemias são classificadas em dois grandes grupos, de acordo com a linhagem acometida:

    • Leucemias mieloides, que afetam a linhagem mieloide, responsável pela formação de diferentes células do sangue, como neutrófilos, monócitos, eosinófilos, basófilos e plaquetas;
    • Leucemias linfoides, que atingem a linhagem linfóide, responsável pela produção dos linfócitos, células fundamentais para o funcionamento do sistema imunológico.

    Além dessa divisão, as leucemias também são classificadas conforme a velocidade de evolução da doença, segundo Thiago:

    • Leucemias agudas, nas quais as células doentes se multiplicam rapidamente e os sintomas costumam surgir em pouco tempo;
    • Leucemias crônicas, que apresentam crescimento mais lento e podem permanecer assintomáticas por longos períodos.

    De acordo com o oncologista, as leucemias crônicas têm prognóstico mais favorável do que as agudas, pois evoluem de forma lenta. Já as leucemias agudas são mais graves, com multiplicação rápida e descontrolada das células, podendo causar complicações circulatórias e maior risco de trombose.

    Independentemente do tipo, todas as leucemias compartilham uma característica central: as células leucêmicas são disfuncionais.

    Mesmo quando o exame de sangue mostra um número elevado de leucócitos, essas células não são capazes de exercer adequadamente sua função de defesa, o que compromete o sistema imunológico.

    Além disso, as células anormais passam a ocupar espaço na medula óssea, prejudicando a produção das células saudáveis. Com o tempo, ocorre redução dos glóbulos vermelhos e das plaquetas, o que pode levar à anemia, sangramentos frequentes e aumento do risco de infecções.

    Fatores de risco para a leucemia

    Os fatores de risco para a leucemia ainda não explicam totalmente a origem da doença, mas diversos estudos indicam que determinadas condições e exposições aumentam a chance de desenvolvimento de alguns tipos específicos.

    Entre os principais fatores de risco conhecidos, o Ministério da Saúde destaca:

    • Exposição ao benzeno, substância presente na gasolina e amplamente utilizada na indústria química, associada à leucemia mieloide aguda e crônica e à leucemia linfoide aguda;
    • Radiação ionizante, como raios X e raios gama, especialmente quando relacionada a procedimentos médicos como a radioterapia. O risco varia conforme a idade, a dose e o tempo de exposição;
    • Quimioterapia, sobretudo algumas classes de medicamentos utilizadas no tratamento do câncer e de doenças autoimunes, relacionada principalmente à leucemia mieloide aguda e à leucemia linfoide aguda;
    • Exposição ao formaldeído, comum em ambientes industriais (química, têxtil, entre outras) e na área da saúde, como hospitais e laboratórios;
    • Trabalho na produção de borracha, associado ao aumento do risco de diferentes tipos de leucemia;
    • Exposição a agrotóxicos e solventes, além de infecção pelos vírus das hepatites B e C, fatores relacionados ao aumento do risco de leucemia;
    • Síndrome mielodisplásica e outras doenças do sangue, que podem evoluir para leucemia mieloide aguda;
    • Idade avançada, fator de risco importante para a maioria dos tipos de leucemia. A exceção é a leucemia linfoide aguda, mais frequente em crianças;
    • Tabagismo, associado principalmente ao aumento do risco de leucemia mieloide aguda.

    Segundo Thiago, a predisposição genética é relativamente rara, estimada em cerca de 4 a 5% dos casos de leucemia.

    Quais os sintomas de leucemia?

    A leucemia pode ser assintomática no início e ser descoberta em exames de rotina. À medida que evolui, podem surgir sintomas como:

    • Cansaço e fraqueza;
    • Febre persistente;
    • Perda de peso e sudorese noturna;
    • Infecções frequentes e de difícil controle;
    • Sangramentos fáceis, hematomas e manchas na pele;
    • Anemia e queda das plaquetas.

    Nas leucemias agudas, a evolução pode ser muito rápida, ocorrendo em dias ou semanas. Em alguns casos, sem tratamento imediato, o quadro pode levar ao óbito em pouco tempo, segundo Thiago.

    Já nas crônicas, a doença costuma ser descoberta por acaso em check-ups e acompanhada por muitos anos, às vezes sem necessidade de tratamento imediato.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico da leucemia começa, normalmente, com um hemograma, que pode mostrar alterações como aumento ou redução dos leucócitos, anemia e queda das plaquetas. Em alguns casos, também aparecem células imaturas no sangue.

    Para confirmar o diagnóstico, é necessário o exame da medula óssea, por meio do mielograma e, quando indicado, da biópsia de medula óssea. Eles permitem avaliar a quantidade, o tipo e o grau de maturação das células sanguíneas.

    Após a confirmação, podem ser realizados exames complementares, como imunofenotipagem, citogenética e testes moleculares, que identificam o subtipo da leucemia, alterações genéticas específicas e ajudam a definir o melhor tratamento.

    Tratamento de leucemia

    Nas leucemias agudas, o tratamento costuma ser mais agressivo e precisa ser iniciado rapidamente, segundo Thiago. Os principais métodos incluem:

    • Quimioterapia intensiva, com o objetivo de eliminar as células leucêmicas e permitir a recuperação da medula óssea;
    • Transplante de medula óssea, indicado em alguns casos para reduzir o risco de recaída e aumentar as chances de cura.

    Nas leucemias crônicas, o tratamento normalmente é mais brando e individualizado, podendo incluir:

    • Medicamentos orais, que ajudam a controlar a doença ao longo do tempo;
    • Terapias-alvo, como inibidores de tirosina-quinase e anticorpos monoclonais, que atuam diretamente nas células alteradas.

    Em alguns pacientes crônicos, principalmente nos estágios iniciais e sem sintomas, pode ser adotada apenas a estratégia de acompanhamento regular, sem necessidade de tratamento imediato.

    Acompanhamento pós-tratamento

    Após o tratamento da leucemia, o acompanhamento médico contínuo é fundamental para identificar sinais precoces de retorno e lidar com possíveis efeitos tardios do tratamento, contribuindo para preservar a saúde e a qualidade de vida do paciente ao longo do tempo.

    De forma geral, o acompanhamento inclui:

    • Consultas médicas periódicas, voltadas à avaliação clínica e ao esclarecimento de dúvidas;
    • Exames de sangue regulares, utilizados para acompanhar o funcionamento da medula óssea e identificar alterações iniciais;
    • Exames complementares, solicitados quando há necessidade de investigação adicional;
    • Monitoramento de sintomas, como cansaço, febre ou sangramentos, que devem ser relatados ao médico;
    • Apoio psicológico e emocional, importante para lidar com os impactos físicos e emocionais da doença;
    • Atualização vacinal e cuidados gerais de saúde, com foco na prevenção de infecções e outras complicações.

    A rotina de acompanhamento pode variar conforme o tipo de leucemia, o tratamento realizado e as condições individuais de cada paciente, sempre seguindo orientação médica.

    É possível prevenir a leucemia?

    Na maioria dos casos, a leucemia não pode ser prevenida, pois muitas pessoas que desenvolvem a doença não apresentam fatores de risco conhecidos ou modificáveis, segundo o Ministério da Saúde.

    Mesmo assim, algumas medidas podem ajudar a reduzir o risco, como:

    • Não fumar, já que o tabagismo aumenta o risco de leucemia mieloide aguda e de vários outros tipos de câncer;
    • Reduzir a exposição ocupacional a substâncias químicas, como solventes e agentes comprovadamente cancerígenos, sempre que possível;
    • Utilizar equipamentos de proteção individual no trabalho, para diminuir o contato com substâncias nocivas;
    • Buscar orientação em serviços de saúde, especialmente em casos de tratamento prévio com quimioterapia ou radioterapia.

    Leucemia tem cura?

    Nas leucemias crônicas, o foco do tratamento costuma ser o controle da doença, e não a cura definitiva. Muitos pacientes convivem com a leucemia por vários anos, mantendo boa qualidade de vida, de forma semelhante ao acompanhamento de doenças crônicas como diabetes ou hipertensão.

    Nas leucemias agudas, de acordo com o tipo da doença, o diagnóstico precoce e a resposta ao tratamento, pode haver possibilidade de cura, principalmente quando o transplante de medula óssea é indicado. Após um período prolongado sem sinais da doença, o paciente pode ser considerado curado.

    Confira: Carcinoma basocelular: entenda mais sobre o tipo de câncer de pele que mais afeta os brasileiros

    Perguntas frequentes

    A leucemia é hereditária?

    Na maioria dos casos, não. Apenas uma pequena parcela das leucemias tem relação direta com fatores genéticos herdados. Ter um familiar com leucemia não significa, necessariamente, que a doença irá se desenvolver.

    A leucemia pode voltar após o tratamento?

    Em alguns casos, a leucemia pode reaparecer, situação conhecida como recaída. O risco varia conforme o tipo da doença, as alterações genéticas envolvidas e a resposta inicial ao tratamento. Por esse motivo, o acompanhamento médico após o término da terapia é fundamental.

    Leucemia é contagiosa?

    Não, a leucemia não é uma doença contagiosa e, portanto, não ocorre transmissão por contato físico, saliva, sangue ou convivência diária. É uma doença relacionada a alterações celulares internas.

    Leucemia pode afetar outros órgãos?

    As células leucêmicas circulam pelo sangue e podem se acumular em órgãos como baço, fígado e linfonodos, causando aumento de volume e desconforto. As complicações também podem ocorrer em razão de infecções ou sangramentos.

    Atividade física é permitida durante o tratamento de leucemia?

    A atividade física leve a moderada pode ser benéfica, desde que liberada pelo médico. Exercícios ajudam na recuperação, no controle do cansaço e no bem-estar emocional, respeitando sempre as limitações individuais.

    Quando procurar um médico por suspeita de leucemia?

    A procura por avaliação médica é indicada diante de sintomas persistentes como cansaço intenso, febre sem causa aparente, sangramentos frequentes, manchas roxas, infecções recorrentes ou alterações em exames de sangue de rotina.

    Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos

  • Câncer de boca e garganta tem cura? Conheça os sintomas e como é feito o tratamento

    Câncer de boca e garganta tem cura? Conheça os sintomas e como é feito o tratamento

    O câncer de boca e garganta, também conhecido como câncer de cavidade oral ou câncer de lábio, é um dos principais tipos de câncer de cabeça e pescoço. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa para 2025 era de mais de 15 mil novos casos no Brasil.

    Apesar de mais frequente em homens acima dos 40 anos, a doença pode acometer pessoas de todos os gêneros e idades, especialmente quando há exposição prolongada a fatores de risco conhecidos — como o tabagismo, consumo de álcool e infecção pelo papilomavírus humano (HPV).

    O que é o câncer de boca e garganta?

    O câncer de boca e garganta é um tipo de câncer que se desenvolve nas células que revestem a cavidade oral e a orofaringe. Ele faz parte do grupo dos cânceres de cabeça e pescoço e pode acometer diferentes estruturas, como lábios, gengivas, língua, assoalho da boca, céu da boca, amígdalas, faringe e parte posterior da língua.

    Na maioria dos casos, o tumor se origina nas células da mucosa, sendo classificado como carcinoma espinocelular, responsável por cerca de 90% dos diagnósticos. Ele tende a se desenvolver de forma silenciosa no início, o que contribui para o diagnóstico tardio em muitas pessoas.

    Tipos de câncer de boca e garganta

    Os cânceres de boca e garganta podem se manifestar de diferentes formas, sendo classificados de acordo com a origem das células, as características do tumor e a região afetada. Entre eles, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica aponta:

    Carcinoma de células escamosas

    O carcinoma de células escamosas é o tipo mais comum, responsável por cerca de 95% dos casos de câncer de cavidade oral e orofaringe. Ele tem origem nas células escamosas, células planas que revestem a boca e a garganta.

    Nos estágios iniciais, recebe o nome de carcinoma in situ, quando as células cancerígenas estão restritas à camada superficial do epitélio. Quando ocorre invasão das camadas mais profundas da mucosa, passa a ser classificado como carcinoma de células escamosas invasivo, condição associada a maior agressividade e risco de disseminação.

    Câncer de boca relacionado ao HPV

    Também classificado como carcinoma de células escamosas, esse tipo de câncer está associado à infecção por determinados subtipos do papilomavírus humano (HPV), pertencentes ao grupo HPV positivo.

    Ele ocorre com mais frequência em pessoas mais jovens, muitas vezes sem histórico de tabagismo ou consumo excessivo de álcool — e acomete principalmente a orofaringe, como amígdalas e base da língua.

    Carcinoma verrucoso

    O carcinoma verrucoso é uma forma rara de carcinoma de células escamosas, normalmente encontrada na gengiva ou na mucosa da bochecha. Ele apresenta crescimento lento e pode surgir inicialmente como uma lesão aparentemente benigna.

    Apesar de representar menos de 5% dos casos, ele costuma ser menos agressivo e raramente produz metástases. Ainda assim, pode se expandir localmente, atingindo tecidos vizinhos, o que torna necessária a remoção cirúrgica.

    Carcinoma das glândulas salivares menores

    O carcinoma das glândulas salivares menores se desenvolve nas pequenas glândulas salivares distribuídas pela mucosa da boca e da região próxima à garganta. Existem diferentes subtipos, entre eles:

    • Carcinoma adenoide cístico, de crescimento lento, com tendência a se disseminar ao longo dos nervos e apresentar recidivas tardias;
    • Carcinoma mucoepidermoide, o mais comum entre os tumores das glândulas salivares, geralmente originado nas parótidas, podendo variar de baixo a alto grau;
    • Adenocarcinoma, originado nas células glandulares. Quando acomete glândulas salivares menores, costuma ser de baixo grau e apresenta altas taxas de cura.

    Linfomas

    Os linfomas são cânceres que se originam nos glóbulos brancos e afetam o sistema linfático, componente essencial da defesa do organismo. Como estruturas como as amígdalas e a base da língua fazem parte do tecido linfóide, esse tipo de câncer também pode se iniciar nessas regiões da boca e da garganta.

    Quais os fatores de risco do câncer de boca e garganta?

    O tabagismo é o principal fator de risco para o desenvolvimento do câncer de boca e garganta. O uso de cigarros, charutos, cachimbos ou qualquer produto derivado do tabaco provoca uma agressão contínua à mucosa da boca e da garganta.

    Quanto maior o tempo de exposição e a quantidade consumida ao longo dos anos, maior é o risco. Mesmo após a interrupção do hábito, o risco não desaparece imediatamente, diminuindo de forma gradual com o passar do tempo.

    Entre outros fatores de risco, é possível destacar:

    • Consumo frequente e excessivo de álcool: a ingestão regular de bebidas alcoólicas, principalmente em grande volume e por longos períodos, aumenta significativamente a chance de desenvolver a doença, sobretudo quando associada ao tabagismo;
    • Infecção pelo HPV (papilomavírus humano): o HPV tem se tornado um fator de risco cada vez mais importante, especialmente para os cânceres de orofaringe. Está relacionado principalmente à prática de sexo oral sem proteção e ao maior número de parceiros sexuais;
    • Obesidade: o excesso de peso está associado a alterações metabólicas e inflamatórias que podem aumentar o risco de diversos tipos de câncer, incluindo os de boca e garganta;
    • Exposição solar excessiva sem proteção: a exposição constante e prolongada ao sol, sem o uso de protetor solar labial, é o principal fator de risco para o câncer de lábio, especialmente o lábio inferior.

    De acordo com o oncologista Thiago Chadid, o câncer de boca e garganta sempre esteve, historicamente, ligado ao tabagismo e ao consumo de álcool, que continuam sendo as principais causas da doença em grande parte do mundo.

    No entanto, em países como Estados Unidos e nações do norte da Europa, a infecção pelo papilomavírus humano (HPV) passou a ser o principal fator de risco, superando o cigarro e o álcool. A estimativa é que cerca de 70% da população norte-americana já tenha tido contato com o vírus.

    No Brasil, o tabagismo e o consumo excessivo de álcool ainda são os fatores de risco mais comuns, devido à alta exposição da população. Ainda assim, o HPV tende a ganhar espaço nos próximos anos, especialmente se não houver políticas eficazes de vacinação durante a infância e a adolescência.

    O uso de enxaguante bucal com álcool aumenta o risco?

    Ainda não há evidências suficientes de que o uso de enxaguantes bucais à base de álcool seja um fator de risco independente para o câncer de boca ou orofaringe.

    No entanto, Thiago Chadid explica que o principal problema, nesse contexto, está no contato direto do álcool com a mucosa oral, que atua como um agente irritante. O uso diário pode causar irritação contínua e favorecer o agravamento de lesões precursoras.

    Por isso, o recomendado é evitar enxaguantes bucais com álcool, especialmente quando utilizados com frequência. Existem versões sem álcool, consideradas menos agressivas, mas esse tipo de produto não é indispensável para a higiene bucal diária quando a escovação adequada e o uso regular do fio dental são mantidos.

    Quais os sintomas do câncer de boca e garganta?

    Os sintomas do câncer de boca e garganta podem variar conforme o tipo, a localização e o estágio do tumor. Em muitos casos, eles surgem de forma discreta no início, o que pode atrasar o diagnóstico.

    Entre os principais sintomas, estão:

    • Dor na boca ou na garganta que não melhora com o tempo;
    • Ferida ou lesão que sangra e não cicatriza;
    • Nódulo ou inchaço na parte interna da bochecha;
    • Manchas esbranquiçadas ou avermelhadas na língua, gengivas, amígdalas, céu da boca ou mucosa oral;
    • Dificuldade para mastigar ou movimentar a mandíbula;
    • Dificuldade para movimentar a língua, falar ou engolir;
    • Dormência na língua ou em outras áreas da boca;
    • Inchaço na mandíbula, que pode causar desconforto ao usar próteses dentárias;
    • Enfraquecimento ou dor nos dentes sem causa aparente;
    • Rouquidão persistente ou mudanças no tom de voz;
    • Presença de caroço ou nódulo no pescoço.

    Diante dos sinais de alerta, Thiago orienta procurar um otorrinolaringologista, um cirurgião de cabeça e pescoço ou um cirurgião bucomaxilofacial, profissionais capazes de avaliar as lesões e indicar uma biópsia quando necessário.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico do câncer de boca e garganta é feito principalmente por meio da avaliação clínica e da observação direta das lesões, já que não existe um exame de rastreamento de rotina para a população geral.

    O primeiro passo é o exame físico detalhado da cavidade oral e do pescoço, em que o especialista observa a presença de feridas que não cicatrizam, manchas esbranquiçadas ou avermelhadas, úlceras, nódulos e assimetrias — além de palpar o pescoço em busca de linfonodos aumentados.

    Quando há suspeita da doença, alguns exames podem ser solicitados para confirmar o diagnóstico e avaliar a extensão do tumor, como:

    • Exame clínico da boca e do pescoço, com inspeção visual das mucosas e palpação dos linfonodos cervicais;
    • Nasofibrolaringoscopia, exame feito com um aparelho fino e flexível introduzido pelo nariz, que permite visualizar a garganta, a laringe e a base da língua;
    • Biópsia, procedimento fundamental para a confirmação do diagnóstico, no qual um fragmento da lesão é retirado para análise em laboratório;
    • Tomografia computadorizada, utilizada para avaliar a extensão do tumor e o comprometimento de estruturas vizinhas;
    • Ressonância magnética, indicada para uma análise mais detalhada dos tecidos moles;
    • PET-CT, exame que ajuda a identificar metástases e a atividade do tumor no organismo.

    Rastreamento do câncer de boca e garganta

    Para pessoas consideradas de maior risco, como tabagistas, o oncologista Thiago Chadid orienta a realização de uma avaliação anual de cabeça e pescoço. A consulta inclui exame clínico detalhado da cavidade oral, da garganta e do pescoço e, quando necessário, a nasofibrolaringoscopia.

    Os exames de imagem, como tomografia computadorizada, ressonância magnética ou PET-CT, não são indicados para rastreamento, pois não conseguem identificar lesões muito iniciais. O diagnóstico precoce depende, principalmente, da observação direta das mucosas e da avaliação clínica criteriosa.

    Tratamento de câncer de boca e pescoço

    O tratamento depende do tipo de lesão, do estágio da doença e da profundidade do tumor. Quando uma lesão pré-maligna é identificada, a cirurgia costuma ser a base do tratamento, especialmente nos casos diagnosticados em fases iniciais. Thiago explica que a conduta indicada é a ressecção completa da lesão, com margens adequadas, sempre que possível.

    A boca e o pescoço são regiões delicadas, ricas em vasos sanguíneos e nervos. Mesmo cirurgias consideradas pequenas podem causar impacto funcional e estético.

    Em algumas situações, não é possível fechar a área operada com pontos, sendo necessário recorrer a enxertos ou permitir a cicatrização por segunda intenção, um processo mais lento e, muitas vezes, doloroso.

    Quando a lesão pré-maligna é removida de forma completa, o tratamento cirúrgico costuma ser suficiente, sem necessidade de quimioterapia ou radioterapia. Após a retirada, realiza-se o estadiamento, uma etapa para avaliar a profundidade do tumor, a qualidade das margens cirúrgicas e o risco de disseminação da doença.

    Quando o tumor cresce mais profundamente, não é retirado por completo ou apresenta risco de espalhamento para outras partes do corpo, o médico pode indicar tratamentos complementares, como radioterapia — sozinha ou em conjunto com a quimioterapia, para reduzir a chance da doença voltar.

    Em casos mais avançados, a imunoterapia pode ser usada no tratamento. Ela ajuda o próprio sistema de defesa do corpo a reconhecer e combater as células do câncer, aumentando as chances de controlar a doença.

    Câncer de boca e garganta tem cura?

    Quando a doença é identificada precocemente, as chances de cura costumam ser elevadas, e os tratamentos tendem a ser menos agressivos. No entanto, o câncer de boca e garganta pode se tornar bastante agressivo quando o diagnóstico ocorre em fases mais avançadas.

    Tumores mais profundos ou extensos apresentam maior risco de metástases, principalmente para os linfonodos do pescoço, além de órgãos como pulmões, ossos, fígado e pele, o que torna o tratamento mais complexo e pode comprometer o prognóstico. Isso ressalta a importância do diagnóstico precoce.

    É possível prevenir o câncer de boca e garganta?

    A maior parte dos casos pode ser prevenida com mudanças de hábitos e cuidados simples no dia a dia, como:

    • Evitar o tabagismo, em qualquer forma, incluindo cigarro, charuto, cachimbo e fumo sem combustão;
    • Reduzir ou evitar o consumo de bebidas alcoólicas, especialmente quando associado ao tabaco;
    • Manter boa higiene bucal e realizar acompanhamento odontológico regular;
    • Usar preservativo durante as relações sexuais, reduzindo o risco de infecção pelo HPV;
    • Vacinar-se contra o HPV, conforme orientação médica e faixa etária;
    • Proteger os lábios da exposição solar excessiva, utilizando protetor labial com filtro solar;
    • Manter uma alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras e legumes;
    • Procurar avaliação médica ou odontológica diante de feridas na boca, rouquidão ou dor persistente que não cicatrizam em até duas semanas.

    Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos

    Perguntas frequentes

    Qual a população de risco para câncer de boca e garganta?

    A população de maior risco inclui pessoas que fumam ou já fumaram, consomem álcool com frequência, especialmente de forma associada ao tabagismo, e pessoas infectadas pelo HPV, principalmente os subtipos oncogênicos. A exposição solar crônica sem proteção, má higiene bucal e histórico familiar também elevam o risco.

    Como funciona o tratamento cirúrgico?

    A cirurgia busca remover completamente o tumor com margens de segurança. Dependendo da extensão, pode envolver estruturas importantes da boca ou garganta. Em alguns casos, é necessária reconstrução para preservar funções como fala, mastigação e deglutição.

    O câncer de boca e garganta pode causar caroço no pescoço?

    Sim, o surgimento de caroços endurecidos no pescoço pode indicar comprometimento dos linfonodos, um dos primeiros sinais de disseminação da doença. Todo nódulo persistente deve ser investigado.

    Quando a radioterapia é indicada?

    A radioterapia pode ser utilizada como tratamento principal ou complementar à cirurgia. É indicada quando há risco de recidiva, margens comprometidas ou tumores mais avançados. O tratamento é realizado ao longo de várias semanas.

    O tratamento afeta a fala e a alimentação?

    Pode afetar, dependendo do local e da extensão do tumor. Por isso, o acompanhamento com fonoaudiólogo e nutricionista é fundamental para recuperação funcional e qualidade de vida.

    Quando procurar um médico ou dentista?

    Sempre que houver feridas na boca, dor, rouquidão, dificuldade para engolir ou caroços no pescoço que persistam por mais de duas semanas. O diagnóstico precoce é fundamental para o tratamento e o prognóstico.

    Leia mais: HPV: o que é, riscos e como a vacina pode proteger sua saúde

  • Paciente oncológico em casa: como adaptar o ambiente durante o tratamento?

    Paciente oncológico em casa: como adaptar o ambiente durante o tratamento?

    Durante o tratamento oncológico, seja com quimioterapia ou radioterapia, a rotina do paciente e de toda a família passa por algumas mudanças. A casa, que antes seguia um funcionamento habitual, precisa se adaptar para oferecer mais conforto, segurança e apoio físico e emocional a quem está em tratamento.

    Mas afinal, quais ajustes são realmente necessários nesse período para receber um paciente oncológico em casa? Conversamos com o oncologista Thiago Chadid e listamos, a seguir, as adaptações que ajudam a prevenir complicações, reduzir efeitos colaterais do tratamento e tornar o dia a dia mais leve. Confira!

    1. Alimentação leve e adequada

    A alimentação deve ser um dos principais fatores de cuidado em casa. Segundo Thiago, pacientes em quimioterapia costumam apresentar náuseas e vômitos, principalmente após refeições pesadas ou de difícil digestão.

    Por isso, a orientação é priorizar alimentos leves, de fácil digestão, como frutas, verduras, legumes, carnes magras e preparações simples, evitando excesso de gordura e condimentos.

    Além disso, podem ocorrer algumas alterações intestinais durante o tratamento, desde prisão de ventre até quadros de diarreia.

    Na constipação, o recomendado é aumentar a ingestão de fibras e líquidos. Em casos de diarreia, a alimentação deve ser ajustada com alimentos mais constipantes e cuidados adicionais com hidratação.

    Ingestão adequada de proteínas

    A perda de massa muscular é frequente durante o tratamento oncológico e pode evoluir para sarcopenia. Por isso, é recomendado uma ingestão de aproximadamente 1 a 1,5 g de proteína por quilo de peso corporal por dia.

    Quando a alimentação sólida não é bem tolerada, podem ser utilizados suplementos proteicos, como whey protein, ou outras fontes que o paciente aceite melhor.

    2. Hidratação no dia a dia

    Independentemente do tipo de tratamento, a hidratação deve ser constante no dia a dia. Segundo Thiago, é recomendado a ingestão de cerca de 2 a 3 litros de água por dia, pois muitos quimioterápicos são eliminados pela urina.

    Alterações no cheiro e na coloração da urina são comuns e não costumam indicar problemas, desde que o paciente esteja bem hidratado.

    3. Uso compartilhado do banheiro

    Não é necessário isolar o banheiro do paciente, de modo que a principal recomendação é manter medidas básicas de higiene, como dar descarga com a tampa do vaso fechada e manter o ambiente limpo. Seguindo as orientações, o risco de exposição para outros moradores é mínimo.

    4. Período de queda da imunidade

    A maior queda da imunidade costuma ocorrer entre o sétimo e o décimo dia após a quimioterapia, podendo se estender até o décimo quarto dia. Nesse período, Thiago orienta evitar visitas, aglomerações e possíveis fontes de infecção.

    O uso de máscara pode ser indicado, assim como cuidados rigorosos com a alimentação, evitando alimentos crus e refeições fora de casa.

    Vale apontar que, durante a fase de baixa imunidade, é comum o paciente apresentar fraqueza intensa, dores no corpo, dor óssea e cansaço, semelhantes a um quadro de gripe. O ideal é priorizar o repouso, evitar atividades físicas intensas e respeitar os limites do corpo.

    5. Proteção solar

    Alguns quimioterápicos interagem com a radiação solar, aumentando o risco de manchas na pele, tonturas e até desmaios. Por isso, o ideal é evitar a exposição solar direta. Quando for necessário, é recomendado uso de protetor solar no rosto e corpo, chapéu, roupas com proteção UV e permanência em locais com sombra.

    6. Cuidados com as veias

    Quando a quimioterapia é realizada por acesso venoso periférico, pode ocorrer inflamação e endurecimento das veias, segundo Thiago.

    Para preparar o braço, é recomendado o uso de compressas mornas, como chá de camomila, nos dias que antecedem a infusão. A hidratação adequada também contribui para facilitar o acesso venoso.

    7. Atividades físicas

    A atividade física pode e deve fazer parte da rotina, desde que seja leve e respeite os limites do corpo. Por exemplo, caminhadas curtas, alongamentos e pilates costumam ser bem tolerados e ajudam no bem-estar físico e emocional.

    Piscina, hidroginástica e até praia também podem ser opções, desde que o paciente não tenha feridas abertas, esteja em fase recente de cirurgia, com colostomia, lesões na pele ou realizando radioterapia com a pele muito sensível.

    8. Cuidados com cabelos e procedimentos estéticos

    Durante o tratamento, Thiago aponta que deve-se evitar produtos agressivos e procedimentos invasivos, como tinturas, alisamentos, peelings e outros tratamentos químicos. A pele e o couro cabeludo ficam mais sensíveis, e essas associações podem aumentar a queda de cabelo ou causar lesões.

    9. Contato com animais domésticos

    O contato com animais de estimação é permitido, desde que sejam mantidos cuidados básicos de higiene e que o contato mais próximo seja evitado durante o período de baixa imunidade. Não é necessário o afastamento definitivo dos pets.

    10. Consumo de álcool durante a quimioterapia

    A recomendação geral é evitar bebidas alcoólicas durante o tratamento oncológico. O álcool pode interferir no metabolismo dos quimioterápicos, aumentar a toxicidade, intensificar náuseas, causar desidratação e sobrecarregar fígado e rins. Em eventos sociais, uma alternativa é apostar em bebidas sem álcool.

    Acompanhamento médico durante o tratamento

    Cada paciente reage de forma diferente à quimioterapia ou à radioterapia, e sintomas, efeitos colaterais ou dúvidas podem surgir a qualquer momento.

    Por isso, é importante lembrar que nenhuma orientação geral substitui o acompanhamento direto e individualizado com o médico que conhece a história e as necessidades do paciente.

    Sempre que houver qualquer mudança no estado geral, aparecimento de novos sintomas, dificuldade para se alimentar, sinais de infecção, dor persistente ou mesmo insegurança em relação aos cuidados em casa, o ideal é procurar orientação profissional. Isso ajuda a evitar complicações e trazer mais segurança para a família e o paciente.

    Confira: Carcinoma basocelular: entenda mais sobre o tipo de câncer de pele que mais afeta os brasileiros

    Perguntas frequentes

    O que é o tratamento oncológico e quais são os tipos mais comuns?

    O tratamento oncológico envolve todas as terapias utilizadas para controlar, reduzir ou eliminar o câncer. Os tipos mais comuns incluem quimioterapia, radioterapia, cirurgia, imunoterapia, terapia-alvo e hormonioterapia.

    Em muitos casos, mais de um tipo é combinado, de acordo com o tipo de câncer, estágio da doença e condições clínicas do paciente.

    Por que o tratamento oncológico diminui a imunidade?

    A quimioterapia e alguns outros tratamentos atuam sobre células que se multiplicam rapidamente. Isso inclui as células do câncer, mas também células saudáveis da medula óssea, responsáveis pela produção dos glóbulos brancos, que defendem o organismo contra infecções.

    Com a redução dessas células, o sistema imunológico fica temporariamente enfraquecido, aumentando o risco de infecções, especialmente em determinados períodos do ciclo do tratamento.

    É normal sentir muito cansaço durante o tratamento oncológico?

    Sim, a fadiga relacionada ao câncer é um dos sintomas mais comuns e pode ser diferente do cansaço habitual. Ela não melhora apenas com descanso e pode estar relacionada à própria doença, aos tratamentos, à anemia, às alterações do sono e ao impacto emocional.

    A radioterapia também causa efeitos colaterais?

    Sim, mas normalmente localizados na área tratada, em que pode surgir vermelhidão na pele, cansaço, ressecamento e sensibilidade. Os efeitos costumam ser progressivos ao longo das sessões e tendem a melhorar após o término do tratamento. A equipe médica pode orientar cuidados específicos com a pele.

    É seguro usar medicamentos naturais ou suplementos durante o tratamento?

    Nem sempre, pois alguns produtos naturais podem interagir com a quimioterapia ou radioterapia, reduzindo a eficácia ou aumentando efeitos colaterais. Por isso, qualquer suplemento, chá ou medicamento alternativo deve ser discutido com o médico antes de ser utilizado.

    O paciente pode viajar durante o tratamento oncológico?

    Em alguns casos, sim. Viagens curtas podem ser permitidas, desde que o paciente esteja se sentindo bem, fora do período de baixa imunidade e com autorização médica. É importante planejar com cuidado, considerar acesso a serviços de saúde e evitar locais com grande aglomeração ou condições sanitárias inadequadas.

    Por que a quimioterapia pode causar queda de cabelo?

    Os folículos capilares têm células que se dividem rapidamente, assim como as células tumorais. A quimioterapia não diferencia essas células e acaba afetando o crescimento do cabelo.

    A queda é, na maioria das vezes, temporária, e os fios tendem a voltar após o término do tratamento, podendo inclusive nascer com textura ou cor diferentes.

    Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos

  • Câncer de pulmão: sintomas, tipos e como é feito o tratamento

    Câncer de pulmão: sintomas, tipos e como é feito o tratamento

    O câncer de pulmão ocupa a terceira posição entre os tipos de câncer mais comuns em homens e a quarta em mulheres no Brasil, sem contar o câncer de pele não melanoma, segundo dados do Ministério da Saúde. Além da alta incidência, a doença está entre as principais causas de morte por câncer no país.

    Normalmente, o câncer de pulmão apresenta poucos sintomas no início, o que faz com que o diagnóstico muitas vezes ocorra de forma tardia. Os primeiros sinais costumam ser inespecíficos, como tosse persistente, cansaço, falta de ar ou infecções respiratórias de repetição, facilmente confundidos com problemas comuns do dia a dia.

    Para entender como a doença se manifesta, os tipos e os principais tratamentos, conversamos com o oncologista Thiago Chadid. Confira!

    O que é câncer de pulmão?

    O câncer de pulmão é uma doença caracterizada pelo crescimento descontrolado de células anormais nos tecidos do pulmão. Elas se multiplicam de forma desordenada, formando tumores que podem comprometer a função pulmonar e, em alguns casos, se espalhar para outros órgãos do corpo.

    A doença pode se desenvolver nos brônquios, nos alvéolos ou em outras estruturas pulmonares e está bastante associada ao tabagismo, embora também possa ocorrer em pessoas que nunca fumaram, devido a fatores como poluição, exposição a substâncias tóxicas e predisposição genética.

    Tipos de câncer de pulmão

    O câncer de pulmão é classificado em dois tipos principais, de acordo com as características das células observadas ao microscópio. São eles:

    1. Carcinoma de células não pequenas

    O câncer de pulmão do tipo não pequenas células é o mais frequente, correspondendo a cerca de 85% dos casos. Ele é dividido em três subtipos principais:

    • Adenocarcinoma: costuma se desenvolver nas regiões mais periféricas do pulmão, a partir de células que produzem secreções. É o subtipo mais comum entre pessoas que nunca fumaram;
    • Carcinoma de células escamosas: surge nas células que revestem as vias aéreas dos pulmões e está fortemente associado ao tabagismo;
    • Carcinoma de grandes células: apresenta células pouco diferenciadas e pode aparecer em qualquer área do pulmão, normalmente com crescimento mais rápido e maior potencial de disseminação.

    2. Carcinoma de células pequenas

    O carcinoma de células pequenas é um tipo menos comum de câncer de pulmão, porém mais agressivo. Ele está fortemente associado ao tabagismo e costuma crescer de forma rápida, com maior tendência a se espalhar precocemente para outros órgãos.

    Fatores de risco para o câncer de pulmão

    De acordo com Thiago, o tabagismo é o principal fator de risco para o desenvolvimento do câncer de pulmão, estando relacionado à maioria dos casos diagnosticados. O risco aumenta de forma proporcional ao tempo de exposição e à quantidade de cigarros consumidos ao longo da vida, incluindo também o tabagismo passivo, quando há convivência frequente com fumantes.

    O oncologista ainda aponta que o risco é avaliado pelo cálculo conhecido como maços-ano, que considera a quantidade de cigarros fumados por dia ao longo dos anos. A partir de 20 maços-ano, o risco já é considerado elevado, e acima de 30 maços-ano o paciente passa a ser classificado como de alto risco.

    Além do cigarro, outros fatores também contribuem para o surgimento da doença, como:

    • Exposição prolongada à poluição do ar: a inalação contínua de poluentes, especialmente em grandes centros urbanos, pode causar inflamação crônica das vias respiratórias e danos às células pulmonares. Com o tempo, a agressão constante aumenta o risco de alterações celulares que podem evoluir para câncer;
    • Contato ocupacional com substâncias tóxicas: profissionais expostos a agentes como amianto, fumaça, poeiras químicas, carvão e outros produtos industriais apresentam maior risco de desenvolver câncer de pulmão. A exposição frequente e prolongada, muitas vezes sem proteção adequada, potencializa os danos ao tecido pulmonar;
    • Exposição ao gás radônio: o gás radônio é um gás radioativo, incolor e inodoro, que se origina do solo e pode se acumular em ambientes fechados. Em regiões específicas, a exposição contínua ao gás está associada a um aumento do risco de câncer de pulmão, inclusive em pessoas que nunca fumaram;
    • Fatores genéticos e histórico familiar: algumas mutações genéticas, como EGFR, KRAS e TP53, podem aumentar a predisposição ao câncer de pulmão. Pessoas com histórico familiar da doença tendem a apresentar maior risco, especialmente quando essas alterações genéticas estão associadas a outros fatores ambientais ou comportamentais, como tabagismo e poluição.

    Cigarro eletrônico também aumenta o risco de câncer de pulmão?

    Os cigarros eletrônicos funcionam por meio do aquecimento de uma solução líquida, transformada em aerossol inalado pela pessoa. Embora utilizem uma tecnologia diferente do cigarro convencional, apresentam riscos semelhantes à saúde, pois liberam compostos químicos nocivos que podem causar danos ao organismo e aumentar o risco de diversas doenças.

    Embora ainda faltem estudos de longo prazo, já que o uso desse dispositivo é relativamente recente, Thiago explica que há evidências de que o cigarro eletrônico provoca danos significativos ao pulmão. A inalação dos aerossóis pode causar inflamação, fibrose e lesões pulmonares graves.

    Além disso, a toxicidade das substâncias liberadas pode ser semelhante à do cigarro convencional. Por isso, existe a preocupação de que, com o passar dos anos, o uso do cigarro eletrônico também esteja associado a um aumento do risco de câncer e de outras doenças respiratórias.

    Sintomas do câncer de pulmão

    Os sintomas do câncer de pulmão normalmente não aparecem até que o tumor esteja em estágio mais avançado, mas algumas pessoas podem apresentar:

    • Tosse persistente;
    • Escarro com presença de sangue;
    • Dor no peito;
    • Rouquidão;
    • Piora da falta de ar;
    • Perda de peso e diminuição do apetite;
    • Pneumonia ou bronquite de repetição;
    • Sensação constante de cansaço ou fraqueza;
    • Em fumantes, mudança no padrão habitual da tosse, com crises em horários incomuns.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico do câncer de pulmão começa, normalmente, a partir da suspeita clínica, baseada em sintomas persistentes ou em achados incidentais em exames de imagem. O primeiro exame mais utilizado é a tomografia computadorizada do tórax, que permite identificar nódulos, massas ou outras alterações pulmonares com maior precisão.

    Quando a tomografia mostra uma lesão suspeita, podem ser solicitados exames complementares, como:

    • PET-CT: utilizado para avaliar a atividade metabólica do tumor e verificar se há disseminação da doença para outros órgãos, auxiliando no estadiamento;
    • Broncoscopia: exame realizado para visualizar as vias aéreas e coletar amostras do tumor quando ele está localizado nos brônquios;
    • Biópsia pulmonar: confirma o diagnóstico. Pode ser feita por broncoscopia, punção guiada por tomografia ou cirurgia, dependendo da localização da lesão;
    • Exames moleculares e genéticos: realizados no material da biópsia para identificar mutações específicas, fundamentais para definir o tratamento mais adequado.

    Segundo Thiago, é comum que o diagnóstico de câncer de pulmão ocorra após tratamentos repetidos para pneumonia que não apresentam boa resposta. Em outros casos, a doença é identificada durante exames realizados por outros motivos, como tomografias solicitadas após um AVC, investigação de fraturas ósseas ou dores persistentes, muitas vezes quando já existem metástases.

    Tratamento do câncer de pulmão

    O tratamento de câncer de pulmão depende do estágio da doença, do tamanho do tumor, do acometimento de linfonodos e da presença de mutações genéticas, segundo Thiago. Entre as opções de tratamento, que podem ser combinadas, destacamos:

    • Cirurgia: indicada principalmente nos estágios iniciais da doença, quando o tumor está restrito ao pulmão. Consiste na remoção do tumor e, em alguns casos, de parte do pulmão e dos linfonodos próximos, com o objetivo de eliminar completamente o câncer;
    • Radioterapia: utiliza radiação de alta energia para destruir as células cancerígenas ou impedir seu crescimento. Pode ser usada como tratamento principal em pacientes que não podem ser operados, como complemento após a cirurgia ou em associação com outros tratamentos;
    • Quimioterapia: envolve o uso de medicamentos que atuam de forma sistêmica, atingindo células cancerígenas em todo o corpo. Pode ser indicada antes da cirurgia para reduzir o tumor, após a cirurgia para diminuir o risco de recidiva ou em casos mais avançados da doença;
    • Imunoterapia: estimula o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células cancerígenas;
    • Terapia-alvo: utiliza medicamentos que atuam diretamente em alterações genéticas específicas das células tumorais. É indicado para pacientes que apresentam mutações específicas e tende a causar menos efeitos colaterais do que a quimioterapia tradicional.

    Segundo Thiago, pacientes que apresentam mutações genéticas como EGFR e ALK seguem protocolos de tratamento específicos, normalmente com terapias-alvo, e em muitos casos alcançam um melhor controle da doença, que pode se comportar de forma crônica por longos períodos.

    Como prevenir o câncer de pulmão?

    A prevenção do câncer de pulmão envolve a redução da exposição aos principais fatores de risco:

    • Não fumar e evitar o tabagismo em todas as suas formas;
    • Evitar a exposição ao fumo passivo, especialmente em ambientes fechados;
    • Reduzir a exposição à poluição do ar sempre que possível;
    • Utilizar equipamentos de proteção em ambientes de trabalho com exposição à fumaça, poeira ou substâncias tóxicas;
    • Evitar o uso de cigarro eletrônico;
    • Manter ambientes bem ventilados, principalmente em residências e locais fechados;
    • Realizar acompanhamento médico regular, especialmente em pessoas com maior risco;
    • Considerar o rastreamento com tomografia de baixa dose em fumantes e ex-fumantes de alto risco.

    Rastreamento de câncer de pulmão

    Diferentemente de outros tipos de câncer, o rastreamento do câncer de pulmão não é indicado para toda a população, sendo direcionado apenas a pessoas com maior risco de desenvolver a doença.

    As diretrizes internacionais, como as da U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF, 2021), recomendam o rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose para pessoas entre 50 e 80 anos, com histórico de tabagismo intenso, definido como carga tabágica de pelo menos 20 maços-ano, ou que tenham parado de fumar há menos de 15 anos.

    Ainda assim, existem riscos associados à investigação de achados positivos, como exames e procedimentos adicionais desnecessários. Por isso, a indicação do rastreamento deve ser individualizada e discutida de forma cuidadosa entre o paciente e o médico.

    Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos

    Perguntas frequentes

    Pessoas que nunca fumaram podem ter câncer de pulmão?

    Sim. Apesar de ser mais comum em fumantes, o câncer de pulmão também pode ocorrer em pessoas que nunca fumaram, especialmente devido à poluição, exposição ambiental, fatores genéticos ou contato prolongado com fumaça de terceiros.

    O que é estadiamento do câncer de pulmão?

    O estadiamento é a avaliação da extensão da doença. Ele mostra se o câncer está restrito ao pulmão ou se já se espalhou para linfonodos ou outros órgãos. Essa informação é essencial para definir o tratamento.

    O câncer de pulmão tem cura?

    A possibilidade de cura depende do estágio da doença no momento do diagnóstico. Em fases iniciais, a cirurgia pode ser curativa. Em estágios mais avançados, os tratamentos visam controlar a doença e melhorar a qualidade de vida.

    Quem deve fazer rastreamento para câncer de pulmão?

    O rastreamento é indicado para pessoas de alto risco, como fumantes ou ex-fumantes com histórico de consumo elevado de cigarros, normalmente por meio de tomografia de baixa dose.

    A alimentação ou o estilo de vida influenciam no risco?

    Um estilo de vida saudável, com alimentação equilibrada, prática de atividade física e controle de doenças crônicas, contribui para a saúde geral e pode ajudar na prevenção. No entanto, essas medidas não substituem a importância de evitar o tabagismo e exposições de risco.

    Câncer de pulmão pode dar metástase?

    Sim, o câncer de pulmão pode causar metástase, e essa é uma das principais características da doença quando não diagnosticada em fases iniciais.

    A metástase ocorre quando células cancerígenas se desprendem do tumor original no pulmão, entram na circulação sanguínea ou linfática e se instalam em outros órgãos, formando novos focos da doença.

    Confira: Carcinoma basocelular: entenda mais sobre o tipo de câncer de pele que mais afeta os brasileiros