No Brasil, aproximadamente 10 mil novos casos de leucemia surgem todos os anos, de acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer.
A doença pode se manifestar em qualquer idade, mas é o tipo de câncer mais frequente entre crianças e adolescentes, representando cerca de 30% de todos os casos de câncer infantil.
Conversamos com o oncologista Thiago Chadid para esclarecer como a leucemia se desenvolve, quais são os principais sinais de alerta, os fatores de risco envolvidos e como funcionam os tratamentos disponíveis atualmente.
O que é leucemia?
A leucemia é um tipo de câncer que se origina nas células do sangue, mais especificamente na medula óssea, local onde são produzidas as células sanguíneas.
Ela ocorre quando uma célula precursora sofre uma mutação genética e passa a se multiplicar de forma desordenada, originando células anormais que não cumprem adequadamente suas funções.
As células defeituosas, normalmente da série branca, se acumulam na medula óssea e na corrente sanguínea, prejudicando a produção das células normais, como os glóbulos vermelhos, as plaquetas e os leucócitos saudáveis. Como resultado, o organismo passa a apresentar alterações na imunidade, maior risco de infecções, anemia e sangramentos.
Vale apontar que, diferente de outros tipos de câncer, a leucemia não forma uma massa ou tumor sólido, pois se desenvolve nas células do sangue e da medula óssea, espalhando-se pela corrente sanguínea.
Como surgem as leucemias na medula óssea
Na medula óssea existem células precursoras, também chamadas de células-tronco hematopoéticas. Elas são responsáveis por produzir todas as células do sangue e dão origem a três grandes grupos, conforme aponta Thiago Chadid:
- Série branca, que atua na defesa do organismo;
- Série vermelha, que forma os glóbulos vermelhos, responsáveis por levar oxigênio para todo o corpo;
- Série plaquetária, que produz as plaquetas, importantes para a coagulação do sangue.
A série branca está diretamente ligada ao sistema imunológico. A partir dessas células precursoras surgem vários tipos de células de defesa, entre elas os linfócitos, que se dividem principalmente em linfócitos T e linfócitos B.
Os linfócitos T atuam de forma direta no combate a tumores, bactérias e outros agentes estranhos ao organismo. Já os linfócitos B são responsáveis pela produção de anticorpos, que ajudam a neutralizar infecções.
Além dos linfócitos, existem outras células da série branca que participam de processos inflamlórios e reações alérgicas, formando um sistema de defesa bastante complexo.
A leucemia surge quando ocorre uma mutação nas células precursoras da série branca. A partir dessa alteração, as células passam a se multiplicar de forma descontrolada e deixam de exercer corretamente a função de defesa.
Quais os tipos de leucemia?
As leucemias são classificadas em dois grandes grupos, de acordo com a linhagem acometida:
- Leucemias mieloides, que afetam a linhagem mieloide, responsável pela formação de diferentes células do sangue, como neutrófilos, monócitos, eosinófilos, basófilos e plaquetas;
- Leucemias linfoides, que atingem a linhagem linfóide, responsável pela produção dos linfócitos, células fundamentais para o funcionamento do sistema imunológico.
Além dessa divisão, as leucemias também são classificadas conforme a velocidade de evolução da doença, segundo Thiago:
- Leucemias agudas, nas quais as células doentes se multiplicam rapidamente e os sintomas costumam surgir em pouco tempo;
- Leucemias crônicas, que apresentam crescimento mais lento e podem permanecer assintomáticas por longos períodos.
De acordo com o oncologista, as leucemias crônicas têm prognóstico mais favorável do que as agudas, pois evoluem de forma lenta. Já as leucemias agudas são mais graves, com multiplicação rápida e descontrolada das células, podendo causar complicações circulatórias e maior risco de trombose.
Independentemente do tipo, todas as leucemias compartilham uma característica central: as células leucêmicas são disfuncionais.
Mesmo quando o exame de sangue mostra um número elevado de leucócitos, essas células não são capazes de exercer adequadamente sua função de defesa, o que compromete o sistema imunológico.
Além disso, as células anormais passam a ocupar espaço na medula óssea, prejudicando a produção das células saudáveis. Com o tempo, ocorre redução dos glóbulos vermelhos e das plaquetas, o que pode levar à anemia, sangramentos frequentes e aumento do risco de infecções.
Fatores de risco para a leucemia
Os fatores de risco para a leucemia ainda não explicam totalmente a origem da doença, mas diversos estudos indicam que determinadas condições e exposições aumentam a chance de desenvolvimento de alguns tipos específicos.
Entre os principais fatores de risco conhecidos, o Ministério da Saúde destaca:
- Exposição ao benzeno, substância presente na gasolina e amplamente utilizada na indústria química, associada à leucemia mieloide aguda e crônica e à leucemia linfoide aguda;
- Radiação ionizante, como raios X e raios gama, especialmente quando relacionada a procedimentos médicos como a radioterapia. O risco varia conforme a idade, a dose e o tempo de exposição;
- Quimioterapia, sobretudo algumas classes de medicamentos utilizadas no tratamento do câncer e de doenças autoimunes, relacionada principalmente à leucemia mieloide aguda e à leucemia linfoide aguda;
- Exposição ao formaldeído, comum em ambientes industriais (química, têxtil, entre outras) e na área da saúde, como hospitais e laboratórios;
- Trabalho na produção de borracha, associado ao aumento do risco de diferentes tipos de leucemia;
- Exposição a agrotóxicos e solventes, além de infecção pelos vírus das hepatites B e C, fatores relacionados ao aumento do risco de leucemia;
- Síndrome mielodisplásica e outras doenças do sangue, que podem evoluir para leucemia mieloide aguda;
- Idade avançada, fator de risco importante para a maioria dos tipos de leucemia. A exceção é a leucemia linfoide aguda, mais frequente em crianças;
- Tabagismo, associado principalmente ao aumento do risco de leucemia mieloide aguda.
Segundo Thiago, a predisposição genética é relativamente rara, estimada em cerca de 4 a 5% dos casos de leucemia.
Quais os sintomas de leucemia?
A leucemia pode ser assintomática no início e ser descoberta em exames de rotina. À medida que evolui, podem surgir sintomas como:
- Cansaço e fraqueza;
- Febre persistente;
- Perda de peso e sudorese noturna;
- Infecções frequentes e de difícil controle;
- Sangramentos fáceis, hematomas e manchas na pele;
- Anemia e queda das plaquetas.
Nas leucemias agudas, a evolução pode ser muito rápida, ocorrendo em dias ou semanas. Em alguns casos, sem tratamento imediato, o quadro pode levar ao óbito em pouco tempo, segundo Thiago.
Já nas crônicas, a doença costuma ser descoberta por acaso em check-ups e acompanhada por muitos anos, às vezes sem necessidade de tratamento imediato.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da leucemia começa, normalmente, com um hemograma, que pode mostrar alterações como aumento ou redução dos leucócitos, anemia e queda das plaquetas. Em alguns casos, também aparecem células imaturas no sangue.
Para confirmar o diagnóstico, é necessário o exame da medula óssea, por meio do mielograma e, quando indicado, da biópsia de medula óssea. Eles permitem avaliar a quantidade, o tipo e o grau de maturação das células sanguíneas.
Após a confirmação, podem ser realizados exames complementares, como imunofenotipagem, citogenética e testes moleculares, que identificam o subtipo da leucemia, alterações genéticas específicas e ajudam a definir o melhor tratamento.
Tratamento de leucemia
Nas leucemias agudas, o tratamento costuma ser mais agressivo e precisa ser iniciado rapidamente, segundo Thiago. Os principais métodos incluem:
- Quimioterapia intensiva, com o objetivo de eliminar as células leucêmicas e permitir a recuperação da medula óssea;
- Transplante de medula óssea, indicado em alguns casos para reduzir o risco de recaída e aumentar as chances de cura.
Nas leucemias crônicas, o tratamento normalmente é mais brando e individualizado, podendo incluir:
- Medicamentos orais, que ajudam a controlar a doença ao longo do tempo;
- Terapias-alvo, como inibidores de tirosina-quinase e anticorpos monoclonais, que atuam diretamente nas células alteradas.
Em alguns pacientes crônicos, principalmente nos estágios iniciais e sem sintomas, pode ser adotada apenas a estratégia de acompanhamento regular, sem necessidade de tratamento imediato.
Acompanhamento pós-tratamento
Após o tratamento da leucemia, o acompanhamento médico contínuo é fundamental para identificar sinais precoces de retorno e lidar com possíveis efeitos tardios do tratamento, contribuindo para preservar a saúde e a qualidade de vida do paciente ao longo do tempo.
De forma geral, o acompanhamento inclui:
- Consultas médicas periódicas, voltadas à avaliação clínica e ao esclarecimento de dúvidas;
- Exames de sangue regulares, utilizados para acompanhar o funcionamento da medula óssea e identificar alterações iniciais;
- Exames complementares, solicitados quando há necessidade de investigação adicional;
- Monitoramento de sintomas, como cansaço, febre ou sangramentos, que devem ser relatados ao médico;
- Apoio psicológico e emocional, importante para lidar com os impactos físicos e emocionais da doença;
- Atualização vacinal e cuidados gerais de saúde, com foco na prevenção de infecções e outras complicações.
A rotina de acompanhamento pode variar conforme o tipo de leucemia, o tratamento realizado e as condições individuais de cada paciente, sempre seguindo orientação médica.
É possível prevenir a leucemia?
Na maioria dos casos, a leucemia não pode ser prevenida, pois muitas pessoas que desenvolvem a doença não apresentam fatores de risco conhecidos ou modificáveis, segundo o Ministério da Saúde.
Mesmo assim, algumas medidas podem ajudar a reduzir o risco, como:
- Não fumar, já que o tabagismo aumenta o risco de leucemia mieloide aguda e de vários outros tipos de câncer;
- Reduzir a exposição ocupacional a substâncias químicas, como solventes e agentes comprovadamente cancerígenos, sempre que possível;
- Utilizar equipamentos de proteção individual no trabalho, para diminuir o contato com substâncias nocivas;
- Buscar orientação em serviços de saúde, especialmente em casos de tratamento prévio com quimioterapia ou radioterapia.
Leucemia tem cura?
Nas leucemias crônicas, o foco do tratamento costuma ser o controle da doença, e não a cura definitiva. Muitos pacientes convivem com a leucemia por vários anos, mantendo boa qualidade de vida, de forma semelhante ao acompanhamento de doenças crônicas como diabetes ou hipertensão.
Nas leucemias agudas, de acordo com o tipo da doença, o diagnóstico precoce e a resposta ao tratamento, pode haver possibilidade de cura, principalmente quando o transplante de medula óssea é indicado. Após um período prolongado sem sinais da doença, o paciente pode ser considerado curado.
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Perguntas frequentes
A leucemia é hereditária?
Na maioria dos casos, não. Apenas uma pequena parcela das leucemias tem relação direta com fatores genéticos herdados. Ter um familiar com leucemia não significa, necessariamente, que a doença irá se desenvolver.
A leucemia pode voltar após o tratamento?
Em alguns casos, a leucemia pode reaparecer, situação conhecida como recaída. O risco varia conforme o tipo da doença, as alterações genéticas envolvidas e a resposta inicial ao tratamento. Por esse motivo, o acompanhamento médico após o término da terapia é fundamental.
Leucemia é contagiosa?
Não, a leucemia não é uma doença contagiosa e, portanto, não ocorre transmissão por contato físico, saliva, sangue ou convivência diária. É uma doença relacionada a alterações celulares internas.
Leucemia pode afetar outros órgãos?
As células leucêmicas circulam pelo sangue e podem se acumular em órgãos como baço, fígado e linfonodos, causando aumento de volume e desconforto. As complicações também podem ocorrer em razão de infecções ou sangramentos.
Atividade física é permitida durante o tratamento de leucemia?
A atividade física leve a moderada pode ser benéfica, desde que liberada pelo médico. Exercícios ajudam na recuperação, no controle do cansaço e no bem-estar emocional, respeitando sempre as limitações individuais.
Quando procurar um médico por suspeita de leucemia?
A procura por avaliação médica é indicada diante de sintomas persistentes como cansaço intenso, febre sem causa aparente, sangramentos frequentes, manchas roxas, infecções recorrentes ou alterações em exames de sangue de rotina.
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