Como a genética influencia o risco de obesidade? Endocrinologista explica

Pessoa observando balança no chão ao refletir sobre o impacto da genética no risco de obesidade

A obesidade é uma doença crônica com origem multifatorial, o que significa que ela resulta da interação entre diferentes fatores, inclusive os genéticos. A presença de determinados genes pode influenciar o metabolismo, o controle do apetite, a forma como o corpo armazena gordura e até a resposta emocional aos alimentos.

Para se ter uma ideia, pesquisas indicam que a herança genética pode explicar entre 40% e 70% da predisposição ao ganho de peso. Na prática, parte da facilidade para engordar ou manter o peso está ligada aos genes herdados — embora os fatores ambientais e comportamentais também façam diferença tanto no risco quanto no controle do peso.

Por que algumas pessoas engordam com facilidade e outras não?

A diferença pode acontecer por uma combinação de fatores genéticos e metabólicos. Segundo a endocrinologista Denise Orlandi, pessoas que não ganham peso com facilidade podem apresentar algumas características, como:

  • Metabolismo basal mais acelerado: o organismo tende a gastar mais calorias mesmo em repouso, apenas para manter funções vitais, como respiração, circulação e regulação da temperatura corporal. Isso pode facilitar o equilíbrio do peso ao longo do tempo;
  • Genética mais favorável: algumas variações genéticas ajudam a regular melhor o apetite, a saciedade e o metabolismo energético, além de dificultarem o acúmulo excessivo de gordura em determinadas pessoas;
  • Maior quantidade de massa muscular: o tecido muscular consome mais energia do que o tecido gorduroso, inclusive em repouso. Por isso, quem tem mais massa muscular costuma apresentar um gasto calórico diário mais elevado;
  • NEAT mais elevado (termogênese de atividade não relacionada ao exercício): movimentos espontâneos do dia a dia, como gesticular, mudar de posição, subir escadas ou caminhar pequenas distâncias, também aumentam o gasto energético total sem necessariamente envolver exercícios formais.

Por outro lado, quem engorda com mais facilidade pode ter uma predisposição genética para um metabolismo mais “econômico”, que tende a armazenar energia com maior eficiência.

Quais genes aumentam o risco de obesidade?

Um dos genes mais estudados é o gene FTO, associado ao acúmulo de gordura corporal. Segundo Denise, algumas variações parecem influenciar a sensação de saciedade, fazendo com que a pessoa sinta fome com mais frequência ou tenha maior preferência por alimentos mais calóricos.

Na prática, a endocrinologista explica que os genes não funcionam como um botão simples de “liga e desliga”, mas podem influenciar vários processos importantes do organismo, como:

  • Regulação do apetite, pois alguns genes interferem na produção e na ação de hormônios ligados à fome e à saciedade;
  • Sensação de saciedade, que podem reduzir a percepção de que o corpo já recebeu energia suficiente;
  • Metabolismo energético, que influencia a velocidade com que o organismo gasta calorias;
  • Armazenamento de gordura, que podem facilitar ou dificultar a formação e o acúmulo de células de gordura.

“Muitos genes associados à obesidade atuam no cérebro, modulando a percepção da fome, a resposta de recompensa a alimentos saborosos (o prazer ao comer) e a sensibilidade aos hormônios que nos dizem para parar de comer, como a leptina”, complementa Denise.

Ter pais com obesidade significa que a pessoa também terá?

Ter pais com obesidade aumenta o risco, mas não significa que a pessoa necessariamente também terá obesidade. A genética influencia o metabolismo, o apetite e a forma como o corpo armazena gordura, mas a obesidade também envolve fatores como a alimentação, o nível de atividade física, a qualidade do sono e até a forma de lidar com o estresse.

Quando existe predisposição genética, manter uma rotina saudável desde cedo pode ajudar bastante a reduzir o risco e favorecer a manutenção de um peso adequado ao longo da vida.

É possível prevenir a obesidade mesmo com predisposição genética?

É possível prevenir a obesidade mesmo quando existe uma predisposição genética, uma vez que ela não é capaz de determinar sozinha o desenvolvimento da doença. “Embora a predisposição genética possa tornar o controle do peso mais desafiador, as escolhas de estilo de vida são ferramentas poderosas para superar essa tendência”, explica Denise.

Entre algumas das medidas para prevenir a obesidade, é possível destacar:

  • Manter uma alimentação equilibrada: priorizar alimentos naturais e minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais e proteínas magras. Reduzir o consumo frequente de ultraprocessados, bebidas açucaradas e alimentos muito ricos em gordura e açúcar contribui para o controle do peso e da saúde metabólica;
  • Praticar atividade física regularmente: a combinação de exercícios aeróbicos, como caminhada, corrida ou bicicleta, com treino de força ajuda no gasto calórico, na manutenção da massa muscular e na melhora do metabolismo ao longo do tempo;
  • Cuidar da qualidade do sono: dormir poucas horas ou ter um sono irregular pode alterar hormônios ligados à fome e à saciedade, favorecendo o aumento do apetite e a preferência por alimentos mais calóricos;
  • Gerenciar o estresse e a saúde emocional: situações de estresse prolongado podem estimular a fome emocional e alterar o funcionamento hormonal, o que influencia diretamente o peso corporal;
  • Evitar longos períodos de sedentarismo: pequenas movimentações ao longo do dia, como levantar mais vezes, caminhar curtas distâncias ou usar escadas, também ajudam no gasto energético diário.

O acompanhamento com profissionais de saúde, como nutricionista, endocrinologista e educador físico, também pode ajudar na construção de hábitos mais saudáveis e sustentáveis.

Com a orientação adequada, fica mais fácil identificar as dificuldades individuais, ajustar a alimentação, organizar uma rotina de atividade física segura e acompanhar possíveis alterações metabólicas.

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Perguntas frequentes

1. O que é obesidade monogênica?

É uma forma grave e rara (cerca de 1% a 5% dos casos) de obesidade causada pela mutação em um único gene, geralmente na via da leptina-melanocortina. Nesses casos, a pessoa sente uma fome voraz (hiperfagia) desde os primeiros meses de vida.

2. Como a genética influencia o apetite?

Muitos genes ligados à obesidade não atuam no estômago, mas no cérebro (hipotálamo). Eles determinam a sensibilidade aos sinais de fome e saciedade, regulando o quanto você precisa comer para se sentir satisfeito.

3. Existe um exame genético que avalia o risco de obesidade?

Alguns testes genéticos conseguem identificar variantes associadas ao risco aumentado de obesidade, principalmente em casos específicos ou raros. Porém, na prática clínica, os exames ainda têm uso limitado, porque o ganho de peso costuma depender de muitos fatores além dos genes.

4. A genética pode influenciar a forma como o corpo distribui gordura?

Sim, certas características hereditárias determinam se a gordura tende a se concentrar mais na região abdominal, nos quadris ou em outras áreas. A gordura abdominal, por exemplo, costuma ter maior associação com riscos metabólicos.

5. Crianças com predisposição genética devem ter cuidados diferentes?

O ideal é incentivar hábitos saudáveis desde cedo, como alimentação equilibrada, rotina ativa e bom padrão de sono. Isso não envolve uma restrição extrema, mas criar um ambiente favorável ao desenvolvimento saudável.

6. Medicamentos podem ser indicados quando há predisposição genética?

Em alguns casos, sim. Quando existe dificuldade importante para controlar o peso apenas com mudanças no estilo de vida, o médico pode avaliar a indicação de tratamento medicamentoso.

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