Alergia infantil: quando suspeitar e quais sinais você deve ficar atento

Criança com nariz escorrendo e lenço nas mãos, sentada no sofá e enrolada em cobertor, ilustrando sintomas comuns de alergia infantil

As crianças nem sempre conseguem explicar o que estão sentindo no dia a dia, o que pode tornar complicado identificar problemas de saúde — incluindo alergias, como dermatite atópica, rinite alérgica ou alergia alimentar.

Em muitos casos, os sinais aparecem de forma sutil e acabam sendo confundidos com reações comuns da infância.

“As alergias na infância são comuns e fazem parte do dia a dia de muitas famílias. Nem todo sintoma é alergia, mas alguns sinais merecem atenção especial”, aponta a alergista e imunologista Brianna Nicoletti. Vamos entender mais, a seguir.

Quando desconfiar de alergia infantil?

Os sintomas de alergia em bebês e crianças podem variar, mas normalmente envolvem a pele, o sistema respiratório e o trato gastrointestinal.

Na pele

  • Manchas vermelhas ou placas avermelhadas;
  • Coceira persistente;
  • Ressecamento intenso da pele;
  • Feridas ou lesões que não cicatrizam com facilidade.

De acordo com Brianna, a dermatite atópica costuma ser uma das primeiras manifestações alérgicas da infância. Em muitos bebês, ela surge nos primeiros meses de vida, com placas avermelhadas, coceira intensa e pele muito seca, principalmente no rosto, dobras dos braços e pernas

“Ela pode ser o primeiro passo do que chamamos de ‘marcha atópica’, um percurso em que algumas crianças evoluem, ao longo dos anos, para rinite, asma ou alergias alimentares”, explica a especialista.

No sistema respiratório

  • Espirros repetidos;
  • Nariz entupido sem presença de febre;
  • Coriza clara e frequente;
  • Tosse persistente;
  • Chiado no peito.

Os sinais levantam a suspeita de doenças alérgicas como rinite e asma. “Quando esses sintomas se repetem ao longo do ano ou pioram em ambientes específicos, como casa com poeira ou presença de animais, a alergia se torna ainda mais provável”, complementa Brianna.

No trato gastrointestinal

  • Vômitos repetidos;
  • Diarreia persistente;
  • Presença de sangue ou muco nas fezes;
  • Barriga inchada ou distensão abdominal;
  • Recusa alimentar ou dificuldade para se alimentar.

A suspeita de alergia alimentar aumenta quando os sintomas surgem logo após o consumo de um alimento específico.

Como diferenciar uma alergia infantil de uma infecção?

De acordo com Brianna, nas infecções, os sintomas costumam surgir de forma mais intensa e vêm acompanhados de sintomas como:

  • Febre;
  • Mal-estras geral;
  • Cansaço;
  • Duração limitada, com melhora progressiva ao longo dos dias.

Um exemplo comum é o nariz escorrendo após uma gripe, que melhora gradualmente conforme a infecção passa.

Nas alergias, o quadro costuma ser diferente, pois:

  • Não há febre;
  • Os sintomas se repetem ou permanecem por longos períodos;
  • Nariz entupido ou escorrendo pode durar semanas ou meses;
  • Tosse e chiado aparecem de forma persistente, fora de quadros infecciosos.

Um nariz entupido que dura meses e não vem acompanhado de febre costuma indicar uma alergia, e não infecção. O mesmo vale para tosse e chiado no peito que continuam mesmo depois de uma gripe ou virose já ter passado.

Quando procurar um alergologista?

A consulta com um alergologista é indicada quando os sintomas se tornam frequentes, persistentes ou mais intensos, interferindo no bem-estar e na rotina da criança. Entre alguns dos sinais, é possível destacar:

  • Crises respiratórias repetidas, como tosse, chiado ou falta de ar;
  • Dermatite intensa ou de difícil controle;
  • Suspeita de alergia alimentar;
  • Uso constante de medicamentos, sem melhora satisfatória;
  • Histórico familiar importante de alergias.

A avaliação médica ajuda a identificar a causa dos sintomas e a orientar o tratamento mais adequado, trazendo mais qualidade de vida para a criança.

Como confirmar a alergia?

A confirmação de uma alergia é feita por avaliação médica, geralmente com um alergologista. É feita uma conversa detalhada sobre os sintomas da criança, quando surgem, com que frequência aparecem e se há relação com alimentos, poeira, animais, medicamentos ou outros fatores do dia a dia.

Após a avaliação, o especialista pode solicitar alguns exames, como:

  • Teste cutâneo de puntura (prick test): pequenas quantidades de substâncias alergênicas são aplicadas na pele para observar se ocorre reação local;
  • Dosagem de IgE específica no sangue: exame que identifica sensibilização a alimentos, ácaros, pólens, pelos de animais e outros alérgenos;
  • IgE total: avalia o nível geral de imunoglobulina E, que pode estar elevado em pessoas alérgicas;
  • Teste de exclusão e reintrodução alimentar: retirada temporária do alimento suspeito e reintrodução controlada, sempre com acompanhamento médico;
  • Teste de provocação oral, em ambiente hospitalar, quando há necessidade de confirmar alergia alimentar de forma segura.

A escolha dos exames depende da idade da criança, dos sintomas apresentados e da suspeita clínica.

Sinais de alerta para ir ao pronto-socorro imediatamente

No dia a dia, é fundamental que os pais prestem atenção em alguns sinais, que podem indicar uma reação alérgica grave (anafilaxia) e precisam de atendimento de emergência, com:

  • Inchaço dos lábios, da língua ou do rosto;
  • Dificuldade para respirar ou falta de ar;
  • Chiado intenso no peito;
  • Palidez ou aspecto muito abatido;
  • Sonolência excessiva ou confusão;
  • Queda de pressão;
  • Vômitos repetidos após ingerir um alimento ou após picada de inseto.

Quanto mais cedo o socorro, maiores são as chances de evitar complicações para o pequeno.

Confira: Entenda como funciona a alergia alimentar e o que fazer

Perguntas frequentes

1. O bebê pode ter alergia ao leite materno?

Não, o bebê não tem alergia ao leite da mãe, mas sim a proteínas que a mãe consome (como as do leite de vaca, ovo ou soja) e que passam para o leite materno.

2. Intolerância à lactose é o mesmo que alergia ao leite?

Não, a alergia é uma reação do sistema imune à proteína. A intolerância é uma dificuldade do sistema digestivo em processar o açúcar do leite (lactose). Bebês raramente têm intolerância à lactose.

3. Com qual idade se pode fazer testes de alergia?

Testes de sangue (IgE específica) ou de picada na pele (Prick Test) podem ser feitos em qualquer idade, mas a interpretação em bebês muito pequenos deve ser feita com cautela pelo especialista.

4. A introdução alimentar tardia evita alergias?

Atualmente, a recomendação é não adiar. Introduzir alimentos potencialmente alergênicos entre os 6 e 9 meses, enquanto ainda há amamentação, pode criar uma “janela de tolerância”.

5. O que fazer em caso de uma reação grave (choque anafilático)?

Deve-se buscar o pronto-socorro imediatamente. Crianças com histórico de reações graves devem portar sempre uma caneta aplicadora de adrenalina autoinjetável.

6. O sabão em pó das roupas pode causar alergia?

Sim, mas geralmente é uma dermatite de contato. Os perfumes e corantes dos produtos de limpeza irritam a pele sensível. O ideal é usar sabões neutros (tipo coco) e enxaguar bem as roupas.

7. Como lidar com a escola em caso de alergia alimentar severa?

A escola deve ter um plano de ação escrito pelo médico, cópia da receita e treinamento para os professores. É essencial ter um kit de emergência e avisar todos os pais da turma para evitar o envio de certos alimentos em festinhas.

Veja também: Alergias em crianças: como a escola deve lidar?